Mosteiro das Sete Formas, 20 de Neth de 4592 AR


O clérigo Itori regressou e voltou a partir, com um sincero e trémulo pedido de perdão. O seu feitiço divino, que deveria curar Pather, falhara. Depois disso, ainda desencantara um pergaminho do interior da mala a tiracolo que trouxera, e lera o feitiço nele embutido. As palavras emitiram um brilho amarelado, e consumiram-se pela magia, desaparecendo. No entanto, o resultado não fora diferente da primeira tentativa.

Após a saída do servo da deusa Sarenrae, a Directora ficara parada à porta do quarto, observando os acamados, a testa formando uma série de rugas firmes. Poucas eram as crianças cujo estado estava razoável: conseguiam alimentar-se, apesar de enfraquecidas, e erguiam-se sozinhas, se se esforçassem. Porém as restantes decaíam depressa. Cerrou um punho com força.

– Ayalal – chamou.

De onde estava, junto de Pather, o rapaz fingiu que não estivera a olhá-la discretamente. Hendran retirara-se há não muito tempo para recuperar das horas que passara em claro a cuidar do órfão.

– Sim, senhora Drane? – perguntou, deixando a tina de água em paz por um momento. Os dedos estavam dormentes da frieza em que mergulhavam. Apertou-os sobre as coxas, aguardando.

A directora levou uma mão ao queixo, hesitante e pensativa, depois abanou a cabeça numa negativa. Os ombros descaídos e as costas levemente vergadas denunciavam como a epidemia roubava forças à mulher de meia-idade, sem necessitar de a contaminar.

Afastou-se do quarto, sem nada mais dizer. Pouco depois, lá em baixo, Ay escutou uma das portas principais bater.

O tempo passou devagar. Ele foi cuidando de todos como podia, no entanto, ao dar mais atenção a Pather, acabava por inevitavelmente descurar outros. Só teve completa noção disso quando, a algumas enxergas de distância, ouviu um ofegar forte, seguido de movimentos rápidos. Assustado, ergueu-se de um salto, enquanto o olhar pulava de pessoa em pessoa, até se aperceber quem era. Correu para lá e, sem ter a certeza do que fazer, tentou agarrar o corpo da jovem que estremecia violentamente com convulsões. Falhou à primeira tentativa, mas à segunda prendeu-lhe os braços, mantendo-a de costas junto ao chão. Não conseguia fazer nada quanto às pernas que chutavam o ar e se contorciam, nem ao pescoço que por alguns momentos quase parecia deslocado.

– Hendran! – gritou Ay, aflito. – Hendran!

Não obteve resposta. Apesar da porta aberta, a outra rapariga estava a alguma distância, a recuperar da exaustão. Era pouco provável que o escutasse.

Por entre os espasmos, o corpo foi incapaz de controlar o interior, e foi possível primeiro ouvir e depois sentir o odor forte e repulsivo de dejectos e sangue. Ayalal conteve a respiração por uns segundos, obrigando-se a ficar ali, mentalizando-se de qual era a sua tarefa. Ao fim de não muito tempo, os espasmos começaram a diminuir. O rapaz não a largou. Deixou passar largos minutos, olhando o rosto avermelhado e suado da jovem, até os músculos pararem por completo. A medo, soltou-a, e, ao mesmo tempo, observou-a com muita atenção. Lembrava-se bem do que acontecera à bebé após a convulsão – acabara morta. Apesar do movimento ser fraco, o peito dela ainda se movia com a respiração.

Passando ambas as mãos pelo rosto lívido, Ay pensou no que fazer. A directora não estava, Hendran precisava de descansar, e pedir ajuda às outras crianças estava fora de questão. Não só correriam um risco maior de ficarem contaminadas, como duvidava que colaborassem sequer consigo. Mordeu o lábio inferior, controlando uma súbita vontade de chorar, e impedindo um soluço de se soltar.

O toque leve de uma mão nas suas costas fê-lo estremecer. Baixou as mãos e olhou para o lado, arregalando os olhos, meio assustado. Lysa fizera o esforço de se levantar e ir ter com ele, apesar de não conseguir sequer disfarçar os tremores do corpo.

– Eu ajudo-te – murmurou, muito baixo. As pálpebras fecharam-se por um instante. – Ainda consigo.

– Vai deitar-te! – Ficou quase em pânico por vê-la ali. – Não podes fazer esforços, ficas pior. Eu trato de tudo. Eu consigo.

Mais importante que ele próprio interiorizar isso, era fazer Lysa acreditar. A mão nas costas de Ayalal fez mais força, já não estando propriamente a dar-lhe apoio, mas mais a apoiar-se para não tombar.

– Ay, não quero que faças tudo sozi… – começou a dizer, no entanto interrompeu-se para engolir em seco, levando uma mão à zona do estômago. Inspirou devagar, provavelmente tentando controlar as náuseas.

– Cuidas sempre de mim. Desta vez sou eu – disse Ay, dando um tom decidido às palavras.

Ela ia argumentar, mas levou a mão livre à boca. Apesar de contrariada, o rapaz conseguiu levá-la para a cama, devagar. A seguir foi buscar água e toalhas limpas e, embora o embaraço por tal tarefa não fosse pequeno, tratou da outra rapariga o melhor possível, despindo-a e limpando-a. O pior, ainda assim, era o fedor a sangue que o desafiava. No entanto, resistiu.

Lysa observara-o da sua enxerga. Quando Ayalal terminou, lançou-lhe um sorriso breve de encorajamento, ao qual ele tentou retribuir, mas não conseguiu. A criança preparava-se para se sentar a um canto e descansar por meia dúzia de minutos, quando ouviu um guincho, abafado pela distância, vindo do andar inferior.

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