Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR (continuação II)


Quando Ayalal piscou os olhos, a trágica imagem da morte de Lysa recuou do primeiro plano da sua mente, para ficar a rondar-lhe a memória, ameaçando atacá-lo a qualquer instante. A gruta voltara a estar diante de si, no entanto a posição do rapaz havia-se alterado em relação à do local: já não estava de pé. O peito e o maxilar inferior doíam-lhe da queda que dera, e o queixo ardia-lhe onde a pedra o esfolara. Apesar disso, a dor era o menos. Devagar, o seu corpo era arrastado para trás, por um pé. Puxou-o, ao mesmo tempo que levantava a cabeça para espreitar por cima do ombro.

O que parecia ser um tentáculo enrolara-se num dos seus tornozelos. Viu a ponta contorcer-se, sentiu a pressão que fazia, face ao seu puxão. O coração começou a bater mais depressa, enquanto o olhar seguia o tentáculo pela escuridão, até uma das enormes colunas de pedra. A criança semicerrou os olhos, perscrutando com mais atenção. A coluna moveu-se e dobrou-se um pouco, revelando não estar presa ao tecto.

Há medida que Ay se aproximava, apercebeu-se da armadilha em que caíra. O que pensara serem espigões escavados na pedra eram, na verdade, dedos e ossos que brotavam de forma aleatória de várias zonas da criatura. Os membros, antes disfarçados pelas sombras, retorceram-se, formando ângulos impossíveis, como se alguém os tivesse partido e recolocado sem ter a mínima noção da forma que deveriam ter, nem da zona onde se inseriam. Fitando-o, dois olhos esféricos piscaram, dessincronizados – um encontrava-se na zona superior do corpo, outro quase ao nível do solo. No espaço que separava os orbes, a superfície contorceu-se e abriu-se numa boca de fundo negro, cada mandíbula ameaçando-o com uma série irregular de dentes afiados.

Um grito de pânico encheu-lhe a garganta, perante tamanha monstruosidade, e Ayalal tentou puxar a perna num movimento frenético. No entanto, ou a força lhe havia fugido, ou a constrição era demasiado forte. Tentou agarrar-se ao chão, mas foi em vão. Os dedos derraparam, as unhas raspando nas irregularidades da pedra. Uma delas soltou-se e Ay agarrou-a por instinto. Rodou sobre si num movimento rápido, impulsionado pelo pavor, e atirou a pedra à criatura. Acertou-lhe, porém o monstro nem sequer reagiu, deixando o projéctil cair e ressaltar duas vezes no chão. Um arquejar gutural libertou-se da boca dele, e este dobrou-se mais, em direcção aos pés do rapaz. Ayalal sentiu um bafo grotesco a carne podre, e um fio de saliva pendeu da língua que se estendia na sua direcção.

Porém, a criatura deteve-se. O olho superior piscou duas vezes, fitando alguma coisa acima da cabeça de Ayalal. De súbito, um traço de luz esbranquiçada cortou o espaço ao lado da criança, erguendo-lhe os cabelos com a energia pura que continha. A criatura deixou escapar um grito estrangulado, talvez de surpresa, e ainda se contorceu numa tentativa de escapar ao impacto, arrastando Ayalal com brusquidão para o lado contrário ao da luz, embatendo com ele na parede. O rapaz semicerrou os olhos e piscou as pálpebras, algo atordoado não só pelo choque, como também pela explosão de luz, seguida de uma torrente de faíscas a saltar em todas as direcções quando a descarga embateu no corpo do monstro. Um forte cheiro a queimado tomou o ar em redor.

Adarghins i zadiran.

Ayalal reconheceu de imediato o tom duro e álgido da voz. Embora não compreendesse o que fora dito, as palavras soaram-lhe a uma ordem que não admitiria desobediência. Olhou para o caminho que pensara seguir antes mesmo de ser capturado, e arregalou os olhos. Yudarh pairava a cerca de dois ou três palmos do chão, para lá do piso plano, por cima da zona que descia a pique. Numa das mãos empunhava o bastão, apontando-o à criatura. A sua expressão, de olhar cortante e cantos dos lábios descaídos, prometia tudo menos compaixão.

*

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR (continuação)


Ofegante e trémulo, parou somente diante da porta fechada. Bateu com a pouca força que lhe restava, mal escutando o som a repercutir-se na madeira.

– Mestre… – sussurrou, dolorosamente consciente de que ninguém o ouviria. Encostou-se à porta e deixou que a exaustão suavizasse. Voltou a bater, ainda assim o punho fraquejava. – Mestre Yudarh!

A única resposta que obteve foi o eco da sua voz nas paredes escurecidas do túnel. Esperou e, sem ter a certeza do tempo que passara, chamou-o novamente e voltou a bater à porta. Mas foi um esforço vão. Se estava em casa, o tiefling não o receberia.

Olhou para as sombras que o haviam seguido até à soleira da porta de Yudarh. Nunca vira o mestre na cidade e, pelo que Lysa dizia, ele preferia a reclusão que lhe reservava a solidão. Não estando em casa, e sendo improvável que houvesse descido à cidade, só via duas hipóteses possíveis.

Caminhou até ao cruzamento, apoiando uma mão na parede. No peito o coração ainda batia descompassado. Lançou um olhar ao trilho que percorrera meses atrás, até ao exterior, onde, pela primeira vez, pudera cumprimentar o céu e o Sol. Depois, fitou o lado oposto. Conseguia perceber como o túnel se perdia na mais pura escuridão, alguns metros mais à frente. Já vira Yudarh desaparecer por aquele trilho e acreditava no que as histórias contavam sobre os monstros que viviam nas sombras das entranhas das montanhas.

Dessa vez, não precisou de coragem para avançar: foi o medo que o empurrou em frente. Entrou na escuridão, seguindo com menos cuidado do que sabia que deveria. Apesar de ser capaz de ver no escuro, a falta de qualquer tipo de luz intimidava e ameaçava-o. Se as histórias fossem verdadeiras, haveria criaturas à escuta, monstros que esperavam por qualquer ser vivo que pudessem devorar.

O caminho começou a descer e as paredes estreitaram-se. O ar que pairava em seu redor tornou-se ligeiramente mais húmido e pesado. Ao fim de alguns minutos, Ay chegou a uma bifurcação: um dos lados seguia no mesmo sentido descendente que levara até ao momento; o outro não passava de pouco mais que uma ampla falha na rocha, através da qual um homem adulto conseguiria passar com cuidado. Parou, ponderando nas poucas hipóteses que tinha. Yudarh poderia estar em qualquer lado, e ele não fazia ideia da extensão daqueles caminhos. A probabilidade de se perder era enorme. Mas se não encontrasse o meio-demónio a tempo…

Encheu os pulmões de ar e esperou um segundo, antes de os esvaziar num súbito grito.

– Yudaaaaarh!

O grito ecoou nas paredes vazias, sendo pouco depois engolido pelo silêncio. Era uma péssima ideia, Ayalal tinha plena noção disso. Se o mestre o ouvisse, estivesse onde estivesse, outro tipo de coisa certamente o faria. Voltou a chamá-lo uma vez e depois olhou para os dois caminhos que tinha à escolha. Nenhum lhe parecia melhor do que o outro, por isso acabou por escolher a fenda, pela qual se infiltrou. Perscrutou cada metro em diante, enquanto tentava ouvir mais do que os seus passos e a própria respiração.

Caminhou talvez durante meia hora – não tinha completa noção do tempo que passara. Para além do seu campo de visão, onde tudo anteriormente fora breu, surgiu uma leve luminosidade. Ayalal franziu as sobrancelhas e parou, com uma mão apoiada na parede. Aguardou que a claridade revelasse ser mais do que uma luz ao fundo do túnel, porém ela não se moveu. A criança avançou com mais cautela, os passos tornando-se tão silenciosos quanto conseguia. Quando estava mais perto, apercebeu-se que a falha de alguma forma se abria para o compartimento donde vinha a luz e que esta parecia produzida pela própria rocha, que em algumas zonas se tornava azulada. Espreitou para ver melhor. A falha abria-se para um compartimento amplo de tecto alto. Uma dúzia de estalactites estendiam-se dele, tentando alcançar as estalagmites que cresciam sob elas. Um ou outra poça de água compunha o local. Para além disso, estava, aparentemente, vazio.

Saiu do interior da falha, sem conseguir disfarçar uma certa curiosidade por aquele estranho brilho. Evitou pisar as poças, porém não foi difícil as meias ficarem molhadas da humidade fria da pedra. Parrou por um momento, debruçando-se sobre um dos brilhos e percebendo que não era realmente a pedra que brilhava, e sim algo que estava colada a ela. Já vira coisas daquelas nas paredes da cidade, só não eram brilhantes. Pensou por um segundo, antes de acenar para si mesmo, ao lembrar-se do nome. Era um líquen, e aquele deveria ser mágico. O melhor era não tocar-lhe, ponderou.

Endireitou-se e voltou a olhar em volta. Mais à frente, a galeria começava a afunilar-se, formando uma nova passagem onde a luz morria. Atrás de si… franziu as sobrancelhas e regressou até junto da fenda na parede. Tocou com a mão pequena numa zona da pedra à altura da sua cabeça. Havia sulcos na rocha, sobrepondo-se em vários ângulos. Eram demasiado definidos para se confundirem com marcas naturais da pedra. Engoliu em seco. Lembravam demasiado estrias deixadas por garras de algo suficientemente forte para rasgar aquela dureza. Não vira nada daquilo durante a caminhada pela falha, por isso pertenceriam provavelmente a algo que tentara sair, mas não conseguira. Um dos monstros que vivia ali.

Contemplou o que o poderia esperar do outro lado. Uma centena de dentes famintos e garras que lhe rasgariam o corpo. Cerrou os punhos. Não podia acobardar-se. Se alguma coisa o tentasse atacar, ele limitar-se-ia a correr tão depressa quanto conseguisse para lhe fugir.

Resoluto, avançou para o outro extremo da galeria, contornando algumas das estalagmites. Atrás de si, deixou o gotejar esporádico da água que se infiltrava na montanha e, após uma inspiração, reentrou na escuridão. O túnel alargava-se consideravelmente daquele lado. Colunas espessas e meio disformes formavam apoios casuais entre o tecto e o solo. Ay atentou as paredes e o próprio chão, no entanto não viu sinal de outras marcas que pudessem denunciar um habitante obscuro.

O trilho encurvou, e a criança parou de repente à beira de uma descida a pique. Não lhe via o fundo. Hesitou, apoiando uma mão na parede. E se não conseguisse voltar a subir?

Por entre a indecisão, foi incapaz de perceber que alguma coisa se aproximara de si pelas costas. Só sentiu de súbito um dos pés a fugir-lhe do chão. Mas, nesse mesmo instante, mal tomou noção da dor da queda que deu para a frente, ou sequer do tentáculo que lhe prendia o tornozelo e o arrastava para trás. Na verdade, já não se encontrava de todo numa gruta escura, mas sim de regresso ao orfanato. Diante de si, Lysa jazia exangue, morta pela doença que a minara, e ele chorava como nunca antes havia chorado, enquanto uma dor terrível lhe rasgava o peito.

***

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR


Hendran insistira que Ay se deitasse e tentasse descansar. Ele limitara-se a lançar-lhe um olhar mortiço e abanar a cabeça numa negação. Sob as pálpebras, dois poços escuros falavam melhor do que qualquer palavra a respeito do cansaço da criança. Na verdade, o contraste com a pele pálida fazia-lo parecer mais doente do que alguns dos que padeciam da maleita.

Lysa passara a noite num sono inconstante repleto de murmúrios e esgares de angústia. Com o mimetizar exterior do nascer do dia, a luminosidade do quarto começara a crescer, assim como a sua inquietação. Ay cabeceava para a frente, lutando consigo próprio para não adormecer, quando a voz da amiga o despertou qual estalo no rosto.

– Larguem-me! – Lysa gritara e abrira os olhos, cuja atenção caiu sobre o rapaz ao seu lado. O medo inundou-lhe o rosto num reconhecimento que não era o suposto: via alguém que não era Ayalal. – Deixa-me, por favor! Isso magoa… por favor, por favor!

Soltou um soluço e tentou rastejar para longe dele. Por um segundo, Ay paralisou, chocado com tal reacção, e os músculos fraquejaram quando os tentou mover, doridos por tudo o que haviam passado nos últimos dias. No entanto, logo a seguir agarrou-a para a manter na enxerga.

Em resposta à prisão, as pálpebras de Lysa escancararam-se em puro terror. Ergueu uma mão trémula e pressionou-lha contra o rosto, tentando afastá-lo de si. Faltava-lhe porém a força.

– Lysa, sou eu – murmurou Ay, fechando um olho sobre o qual caíra um dedo magro. – Ninguém te vai fazer mal…

– Não, por favor! – implorava, as lágrimas começando a escorrer-lhe pelo rosto que se contorcia num choro sufocado. – Eu não fiz nada... larga-me, pai, larga-me! Não, não… Mãe, ajuda-me!

O rapaz fez o que pôde para a manter deitada, refreando-lhe as tentativas de o afastar, mas era difícil. O pânico dera-lhe uma falsa força e, apesar de Lysa não ser alta, ainda assim era maior do que ele, o que tornava mais difícil tentar contê-la. Acabou por, de alguma forma a largar e obrigá-la a sentar, só para a poder abraçar, fazendo por prender-lhe os braços contra o peito. Ela gritou de desespero, tentando escapar-se.

– Não vou deixar que te magoem – disse-lhe baixo, junto do ouvido, esperando que houvesse discernimento suficiente para o compreender. Pensou cada uma das palavras. – Estás segura aqui, nós protegemos-te. Somos teus amigos, a tua família. Ele não te fará mal, nunca mais.

Demorou até a jovem sossegar contra ele, levada por um choro que, devagar, se amenizou. Baixinho, Ay cantou-lhe uma música de embalar, a mesma que Lysa lhe cantava algumas vezes para o ajudar a dormir, esperando que isso fosse uma ajuda a sossegá-la. Quando achou que podia aliviar o aperto, o pequeno libertou um braço e afagou-lhe o cabelo num toque carinhoso mas algo trémulo, receando despoletar um novo ataque de alucinações. Por fim, também o choro terminou, deixando-a num sono exausto, aconchegada nos seus braços mais pequenos. Com ajuda de Hendran, voltaram a deitá-la na enxerga.

De mente esgotada por tudo o que se passara, Ayalal saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Lá fora, caminhou lentamente pelo corredor sombrio, os punhos cerrados com tanta força que as extremidades das unhas o magoavam. De súbito, parou e esmurrou a parede ao seu lado. A dor do impacto entranhou-se-lhe pelos ossos, porém foi um alívio breve ao que sentia. Inspirou fundo e engoliu em seco. Não percebia como é que não havia ninguém que os pudesse ajudar. O clérigo falhara de todas as vezes; no dia anterior ouvira Drane a contar a Hendran que os curandeiros, sabendo disso, se haviam recusado a ver as crianças, e que tinham sugerido que fossem levadas para fora da cidade, para não contaminarem os restantes cidadãos. Estavam a condená-los, não se atreviam sequer a tentar! Rosnou por entre os dentes, sentindo raiva dessas diabólicas pessoas, raiva do pobre rato que deveria ter causado aquela epidemia, raiva dos deuses a quem teciam preces, mas que na verdade eram incapazes de ajudar um bando de crianças…

Voltou a esmurrar a parede e a dor fez com que os pensamentos parassem por instantes, para a seguir ficarem a pairar na consciência. Havia neles algo de importante, sentiu, alguma coisa que lhe estava a escapar. Concentrou-se, resistindo à raiva que queria tomar posse dele. Quando se apercebeu do que era, os olhos arredondaram-se. Sentiu-se estúpido por não se ter lembrado antes.

Um instante depois, galgou pelos degraus abaixo e precipitou-se para a porta, saindo a correr para o frio da cidade, sem sequer se calçar. Atrás de si, a porta ficou aberta.

***

Mosteiro das Sete Formas, 20 de Neth de 4592 AR (continuação II)


A noite acabara de cair na cidade subterrânea, quando Hendran se apercebera que a expressão de Pather se descontraíra… e que o rapaz deixara de respirar. Tentaram reanimá-lo, porém fora um esforço infrutífero. Apesar de não ter qualquer vontade de se aproximar do corpo, Ayalal viu-se obrigado a ajudar a deslocá-lo até ao andar térreo, pousando-o junto ao altar da Avó Corvo e cobrindo-o com um lençol. O olhar divino velar-lhe-ia a alma pela noite adentro. Ay ficou quieto e em silêncio, enquanto a directora e Hendran rezavam uma prece murmurada a Andoletta. Não era capaz de olhar para o incaracterístico volume deitado no chão frio sem que uma onda de terror o submergisse. Era como se nada conseguisse deter a doença, como se cada um dos enfermos tivesse a sentença ditada.

Horas depois, quase como confirmação desse pensamento, um segundo corpo juntou-se a Pather. Após uma convulsão que lhe arqueara as costas de forma quase sobrenatural, a vida abandonara o corpo da rapariga que tivera o ataque de espasmos durante a manhã. Ver uma mulher quase adulta a perecer arruinava qualquer esperança que pudessem ter. Tentaram retirar o corpo sem acordar os que já dormiam ou estavam tão doentes que a consciência pairava entre uma realidade nublada e o delírio da febre.

Ainda não tinham atingido a madrugada do dia seguinte e já o quadro geral os devastava: os doentes que estavam mal haviam piorado para o estado que antecipara a tragédia. A febre subira e não parecia haver forma de querer baixar, as dores faziam-nos gemer numa sinfonia de horror, e os murmúrios desconexos abalavam quem os escutava.

Foi impossível para Ayalal conseguir dormir. Um nó de aflição esmagava-lhe o peito, tornando quase difícil respirar. Por isso, sob a luz trémula de uma vela, manteve-se sentado junto da amiga, refrescando-lhe o rosto com um trapo molhado, enquanto as horas rastejavam pela noite.

***

Mosteiro das Sete Formas, 20 de Neth de 4592 AR (continuação)


Quando entrou na cozinha, Ayalal deparou-se com um dos rapazes a empunhar firmemente o atiçador da lareira, e uma rapariga a segurar na vassoura, um passo atrás dele, enquanto observavam de olhos semicerrados um armário alto que se erguia encostado a um canto.

– Foi lá para baixo, eu vi! – disse outro dos órfãos, ajoelhando-se e quase encostando o rosto ao chão para espreitar. – Está lá, sim. Tenta tirá-lo com a vassoura.

– E se a coisa salta para cima de mim?! – perguntou a rapariga, chocada. – Eu dou-lhe com a vassoura se ele tentar sair…

Ayalal ponderou seriamente em deixá-los entretidos com fosse qual fosse o bicho que haviam encontrado. No entanto a sua consciência não o deixaria em paz se não soubesse o que poderia ser, principalmente havendo um quarto cheio de doentes por cima da cabeça de todos eles.

– O que se passa? – perguntou, após o segundo que usara para ganhar coragem.

Seis cabeças rodaram e olharam-no por cima dos ombros.

– É um rato gigante – disse a rapariga, muito depressa. – Estava escondido na despensa e, quando fui lá, fugiu.

Ayalal não acreditava que o animal fosse assim tão grande. Mas, segundo ouvira dizer, os ratos podiam causar muitas doenças, e se esse estivera escondido no sítio onde guardavam a maior parte dos alimentos, havia a possibilidade de ser ele o culpado para o que se passava nos últimos dias.

– Dá cá isso. – Um dos outros rapazes arrancou a vassoura da mão da pequena e baixou-se junto ao armário, enfiando a extremidade inferior por baixo do móvel e empurrando com força.

Escutou-se um guincho fino e, num movimento rápido, o animal surgiu, correndo desenfreadamente para tentar escapar. O atiçador da lareira caiu na direcção dele, porém falhou o alvo, batendo antes na pedra fria e ressoando na cozinha.

O rato tinha o comprimento de uma mão adulta aberta e uma magreza doentia – um olhar mais atento detectaria com facilidade várias peladas que revelavam a pele ulcerosa que o cobria. Por um instante, ele olhou na direcção da porta, onde estava Ay, e depois na da janela fechada, medindo as hipóteses de fuga. Enveredou pela primeira opção.

O rapaz ficou parado, vendo-o correr para si. Uma parte da mente dizia-lhe que o correcto era matá-lo, outra sentia pena dele. Não passava de um animal inocente que, como todos eles, só deveria querer um local seguro para viver.

Porém, antes sequer de o animal o conseguir alcançar, uma vassourada caiu sobre ele, atordoando-o. Seguiu-se-lhe o atiçador, que lhe arrancou outro guincho, uma e outra vez. Por instantes, Ayalal desviou o olhar fechou os olhos, contendo um esgar. Nada merecia uma morte assim.

Quando o animal jazia sem vida, sobre a pedra fria, aproximaram-se todos, espreitando-o.

– E agora? – quis saber um dos órfãos que, até ao momento, fizera por se manter afastado.

– Tem ar de estar cheio de doenças – notou Ay, baixinho. – Pode ter sido ele que fez toda a gente ficar doente. É melhor… queimá-lo?

Para sua surpresa, ninguém discutiu a sugestão. O rapaz que segurava no atiçador (agora com um certo orgulho pelo feito), ao fim de três tentativas, ergueu o rato e equilibrou-o na ponta, até chegar à lareira, para dentro da qual o atirou. Ficaram a vê-lo arder, como um estranho e macabro espetáculo de fogo.

***

Mosteiro das Sete Formas, 20 de Neth de 4592 AR


O clérigo Itori regressou e voltou a partir, com um sincero e trémulo pedido de perdão. O seu feitiço divino, que deveria curar Pather, falhara. Depois disso, ainda desencantara um pergaminho do interior da mala a tiracolo que trouxera, e lera o feitiço nele embutido. As palavras emitiram um brilho amarelado, e consumiram-se pela magia, desaparecendo. No entanto, o resultado não fora diferente da primeira tentativa.

Após a saída do servo da deusa Sarenrae, a Directora ficara parada à porta do quarto, observando os acamados, a testa formando uma série de rugas firmes. Poucas eram as crianças cujo estado estava razoável: conseguiam alimentar-se, apesar de enfraquecidas, e erguiam-se sozinhas, se se esforçassem. Porém as restantes decaíam depressa. Cerrou um punho com força.

– Ayalal – chamou.

De onde estava, junto de Pather, o rapaz fingiu que não estivera a olhá-la discretamente. Hendran retirara-se há não muito tempo para recuperar das horas que passara em claro a cuidar do órfão.

– Sim, senhora Drane? – perguntou, deixando a tina de água em paz por um momento. Os dedos estavam dormentes da frieza em que mergulhavam. Apertou-os sobre as coxas, aguardando.

A directora levou uma mão ao queixo, hesitante e pensativa, depois abanou a cabeça numa negativa. Os ombros descaídos e as costas levemente vergadas denunciavam como a epidemia roubava forças à mulher de meia-idade, sem necessitar de a contaminar.

Afastou-se do quarto, sem nada mais dizer. Pouco depois, lá em baixo, Ay escutou uma das portas principais bater.

O tempo passou devagar. Ele foi cuidando de todos como podia, no entanto, ao dar mais atenção a Pather, acabava por inevitavelmente descurar outros. Só teve completa noção disso quando, a algumas enxergas de distância, ouviu um ofegar forte, seguido de movimentos rápidos. Assustado, ergueu-se de um salto, enquanto o olhar pulava de pessoa em pessoa, até se aperceber quem era. Correu para lá e, sem ter a certeza do que fazer, tentou agarrar o corpo da jovem que estremecia violentamente com convulsões. Falhou à primeira tentativa, mas à segunda prendeu-lhe os braços, mantendo-a de costas junto ao chão. Não conseguia fazer nada quanto às pernas que chutavam o ar e se contorciam, nem ao pescoço que por alguns momentos quase parecia deslocado.

– Hendran! – gritou Ay, aflito. – Hendran!

Não obteve resposta. Apesar da porta aberta, a outra rapariga estava a alguma distância, a recuperar da exaustão. Era pouco provável que o escutasse.

Por entre os espasmos, o corpo foi incapaz de controlar o interior, e foi possível primeiro ouvir e depois sentir o odor forte e repulsivo de dejectos e sangue. Ayalal conteve a respiração por uns segundos, obrigando-se a ficar ali, mentalizando-se de qual era a sua tarefa. Ao fim de não muito tempo, os espasmos começaram a diminuir. O rapaz não a largou. Deixou passar largos minutos, olhando o rosto avermelhado e suado da jovem, até os músculos pararem por completo. A medo, soltou-a, e, ao mesmo tempo, observou-a com muita atenção. Lembrava-se bem do que acontecera à bebé após a convulsão – acabara morta. Apesar do movimento ser fraco, o peito dela ainda se movia com a respiração.

Passando ambas as mãos pelo rosto lívido, Ay pensou no que fazer. A directora não estava, Hendran precisava de descansar, e pedir ajuda às outras crianças estava fora de questão. Não só correriam um risco maior de ficarem contaminadas, como duvidava que colaborassem sequer consigo. Mordeu o lábio inferior, controlando uma súbita vontade de chorar, e impedindo um soluço de se soltar.

O toque leve de uma mão nas suas costas fê-lo estremecer. Baixou as mãos e olhou para o lado, arregalando os olhos, meio assustado. Lysa fizera o esforço de se levantar e ir ter com ele, apesar de não conseguir sequer disfarçar os tremores do corpo.

– Eu ajudo-te – murmurou, muito baixo. As pálpebras fecharam-se por um instante. – Ainda consigo.

– Vai deitar-te! – Ficou quase em pânico por vê-la ali. – Não podes fazer esforços, ficas pior. Eu trato de tudo. Eu consigo.

Mais importante que ele próprio interiorizar isso, era fazer Lysa acreditar. A mão nas costas de Ayalal fez mais força, já não estando propriamente a dar-lhe apoio, mas mais a apoiar-se para não tombar.

– Ay, não quero que faças tudo sozi… – começou a dizer, no entanto interrompeu-se para engolir em seco, levando uma mão à zona do estômago. Inspirou devagar, provavelmente tentando controlar as náuseas.

– Cuidas sempre de mim. Desta vez sou eu – disse Ay, dando um tom decidido às palavras.

Ela ia argumentar, mas levou a mão livre à boca. Apesar de contrariada, o rapaz conseguiu levá-la para a cama, devagar. A seguir foi buscar água e toalhas limpas e, embora o embaraço por tal tarefa não fosse pequeno, tratou da outra rapariga o melhor possível, despindo-a e limpando-a. O pior, ainda assim, era o fedor a sangue que o desafiava. No entanto, resistiu.

Lysa observara-o da sua enxerga. Quando Ayalal terminou, lançou-lhe um sorriso breve de encorajamento, ao qual ele tentou retribuir, mas não conseguiu. A criança preparava-se para se sentar a um canto e descansar por meia dúzia de minutos, quando ouviu um guincho, abafado pela distância, vindo do andar inferior.

***

Mosteiro das Sete Formas, 19 de Neth de 4592 AR (continuação II)


O clérigo prometera voltar logo pela manhã do dia seguinte, para tentar um novo feitiço. Ay e Hendran, a única jovem que, por milagre, ainda não havia adoecido, continuaram a cuidar dos doentes, enquanto a directora tirara algumas horas para tratar da vida que se perdera. O sossego que tiveram foi pouco.

Após ter entrado no quarto, o rapaz forçou-se a permanecer e suportar o odor a sangue que lhe remexia com os sentidos. O choque inicial passara, no entanto a perturbadora sensação de que tinha diante de si um banquete onde não poderia tocar horrorizava-o. Repetiu mentalmente que nada era mais importante que ajudar no que pudesse, por quem estava doente… pela pessoa que mais o amara durante aqueles anos.

Depois de ter tentado alimentar toda a gente, e de se obrigar a comer também um pouco do jantar, Ayalal deitou-se no chão, ao lado da enxerga de Lysa. A amiga estava acordada, observando-o com uma aparente dificuldade em manter os olhos abertos. Forçou um sorriso na direcção de Ay e deixou uma mão escorregar pelo chão na direcção dele, vacilante. Ele pegou-lhe com ambas as suas, mais pequenas, amparando-lhe a tremura. Uma humidade fria e doentia apoderara-se dela. Encostou-a ao seu rosto e aos lábios, tentando passar-lhe um pouco do seu calor.

– Desculpa, pequenino – murmurou, tão baixo que seria difícil alguém ouvir, para além dele. – Estou a dar-te tanto trabalho…

– Não penses nisso. – Manteve a mão dela encostada a uma bochecha. – Queria fazer mais, mas não consigo, Lysa.

– Tonto… já fazes demasiado. És só uma cri… – O sorriso esmoreceu por um momento, sendo substituído por um esgar de dor e a mão retraiu-se entre as dele. Ela reteve a respiração e fechou os olhos com força.

Ayalal semi ergueu-se do soalho, preocupado, apoiando-se num cotovelo.

– Lysa, posso…

– Não – arquejou – Já passou… já passou… não é nada de mais…

Mas era, e ele não sabia como ajudar. Podia rezar a todos os deuses, mas se algum quisesse realmente socorrê-los, já o teria feito. Estavam por sua conta. Quando a expressão da amiga descontraiu um pouco, Ayalal voltou a pousar o corpo no chão. Porém, no peito o coração ainda batia descompassado, temendo por ela.

As duas velas que iluminavam parcamente o quarto apagaram-se. Ay continuou a observar Lysa, apesar de agora ela ser incapaz de o ver.

– Não queria que tivesses de passar por isto – murmurou a jovem, por entre os gemidos baixos que, por si só, se tinham transformado numa espécie de atmosfera. – És só uma criança, e tão pequena.

Com cuidado, Ay largou a mão que segurava e empurrou-a de volta para a enxerga, tapando-a também com o cobertor. A seguir acariciou-lhe o rosto, tocando a cicatriz que a marcava. Lysa fechara os olhos e a respiração tornara-se mais suave.

– Eu também não queria que passasses por isto – respondeu. Não obteve resposta. Lysa cedera ao cansaço e acabara por adormecer, ainda que desassossegada.



De madrugada, Ay deu um salto do canto onde dormia, ao escutar um guincho de pânico. Olhou em volta, tal como alguns dos que haviam também acordado sarapantados, sem perceber o que se passava. Acabou então por detectar um trémulo braço erguido – Pather apontava para o tecto, horrorizado, ao mesmo tempo que se tentava sentar. As dores, no entanto, não lho permitiam, obrigando-o somente a contorcer-se e a arrastar-se, tentando fugir.

Ayalal ergueu o olhar para o tecto, descobrindo que estava vazio, como sempre estivera. E mesmo que não estivesse, por entre a escuridão, outra pessoa seria incapaz de ver fosse o que fosse.

– Ajudem-me! – O grito de Pather encheu o quarto. – Ela vai devorar-me, sal…salvem-me!

Passos rápidos percorreram o soalho e a porta abriu-se, deixando entrar uma nesga de luz fraca. Um vulto saiu, regressando pouco depois com uma vela acesa. Os que estavam mais perto puderam então testemunhar o puro terror com que o rapaz fixava o tecto, os olhos tão abertos que ameaçavam saltar das órbitas.

Ay levantou-se e saltou por cima de Lysa para chegar ao órfão. Tocou-lhe na fronte, somente para confirmar a forma como a febre lhe havia tomado a mente e distorcido a realidade.

– Hendran, água fria! – pediu Ay, agarrando-o para impedir que fugisse da enxerga. Pather esbracejou, atingindo-o ainda com uma cotovelada no queixo, porém a sua força estava tão deteriorada que pouco lhe doeu. – Nós estamos aqui para e ajudar, não vamos deixar que a coisa te faça mal.

A outra jovem havia já ido buscar a tina com água e pousava-a do outro lado do rapaz. Ensopou o trapo e passou-lho no rosto, enquanto Ayalal o prendia e forçava a deitar-se. Não era fácil, a inquietação dos delírios tornavam-no como cego e surdo a tudo o que não fosse a criatura imaginária que o atacava. Os minutos passaram-se, longos. Alguns dos doentes continuaram a observá-los, enquanto outros voltavam-lhes as costas e encolhiam-se sobre a roupa da cama. Pather acabou por se acalmar, em parte por exaustão, em parte pelo pano frio que se esforçava por arrefecê-lo.

Por fim, Ay largou-o, sentando-se no chão e enchendo os pulmões de ar. Suava por todo o lado, de nervosismo e cansaço. Levou ambas as mãos as rosto, deixando-as esconderem-lhe os olhos e o esgar de frustração.

– Vai dormir, pequeno.

Ayalal entreabriu os dedos, e espreitou Hendran. Tinha, talvez, mais um ano do que Lysa, mas o cabelo em desalinho e as olheiras profundas envelheciam-na muito além disso. Uma parte de si queria insistir e mantê-lo acordado, a outra só ameaçava cair para o lado para dormir e não mais acordar. Após uma hesitação, acabou por assentir e arrastou-se até ao seu cobertor. Não deu conta de ter adormecido.

***

Mosteiro das Sete Formas, 19 de Neth de 4592 AR (continuação)


Ayalal seguiu o passo de corrida de ambos, contendo-se para não os ultrapassar. No entanto, ao alcançarem o quarto, o rapaz estacou de súbito, ainda com um pé erguido, sem entrar. Pairava no ar um cheiro diferente.

– Pela Deusa – murmurou o clérigo, erguendo um braço por instinto e cobrindo a boca e o nariz com parte da manga.

– Não é só a diarreia. – A directora avançou sem hesitar por entre as enxergas, parecendo indiferente ao odor pestilento.

Pois não, não era só isso. Ay deu um passo atrás. Era um cheiro férreo, que o chamava, que lhe dava uma fome impossível de saciar.

– As fezes da bebé estão cheias de sangue vivo, demasiado, clérigo Itori. – Drane ajoelhou-se junto à bebé que nem para chorar tinha forças. O corpo pequeno tremelicava de fraqueza, numa ameaça implícita. 

As rugas do clérigo vincaram-se mais ao deparar-se com o estado da criança. Baixou-se ao lado da enxerga e arregaçou as mangas da túnica até aos cotovelos.

– O caso dela tornou-se extremo – murmurou. – Vou pedir à Deusa que me empreste os seus poderes curativos.

Da porta, com uma mão sobre a boca e o nariz, Ayalal estreitou o olhar na direcção do reverendo, atento ao que ele se preparava para fazer. Queria aproximar-se, porém temia que aquele terrível cheiro o aliciasse mais. A ponta da língua deslizou sobre os incisivos afiados. E se não se conseguisse controlar e atacasse alguém?

O clérigo iniciou o recitar de uma litania baixa, enquanto a mão esquerda se erguia de palma virada para cima. Um minúsculo ponto de luz branca surgiu do nada sobre ela, crescendo até se transformar numa esfera brilhante, como se a Deusa Sarenrae depositasse, de facto, um pouco do seu poder na mão do fiel. Ele voltou a baixar a mão e rodou a palma para baixo, pousando-a no peito da bebé. O corpo absorveu a luz.

Aguardaram, em silêncio. Aos poucos, a menina parou de tremer, todavia, as sobrancelhas do clérigo uniram-se ao meio da fronte, de tão franzidas. Algo não correra como ele previra.

De súbito, uma forte convulsão abalou o pequeno corpo, roubando-lhe um soluço. De imediato, a directora tirou a bebé de sob a mão do servo da Deusa, e agarrou-a contra si, tentando controlar-lhe os espasmos. Ao fim de alguns segundos, eles diminuíram e cessaram por si mesmos. Drane continuou com a criança abraçada ao peito, de lábios brancos de tão comprimidos.

– Directora – começou o homem, hesitando nas palavras. – Eu não… o feitiço… não consegui que a curasse.

Não obteve resposta. A mulher baixou o olhar para a criança, desencostando-a um pouco. Tocou-lhe no rosto com uma das mãos, depois no pescoço, e engoliu em seco. Fechou os olhos por um momento e Ay quase pensou que ela fosse desmaiar.

– Penso que agora já não podemos fazer mais nada, senhor – murmurou Drane, as pálpebras voltando a abrir-se e revelando um brilho húmido no olhar. – Mais nada.

Por um momento, Ayalal esqueceu-se do cheiro, da fome e do medo, enquanto fitava o pequeno corpo ainda nos braços da directora. Avançou, devagar, não conseguindo acreditar no que escutara. Parou ao lado do clérigo. O rosto da bebé descontraíra-se num repouso que já há dias não conseguia alcançar. Um repouso eterno.

O lábio inferior do rapaz começou a tremer e um aperto sufocante tomou-lhe a garganta. Ao contrário de Drane e do clérigo, não conseguiu conter as lágrimas pela vida inocente que acabara de se esvair.

***

Mosteiro das Sete Formas, 19 de Neth de 4592 AR


Nenhum dos doentes melhorou, pelo contrário: em alguns os sintomas agravaram-se, e destes surgiram outros que, sem piedade, atacaram os enfermos. Para além disso, novos casos despontaram entre os órfãos, tornando a divisão impossível de os alojar a todos. Por essa razão, Ay ajudou a transferi-los, ora ao colo, ora às costas, para o aposento maior: o quarto das crianças. Das 29 pessoas que viviam no orfanato, 21 havia adoecido. A ajudá-lo estavam somente a directora e a responsável mais nova. Às restantes crianças fora proibida a aproximação.

Até esse dia, nunca se apercebera realmente da diferença de forças que existia entre ele e os restantes órfãos, e até mesmo em comparação com próprias mulheres que cuidavam deles. Uma criança normal da sua idade não conseguiria levantar os doentes, muito menos transportá-los ao longo de um corredor.

– Ayalal. – A directora dirigiu-se-lhe, enquanto o rapaz aconchegava melhor Lysa, depois de a ter deitado. A doença galopara pela saúde dela: a febre recusava-se a baixar e, por vezes, nem os líquidos se seguravam no estômago. Ainda assim não era a pior.

– Sim, senhora Drane? – O tom dele era baixo, cansado. Porém, o que mais lhe pesava era a preocupação. Esfregou os braços doridos. Não tinha muita vontade de carregar mais coisas, já tivera a sua dose diária.

– Vai até ao templo e pede ao senhor clérigo para regressar contigo. Diz-lhe que nenhum deles teve melhoras… enfim. Diz-lhe o que se passa – pediu.

Ay hesitou, voltando a olhar o rosto lívido de Lysa, marcado pelas dores que o contorciam.

– Directora, porque é que me deixa tratar dos doentes? Não tem medo que fiquem piores por minha causa?

Drane ergueu uma sobrancelha.

– Isso são só disparates, rapaz. Estás aqui porque esta é uma tarefa com que poucas crianças conseguem lidar. És a excepção, e preocupas-te. Não me interessa o que és, ou o que os outros acham. Queres ajudar, é o que importa. Agora vai. – As palavras não perderam o tom severo e, de alguma forma, isso enfatizava a sinceridade.

O rapaz esboçou o sorriso pouco confiante, antes de sair do quarto, para iniciar uma corrida rápida pelo corredor. Desceu as escadas de dois em dois degraus e precipitou-se para a porta da rua. Pelo caminho, passou pela entrada em arco da cozinha, para além da qual se reuniam as restantes crianças.

– Ele está a fugir!

Ayalal olhou para trás, enquanto puxava o trinco pesado da porta. Três cabeças espreitavam da cozinha, com um olhar simultaneamente hostil e curioso. Não valia a pena responder-lhes, nunca ouviam. Ignorou-os e puxou a porta para si, abrindo-a o suficiente para sair.

– Vai-te embora, coisa!

Olhou por cima do ombro, a tempo de se baixar por instinto e levar as mãos à cabeça. Um projéctil voou por cima dele, indo aterrar lá fora com o barulho de metal a bater em pedra. Não esperou por mais nenhum incentivo e precipitou-se para a rua, meio aos tropeções, fechando a porta atrás de si com força. Encostou-se à madeira velha e inspirou fundo, as pálpebras fechando-se por um segundo.

– Eles vão odiar-me, faça o que fizer – murmurou, quando voltou a abrir os olhos. Um prato de estanho seu conhecido estava caído a dois metros dele. Foi apanhá-lo, com um suspiro, e rodou-o nas mãos. O impacto criara uma amolgadela na borda. – Tu também não fizeste nada de mal, pois não?

Abanou a cabeça e obrigou-se a afastar a frustração. Tinha uma missão mais importante. Com o prato debaixo do braço, correu até ao pequeno templo de Sarenrae, a uma dúzia de minutos de distância, e quase arrastou o clérigo atrás de si, de regresso ao orfanato.

Esperaram sob as luzes que mal mimetizavam o dia, após Ayalal bater à porta uma primeira vez. Voltou a bater, com mais força, sem obter resposta. Rangeu os dentes, já com vontade de esmurrar a madeira.

– Trago o senhor clérigo! – disse, erguendo a voz, assim como o rosto, para o andar superior. A directora e a outra mulher estavam ocupadas com os doentes, provavelmente não ouviriam se simplesmente batesse. Agora quem estava na cozinha com toda a certeza que ouvira. – Alguém abra a porta!

Dentro da sua túnica sacerdotal, o clérigo, um humano cuja meia-idade caminhava já para a velhice, ostentava uma preocupação resignada e paciente. Pousou uma mão no ombro da criança que começava a sussurrar impropérios, de lábios semicerrados. Ay mordeu a língua, calando-se. Se tivesse outra forma de abrir a porta… o clérigo não saberia nenhum feitiço para isso? Eles supostamente também sabiam magia! Yudarh conseguia abrir portas sem lhes tocar…

Por fim escutaram o trinco a ser corrido e a porta abriu-se. Os olhos de Ay arredondaram-se ao encarar a directora. O seu rosto estava muito mais rígido do que quando partira em busca de auxílio sagrado. Acontecera algo de grave.

“Lysa?” pensou, um arrepio de pânico percorrendo-lhe o corpo.

***

Mosteiro das Sete Formas, 16 de Neth de 4592 AR


Pather não foi o único a adoecer. Três dias depois, outras cinco crianças, assim como uma das jovens responsáveis, padeciam dos mesmos sintomas: febre alta, dores abdominais intensas e náuseas. Os sete foram isolados no quarto mais pequeno por ordem da directora, que temia que a doença se propagasse aos restantes habitantes do orfanato. A poucos foi dada autorização para entrar, no entanto Ayalal conseguiu estar entre esses poucos, devido a uma estranha resistência que a sua saúde, desde pequeno, demonstrara.

No entanto, essa mesma presença fora contestada por algumas das crianças que o acusavam de ter causado a doença, de alguma forma. Nenhum argumento conseguiu demovê-los de tal ideia, e a única coisa capaz de os silenciar fora a autoridade da Directora Drane que os ameaçou com um castigo severo. 

Ay manteve-se perto de Lysa, ajudando-a, ainda que tenso pela agora silenciosa hostilidade. Negara as acusações, mas nem ele tinha a certeza se a culpa não seria mesmo sua, se não haveria uma forma estranha de alguém como ele passar doenças. No final de contas, a sua própria palidez fazia muitas pessoas duvidarem da sua saúde.

De mangas arregaçadas até aos cotovelos, voltou a mergulhar um trapo molhado na água fria para o espremer e voltar a passá-lo a Lysa. A amiga pousou-o com cuidado na fronte de uma bebé. O cansaço pesava-lhe no rosto e as mãos tremiam quando soltou o pano.

– Devias descansar – murmurou Ay, preocupado. – Não dormiste nada, pois não?

– Estou bem – garantiu Lysa, sorrindo-lhe. Porém, era um trejeito fraco, e as próprias palavras vacilavam sem que o conseguisse controlar. – Temos de lhes dar o remédio que o senhor clérigo preparou. Uma colher a cada.

– Eu faço isso – disse o rapaz, num tom firme.

Limpou as mãos molhadas às calças e dirigiu-se à mesinha onde o clérigo deixara um frasco velho com rolha de cortiça. Pegou nas colheres que serviriam para dar o caldo aos doentes e foi ter com cada um. Ajoelhou-se ao lado das enxergas e ajudou-os a sentarem-se. Quando desarrolhou o frasco, um cheiro a ervas maceradas subiu pelo gargalo. Não era completamente agradável, o que o fez suspeitar de que o sabor seria dez vezes pior. Encheu a colher com cuidado e levou-a à boca do primeiro doente. Ele fez uma careta repugnada, porém engoliu. Nenhuma das crianças do orfanato se daria ao luxo de rejeitar o remédio. Tinham consciência que até a mais simples e vulgar maleita as poderia matar.

O clérigo da deusa Sarenrae dissera que, em princípio, aquele remédio ajudaria a baixar a febre e a serenar as dores, o suficiente para os doentes poderem beber água e comer um pouco. Sem isso, não lhes restariam energias. Todavia, existira incerteza nas suas palavras, o que não encorajou nenhum deles.

Por último, Ay pegou na bebé e, com mais dificuldade, tentou que ela engolisse o remédio. A pequena fez uma careta e cuspiu metade do conteúdo, sujando-se no queixo e manchando a roupa. Ay suspirou e, depois de uma segunda tentativa em que aconteceu o mesmo, voltou a deitá-la com cuidado.

Junto deles, Lysa acabara por se sentar ao lado do balde da água, de olhos fechados e cabeça pousada sobre os joelhos puxados contra o peito. Dois poços escuros sombreavam-lhe os olhos. Estava exausta.

Ay voltou a guardar o frasco e regressou para junto da amiga.

– Lysa – chamou, tocando-lhe na bochecha marcada pela cicatriz. Ela não reagiu. Para além disso, o calor que sentiu vindo da pele dela alertou-o. – Lysa…?

Continuou a não obter qualquer reacção. A respiração dela era pesada, quase custosa. O cansaço abrira um caminho célere para a febre que minava o orfanato.

***

Mosteiro das Sete Formas, 13 de Neth de 4592 AR


Rodou a cabeça de um lado para o outro, tentando ver alguma coisa no horizonte, um fragmento de luz, um movimento. Porém, era tudo escuridão. Não existia tecto, o chão sentia-o mas era como se os pés estivessem pousados em nada. Em redor, havia somente um vazio negro e um silêncio que ecoava dentro da mente. Onde estavam as pessoas? As casas? Onde estava ele?

– Alguém? – A voz ressoou sem que precisasse de mexer os lábios, pairando por segundos até ser engolida e desaparecer. Não obteve resposta.

Inspirou e expirou. A seguir repetiu o processo e apercebeu-se que o esforço necessário aumentara, da mesma forma que um aperto no peito, como se as costelas se comprimissem. Por fim, os músculos recusaram-se a mexer, deixando de conseguir respirar. Tentou gritar. Porém, ao contrário do que acontecera anteriormente, em que falara sem mexer os lábios, desta vez a boca moveu-se, mas o grito foi mudo.

Em pânico, ergueu as mãos para as levar ao peito, no entanto… não existiam mãos unidas aos pulsos. A escuridão consumira-as e começava a rastejar antebraços acima, fundindo-os com a negritude, tomando-os para si.

Os seus gritos mudos tornaram o silêncio ainda mais pesado. O corpo contorceu-se, tentando afastar a escuridão, porém ela simplesmente continuou a tomar terreno, indiferente aos esforços. Trepou-lhe pelo corpo, roubando-lhe os membros, o peito, a boca. Por fim, perdeu a visão, para pertencer completamente às trevas.

*

Escancarou os olhos e sentou-se num movimento brusco, ofegante. O corpo suava como se tivesse corrido pela cidade, sem cessar. Apalpou os braços, o peito, o pescoço, o rosto, certificando-se de que estava tudo ali. O peso do cobertor sobre as pernas era estranhamente reconfortante, em contraste com o vazio. Inspirou fundo várias vezes. A garganta estava seca e um pouco dorida, como se tivesse mesmo gritado. “Foi só um sonho”, tentou mentalizar-se, “só um sonho”. Era o tipo de pesadelo recorrente que o atacava nos últimos dias, após lhe ter sido revelado parte da sua ascendência. Ficara com demasiado medo de si mesmo.

Quando, por fim, o ritmo cardíaco serenou, Ayalal olhou para as restantes crianças adormecidas. Em princípio não fizera barulho, tendo em conta que nenhuma dava mostras de ter acordado.

A quatro enxergas de distância, um dos órfãos remexeu-se. Ay retesou-se por um instante. A criança voltou a rolar sobre si e pareceu encolher-se, enquanto deixava escapar um queixume. Talvez fosse só mais alguém com pesadelos, pensou.

No entanto, o gemido de fundo prolongou-se. Uma pessoa que dormisse profundamente não daria conta, porém era impossível que alguém já acordado conseguisse ignorar. Ayalal levantou-se e, de pés descalços, aproximou-se da criança em causa, fazendo uso da sua visão nocturna para não tropeçar em ninguém.

Acocorou-se junto de Pather, um rapaz magro, dois anos mais novo que ele. Apesar do rosto contorcido por um qualquer mal-estar, continuava a dormir. Hesitou, antes de estender uma mão, pousando-a sobre a cabeça e dando-lhe uma festa, como Lysa fazia consigo, para o acalmar. Para seu desgosto, não pareceu fazer efeito. Tocou com as costas da mão fria no rosto do rapaz e, por um momento, assustou-se, recolhendo-a contra o corpo. Talvez fosse só impressão. Com mais cautela, voltou a tocar-lhe. Em comparação com a sua frieza, o rosto do rapaz estava quente, muito mais do que o normal.

– Pather – chamou, baixinho. – Pather, acorda.

Com cuidado, abanou-o pelo ombro. O órfão soltou um gemido mais alto e entreabriu os olhos, sem conseguir enxergar por entre a escuridão do quarto.

– Como te sentes? – murmurou.

– Não sei… dói… – gemeu, encolhendo-se mais, sob o cobertor. Um soluço fino soltou-se e, no segundo a seguir, um choro baixo encheu o quarto.

Foi o suficiente para quebrar o sossego da noite. Algumas das outras crianças começaram a abrir os olhos e a erguer-se sobre os cotovelos para tentarem perceber o que se passava.

Ay ergueu-se de junto dele e correu para a porta, saindo para avisar as responsáveis. Não podia fazer muito mais para ajudar. Acabara de passar a soleira para a semiobscuridade do corredor quando, atrás de si, ouviu alguém falar.

– O Pather está a chorar, ele fez-lhe alguma coisa de mal…

O coração pareceu falhar um batimento. Apesar de ser difícil ficar mais lívido do que já era, Ayalal sentiu o sangue a fugir-lhe do rosto.

***

Mosteiro das Sete Formas, 22 de Lamashan de 4592 AR (continuação)


Ay suspirou, apoiando o queixo sobre a mesa. Lançou um olhar conformado ao bolo, como se também ele fosse um vilão que ganhara a batalha.

– E o bolo não tem veneno – notou Yudarh, depois de o ter observado por um instante. – Podem comê-lo.

O rosto da criança contorceu-se numa careta quase repugnada. Preferia comer pão com um mês do que provar aquele “presente”.

Lysa deu um passo em frente e posicionou-se ao lado de Ayalal, pousando-lhe a mão no cabelo negro.

– Já tiraste as dúvidas todas?

O rapaz ergueu um pouco a cabeça, olhando-a. Na sua expressão havia mais do que uma questão pendente, e uma hesitação que conseguia somente enfatizá-la. Yudarh esperou, observando-o, até o pequeno ganhar coragem.

– O que é que eu sou? Porque é que vi aquele homem de forma diferente? – perguntou, baixinho. – Qual é a minha… proveniência?

Por um segundo, Lysa conteve o ar nos pulmões. A ênfase que Ay dera àquela última palavra fê-la recordar-se da mulher que o tentara levar de si. Ela usara-a numa insinuação propositada que ficara a pairar na consciência da criança. Lançou, com o olhar, um pedido de auxílio ao tiefling. O meio-demónio, por sua vez, não lhe dispensava qualquer atenção, dedicando-se a observar Ayalal. Após ponderar, levou ao rosto a mão que segurava o colar, apoiando nela o queixo.

– Tu és aquilo a que muitos chamam dhampir – disse, o tom ponderado permitindo que as palavras tomassem o seu rumo. – Um meio vampiro, provavelmente do lado paterno. Isso dá-te algumas capacidades e fragilidades. É por seres o que és que detectaste a aura de morto-vivo daquele homem, é também por isso que os teus olhos são tão sensíveis à luz do sol. Provavelmente a tua palidez também advém disso, assim como a afinidade com energia negativa, a capacidade de ver na escuridão e, talvez, algum gosto por sangue…

Ay não se mexeu. O corpo petrificara, a partir do momento em que Yudarh mencionara a palavra “vampiro”. Lysa, pelo contrário, abria e fechava a boca, sem conseguir articular nada, demasiado chocada com o despejar de informação para cima da criança. Cerrou os punhos diante da boca.

Yudarh continuou a ignorá-la, atento somente à reacção do rapaz.

– Sou um monstro. – O murmúrio escapou-se por entre os lábios de Ayalal, como constatação de algo que já suspeitava.

– Tanto como eu – acrescentou Yudarh, fazendo um gesto com a mão livre, como a enfatizar o sarcasmo. – És um monstro se quiseres sê-lo, ou se deixares que uma criatura assim se apodere do teu espírito. Fica por tua conta o que serás no futuro. Por agora és só um rapazito magricela. Não sentes vontade de beber sangue, pois não? Nem de fazeres algo mau.

Ay abanou a cabeça numa negativa lenta, enquanto levava uma mão aos lábios, estarrecido. Era então por isso que dois dos seus incisivos se alongavam anormalmente e tinham pontas mais afiadas, constatou: serviam para morder pessoas, para sugar sangue, talvez para matar…

– Mas…

– Não há “mas”. Sê aquilo que queres ser, não aquilo que a imaginação dos outros acham que és. Podes ter a certeza, isso vai magoar-te. Mas não há maior vitória que levares a tua avante e provares a todos o quão enganados estão a teu respeito. São as tuas crenças, as tuas vontades, a tua força – ditou Yudarh, apontando-lhe uma garra. – E não te esqueças que não estás sozinho. Há mais pessoas que acreditam nas tuas capacidades. Fá-lo por ti e por elas, Ayalal.

Com esforço, Lysa ultrapassou o momento de torpor. Levou os joelhos ao chão e, vacilante, ergueu a mão, tocando no rosto frio da criança.

– Tu não és um monstro, Ay. Nunca vais ser. És um menino bom. Senti isso mal te encontrei, tão silencioso, tão só… – murmurou, quase falando consigo mesma ao recordar-se. – Tão… importante para mim.

Duas lágrimas escaparam-se-lhe, escorrendo de cada lado do rosto. Ay desviou o olhar para ela e à sua expressão estarrecida juntou-se um sentimento profundo de culpa ao vê-la chorar.

Yudarh desviou o olhar e retirou a mão de sob o queixo, para observar o colar que ainda segurava. Deixou um dedo deslizar pelo símbolo da espada.

– A Lysa está a chorar porque te ama – murmurou. – Porque está feliz de te ter consigo. Não comeces a culpar-te do que não tens culpa. A culpa é capaz de destruir a alma.

Por entre as lágrimas, Lysa sorriu e esticou-se para lhe dar um beijo na fronte.

– É o que o mestre Yudarh diz. És demasiado importante para mim, Ay. Se pudesse ser mãe de alguém, só quereria ser tua mãe. – Passou a mão por um dos lados do rosto, limpando-o. – E eu não diria isso se fosses um monstro.

Um apertado nó na garganta impediu o rapaz de dizer fosse o que fosse. Devagar, estendeu ambos os braços para o pescoço de Lysa e abraçou-a em silêncio.

Ayalal,
amavelmente desenhado pela Aergia

***

Mosteiro das Sete Formas, 22 de Lamashan de 4592 AR


– Preciso de saber se isto tem veneno, por favor. – Ay pousou o bolo em cima da mesa, sob o olhar espantado de Yudarh.

– Queres saber se isso tem veneno? – Yudarh olhou para Lysa. – O que é que se passa aqui?

A jovem suspirou e encolheu os ombros, explicando-lhe a proveniência do bolo e o que Ayalal sentira a respeito das duas pessoas que haviam visitado o orfanato.

Yudarh escutou-a, erguendo um pouco as sobrancelhas quando ela denominou uma das visitas como “anjo”, e ficou algo pensativo ao ouvir a descrição de como a criança se comportara ao ver o homem que chegara depois.

– O que é que viste nele ao certo? Explica-me como puderes – pediu, acabando por se sentar numa das cadeiras.

Ay coçou a cabeça e insuflou as bochechas, enquanto pensava em como pôr aquilo por palavras.

– Era como… como se houvesse alguma coisa diferente nele, à volta dele. Uma coisa má, como um fantasma. Eu não conseguia ver nada, mas… – arrepiou-se. – Ela estava lá, eu não estou maluco, mestre Yu.

– Não acredito que sejas – garantiu o tiefling. Passou uma mão pelo queixo encarando a criança. – Nem me parece que estejas a inventar tudo isso, mas preferia que estivesses. Para onde é que essa mulher ia levar as crianças, Lysa?

A jovem ficou algo atrapalha pela conversa ter, de súbito, virado na sua direcção.

– Ah, bem, não sei. Nunca vi nem ouvi falar de ninguém com asas na cidade. Eram estrangeiros, definitivamente. As crianças deveriam ir com eles para fora – notou.

Yudarh desviou a atenção para a lareira, estreitando os olhos, com um desagrado óbvio espelhado no rosto.

– Mestre Yudarh, o que se passa? – Lysa começou a ficar preocupada.

– Pela descrição daquilo que o Ayalal sentiu, talvez esse homem já não esteja vivo. A possibilidade de um morto-vivo poder estar a levar cinco crianças para fora desta cidade…

– Um morto-vivo? Como assim, um morto-vivo? Ele não parecia morto… e estava com um anjo…

Face àquele comentário, Yudarh soltou um riso sarcástico baixo. Nenhum deles havia algum dia visto o meio-demónio a esboçar mais do que um sorriso leve.

– Os anjos têm mais que fazer do que ir buscar crianças a um orfanato. Aquilo era, na melhor das hipóteses, uma aasimar, um ser meio-celestial. Alguns têm, de facto, tendências para actos honrados e de bom cariz. Isso não os impede de serem tão cruéis como o pior demónio do Inferno – acrescentou. – E até poderia ser outro qualquer tipo de criatura, sob disfarce. As aparências enganam, Lysa.

A cabeça da jovem inclinou-se para a frente, os lábios comprimindo-se numa linha trémula, sob a reprimenda da última frase.

– É possível saber se são mesmo maus? – perguntou Ayalal, apoiando os braços na mesa e pondo-se em bicos de pés. – Como fazemos para trazer os outros de volta?

Yudarh fez-lhe um sinal com a mão, para que sossegasse, e ergueu-se, indo até um dos seus armários, donde trouxe um colar cujo pendente possuía a forma de uma espada de prata com a guarda raiada a ouro.

– Não falem comigo nos próximos momentos. – Poderia parecer um pedido, porém era uma ordem tácita. – Não vou conseguir ouvir-vos.

Ay acenou em concordância, de olhos presos nele, esperando que alguma coisa acontecesse.

Yudarh voltou a sentar-se, agora de costas direitas e sem se encostar. Pousou o antebraço esquerdo sobre a mesa, com o pendente na palma da mão e fechou os dedos com cuidado, ficando somente a corrente a descoberto. Inspirou fundo e expirou, focando a vista num ponto para além do tampo de madeira. A mão direita ergueu-se diante do rosto e os dedos riscaram o ar, de cima para baixo, executando de seguida um semicírculo que continuou para um movimento diagonal. Ao mesmo tempo, os lábios do meio-demónio moveram-se. Ao princípio, o rapaz pensou que o mestre nada estava a dizer, porém, por entre o crepitar da lareira, um sussurro ditava palavras que não foi capaz de compreender.

Aos poucos, um brilho leve que se escapava por entre os dedos da mão fechada de mestre Yudarh chamou-lhe a atenção. Semi-abriu a boca e os olhos brilharam, perplexo. Aquilo era magia a sério. Uma névoa esbranquiçada cresceu e espalhou-se pelos orbes de íris vermelha do tiefling, tornando-o cego para o presente. Por segundos que pareceram uma eternidade, ficou parado, mal respirando. Ayalal conseguia sentir como que um peso diferente na atmosfera que pairava em redor dele, uma energia estranha, mas apelativa.

Por fim, Yudarh piscou os olhos e a névoa desapareceu. Na mão, o brilho apagou-se.

– Saíram da cidade ontem, pela estrada principal – suspirou, o corpo descontraindo um pouco. – Não vi qualquer intenção maligna. Esperemos que assim seja.

O rosto contorceu-se num esgar de quem estava longe de se convencer disso.

***

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Lamashan de 4592 AR (continuação III)


Após a saída de Sëdara, um pesado silêncio caiu entre todos. Era muito raro alguém adoptar uma criança. Cinco, de uma só vez, deveria ser inédito até para a Directora Drane. A responsável inspirou fundo e observou os órfãos cabisbaixos.

– Meninos, vão comer o vosso bolo para a cozinha. – Apesar do tom brando, era uma ordem à qual nenhum desobedeceria.

As crianças formaram uma fila torta que seguiu, algo arrastada, pelo corredor. Lysa puxou Ayalal pela mão, para que fechassem o grupo, contudo a mulher mais velha pousou neles o olhar.

– Quero falar com ambos. Entrem e fechem a porta – disse, desaparecendo dentro do próprio gabinete.

A jovem respirou fundo, passando a mão livre pelo rosto. As bochechas estavam quentes da tensão a que se impusera quando enfrentara o ser celestial. Observou Ayalal. Continuava assustado, como se tivesse acabado de ver uma alma penada.

– Ay – murmurou, levando ambos os joelhos ao chão e ficando um pouco mais baixa que ele. – Não sei o que viste, mas não fales disso à senhora Drane. Conversamos mais tarde e contas-me tudo, pode ser?

O pequeno escutou-a, absorvendo as palavras. A voz de Lysa serenava o receio que lhe apertava o peito, como a canção de embalar de uma mãe.

– Eles são maus. Eu sei que são maus – murmurou, ao fim de alguns segundos. – Não podemos deixar que os levem. Vão fazer-lhes mal.

Não tinha a certeza de onde Ayalal tirara tal ideia, porém a expressão mais que preocupada da criança transmitia uma crença verdadeira.

– Ay, não lhes vai acontecer nada de mal. Aquelas pessoas não eram más, só um pouco diferentes daquilo a que estamos habituados por aqui. Foi isso que te criou essa impressão.

Ele queria acreditar. No final de contas, aquilo era um anjo, e os anjos eram sempre bons, todos diziam o mesmo. Ainda assim…

– Desculpa – murmurou. Não tinha uma razão lógica, porém era simplesmente incapaz de acreditar nas boas intenções de quem visitara o orfanato.

Lysa sorriu-lhe da forma terna e compreensiva que reservava sempre para ele. Agarrou-lhe o rosto com ambas as mãos e depositou-lhe um beijo na fronte.

– Vamos falar com a senhora Drane?

Ay acenou e a jovem endireitou-se. Deu a volta a Ay e empurrou-o com cuidado à sua frente.

O escritório era um compartimento pequeno. De um dos lados, uma janela quadrada permitia que a luz artificial da cidade entrasse de forma tímida; do lado oposto, erguia-se uma estante algo torta e com mais pó do que livros. Sentada atrás da sua secretária, a directora não parecia impaciente. Na verdade, a expressão era pensativa, enquanto os dedos tamborilavam na madeira.

– Sentem-se – disse, indicando duas cadeiras diante de si. Observou a tensão de um e outro enquanto seguiam a indicação. A madeira velha gemeu até sob o peso da criança. – O que fizeram há pouco foi imprudente e desrespeitoso. Mas… – fez uma pausa e sorriu. – Admito que fiquei espantada e satisfeita.

Ayalal e Lysa entreolharam-se. Nenhum dos dois esperava o que aparentava ser uma aprovação, mesmo que reticente.

– Senhora… – começou Lysa, porém a directora ergueu uma mão que a silenciou.

– Quem te deixou aqui – encarou Ayalal – pediu para que cuidássemos de ti. Se quisesses ir com a senhora Sëdara, ninguém te impediria. No entanto, se sentes que és mais feliz no orfanato, junto da tua família – o olhar desviou-se para Lysa –, então o teu lugar é este, até decidires partir. E que nada te obrigue a fazê-lo. Estamos entendidos?

A cabeça de Ay moveu-se quase autonomamente num assentimento. Imaginara que a directora fosse a primeira a querer mandá-lo embora, seria sempre menos uma boca para alimentar. Agora percebia que estivera enganado. Poderia ficar ali com Lysa, até ser crescido e começar a trabalhar, pelo menos.

– Vão lá então ter com os outros – dispensou-os, recostando-se na cadeira.

Lysa ergueu-se, com um alívio óbvio, porém Ayalal não o fez. A mão que não segurava o bolo agarrou o seu lado respectivo do assento, forçando-se a ficar ali. Mordeu o lábio inferior ao de leve, até ter coragem de formular a questão.

– Quem é que me deixou aqui?

A directora arqueou um pouco as sobrancelhas, antes de soltar um suspiro.

– Não sei, Ayalal. Foi a Lysa que te encontrou aqui à porta. Contigo vinha um bilhete e algum dinheiro.

Os ombros do rapaz descaíram e a cabeça inclinou-se um pouco para a frente, desanimada. Não era um assunto sobre o qual pensasse muito, em comparação com outras crianças. No entanto, ao escutar a senhora Drane falar de tal presença anónima, o interesse que vivia nas suas profundezas viera à tona.

– Ainda tenho aqui o bilhete – disse a directora, abrindo a gaveta e tirando um caderno gasto do interior. Folheou-o por instantes, até retirar de entre duas páginas de anotações um pequeno pedaço de pergaminho, estendendo-o a Ayalal.

Ele olhou-o com receio, como se o pudesse morder. Hesitante, largou a cadeira e estendeu a mão para o agarrar. Só após deixar o escritório é que teve coragem de ver o que estava escrito. A caligrafia era trémula, algumas letras estavam esborratadas e outras ténues, como se a mão de quem as escrevera não tivesse encontrado a firmeza necessária.

Inspirou fundo e acabou por guardar o bilhete no bolso. Um dia seria capaz de o ler.

***

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Lamashan de 4592 AR (continuação II)


– Não. – A palavra fugiu-lhe por entre os lábios, sem sequer pensar.

O anjo ergueu as sobrancelhas finas.

– Não tenhas vergonha, querido. – Estendeu-lhe a mão cuja tez ebúrnea parecia quase etérea, ainda assim não era tão pálida quanto a de Ayalal.

O pequeno abanou a cabeça numa negativa e escondeu as mãos atrás das costas. O sorriso de Sëdara estremeceu por um instante.

– Porque não, pequeno? – quis saber, ainda de mão erguida, de palma voltada para cima. – Cuidaria bem de ti, terias o que desejasses, serias feliz. Terias uma família.

– Estais a assustá-lo, senhora.

Ayalal inspirou fundo e desviou o olhar para o seu lado do corredor, por onde Lysa se aproximava, vinda do piso superior. Quando o alcançou, Ay estendeu a mão para agarrar a dela, ancorando-se à sua presença e protecção.

O anjo encarou a recém-chegada e, devagar, endireitou-se. Era cerca de um palmo mais alta, e todo o seu semblante divino lançava uma sombra pesada sobre a simplicidade de Lysa. Porém a jovem encarou-a com firmeza, não permitindo que nada nela a intimidasse.

– Estou? Não era minha intenção – notou e, enquanto falava, os olhos azuis mediam Lysa, tendo especial atenção à cicatriz que lhe manchava parte do rosto. – É uma pena que uma criança assim, especial, não queira vir comigo. Seria bem acolhido e ninguém olharia à sua… proveniência.

A mão pequena de Ay apertou ainda mais a que agarrava.

– Ele não quer ir – frisou Lysa, sendo directa.

O anjo soltou um suspiro e acabou por encolher os ombros, resignada.

– Se assim é… mas ainda estás a tempo de mudar de ideias, pequeno. De ter uma família.

Sem ser Lysa, ninguém parecia disposto a dissuadir Sëdara. Algumas das crianças lançavam, inclusive, olhares de inveja por tamanha insistência.

Ay inspirou fundo, tomando coragem para si.

– A Lysa é a minha família.

Por um instante, os olhos de Sëdara gelaram. O pequeno estremeceu e chegou-se mais para a saia de Lysa, tentando proteger-se. Antes que o anjo pudesse responder àquela declaração, uma voz masculina, vinda da entrada, chamou-a. O frio desapareceu e ela rodou sobre si, atentando o homem que se aproximava.

Ay também o olhou: dentro de um fato de bom corte, era alto, elegante, belo; porém, o pequeno não viu nada disso. Inspirou fundo de forma audível, os olhos arredondando-se. Havia algo errado, algo mau em redor daquele homem. Abanou a cabeça, assustado com o que sentia e era incapaz de compreender.

– Senhora, não podemos demorar-nos mais – disse-lhe. Olhou para Ay, por um momento fugaz, só por se aperceber que era com ele que Sëdara estivera a falar. Ia desviar o olhar, com desinteresse, contudo notou na forma como a criança o olhava e franziu as sobrancelhas.

– Tens razão. Já estava a terminar – notou ela. – Posso levar já os meus filhos, correcto, directora?

– Como tínhamos combinado – disse Drane, olhando os cinco escolhidos.

Myria saltitou no lugar.

– Eu vou buscar a minha boneca!

E preparava-se para partir a correr, quando o recém-chegado a deteve, baixando-se e agarrando-a por um braço.

– Não é necessário. Nós temos muitas bonecas – disse, com um sorriso amável. – Lindas como tu.

A pequenita hesitou, o entusiasmo esmorecendo um pouco.

– Mas a Mimi vai ficar triste se eu a deixar aqui… não posso ir mesmo? Por favor, senhor?

Foi Sëdara quem respondeu, aproximando-se e pousando-lhe a mão na cabeça, numa carícia.

– Nós depois voltamos para buscar a Mimi – garantiu.

As palavras convenceram Myria que se deixou ir à frente, seguindo o homem que viera chamar o anjo, junto com as restantes crianças. Ele não tornou a olhar para trás, porém Sëdara fê-lo, encarando Ayalal. A atenção dele oscilava entre o homem que já desaparecia no corredor, e o anjo.

– Desejo que sejas feliz com a tua família. – Relanceou Lysa, antes de se afastar.

As palavras transmitiam nada mais do que sinceridade, tal como o sorriso angelical. No entanto, Ayalal não conseguia acreditar em nenhum deles.

***

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Lamashan de 4592 AR (continuação)


– Meninos – A directora Drane chamou-lhes a atenção, num tom pouco simpático. Não obstante, alguns lançaram-lhe somente uma mirada rápida, para poderem voltar a observar o anjo. – A senhora Sëdara veio até aqui partilhar a sua generosidade, com um presente para cada um de vós.

Ayalal olhou o anjo com mais atenção e percebeu que ela trazia na mão um saco cheio com alguma coisa. Ela deu um passo à frente e inclinou-se um pouco, como se tentasse ficar à altura das crianças. Nas suas costas, as asas agitaram-se ligeiramente.

– Olá a todos – disse, com simpatia. – Fico muito feliz por vos conhecer. A senhora directora disse-me que são todos muito bons meninos, por isso trouxe-vos isto...

Abriu o saco e tirou um bolo do tamanho de um punho fechado. Estendeu-o à criança mais perto, Myria, que a olhava, fascinada. Os olhos da pequena escancararam-se e esticou os braços timidamente, pegando na oferenda com todo o cuidado que as pequenas mãos continham.

– Muito obrigada! – A voz, mais fina que o normal, denunciava o seu quase histerismo.

O anjo riu-se e deu-lhe uma festa na cabeça, que a deixou nas nuvens, antes de continuar a distribuição dos bolos por todas elas. Algumas sorriram-lhe em forma de agradecimento, duas tiveram a ousadia de a abraçar. Por reflexo, a directora abrira a boca para as repreender, porém pensou melhor e conteve as palavras.

Ay, o último a receber, pegou no bolo que lhe era estendido. Nunca tivera um pedaço de doce tão grande em sua posse. Iria guardar para partilhar com Lysa e pediria para irem visitar Yudarh, dessa forma poderia também dar-lhe um pouco.

– Obrigado – murmurou, levantando o olhar para o anjo. Ela observava-o com um sorriso que era mais do que simpático. Havia ali algum divertimento e a expressão retinha um interesse disfarçado. Por alguma razão que ele próprio não sabia explicar, encostou-se melhor à parede, numa tentativa de aumentar a distância entre eles. Voltou a olhar o bolo, incerto. Teria veneno?

– Sobraram alguns – notou o anjo, relanceando a directora. – Poderiam dividi-los por todos, mais tarde.

Drane concordou com um aceno sério, antes de relancear a satisfação das crianças que viviam no orfanato. A expressão descontraiu um pouco.

– A senhora Sëdara deseja também adoptar alguns de vós – anunciou. E, de súbito, os bolos foram esquecidos, os comentários sussurrados silenciaram-se. O bando de pequenos maltrapilhos focou-se completamente na jovem angelical.

– É verdade. Gostava de tornar-me na mãe de cinco de vós, para já. Se ninguém se importar.

E, depois do silêncio, houve uma súbita turbulência de mãos a levantarem-se e crianças a rodearem a jovem que ergueu as sobrancelhas, estupefacta com tanta comoção.

– Oh, tanto entusiasmo! Vamos acalmar-nos, vamos… – pediu num tom brando. – Vá, eu não me vou já embora…

Ay manteve-se onde estava, enquanto a pequenada tagarelava ao mesmo tempo, tentando fazer-se ouvir e reclamar um lugar como filho adoptivo.

– Meninos! – A voz da directora ouviu-se por cima da de todos, ríspida, cortante. Não foi um efeito instantâneo, mas os órfãos acalmaram-se. – Para os vossos lugares, imediatamente. Se voltarem a comportar-se dessa forma, ficarão de castigo até serem adultos.

O anjo inspirou fundo e ajeitou o vestido simples porém de boa qualidade, ao qual algumas das crianças se tinham agarrado.

– Eu – Sëdara enfatizou a primeira palavra – irei escolher-vos.

Com dificuldade, a pequenada conteve-se. O anjo deslocou-se até à ponta contrária àquela onde estava Ayalal para, num passo lento, caminhar diante deles, estudando-os e indicando com um dedo cada um dos seus escolhidos. A quinta pessoa, um rapaz de 10 anos, situado a três lugares de distância de Ay, sorriu de puro contentamento, quando um dedo recaiu sobre ele. Atrás deles, já Myria saltava de contentamento no seu lugar, rindo-se e chorando ao mesmo tempo.

A mulher parou, levando um dedo aos lábios, pensativa. Deu mais duas passadas e parou à frente de Ayalal. O rapaz retesou-se e engoliu em seco quando a viu dobrar-se, apoiando as mãos nos joelhos.

– Na verdade, seis é um número perfeito. Vem comigo, pequeno.

***

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Lamashan de 4592 AR (1 ano e 1 mês depois)


– É um anjo! Venham todos!

De mãos ainda dentro da tina onde lavava a roupa, Ayalal endireitou o pescoço e relanceou Myria. Era uma menina de 4 anos que raramente parava quieta, alimentada por uma energia que ninguém sabia muito bem donde vinha. Desta vez estava ofegante, como se tivesse corrido de uma ponta à outra da cidade.

– Um anjo? – Um dos órfãos, com quem Ay partilhava a tarefa, ergueu uma sobrancelha. – Não inventes…

– É verdade! – Os olhos da pequena brilhavam de puro entusiasmo. – Está na sala da senhora directora. Vi-as passarem.

O outro rapaz coçou a cabeça com uma mão molhada.

– Vou averiguar isso. Se for mentira… comes menos pão ao jantar – ditou, com o sorriso satisfeito de quem sairia vitorioso.

– Mas não é mentira – fungou a pequena, olhando depois para Ay. – Vem também!

Ele hesitou, de lábios entreabertos. Apesar de ter ficado um pouco curioso com o que Myria dissera, ainda assim preferia acabar aquela tarefa primeiro.

– Vão indo. Vou lá ter depois.

A pequena não fez questão de insistir e, sem mais demoras, partiu a correr pelo corredor. O outro órfão seguiu-a, não correndo mas, ainda assim, não conseguindo esconder a curiosidade no ritmo apressado dos passos. Ay olhou pela janela, pensativo. Nunca acreditara realmente que os anjos existissem, ou talvez acreditasse que existiam, mas que não eram tão simpáticos como os queriam fazer parecer. Encolheu os ombros e esfregou a roupa com mais vigor na água que haviam aquecido à lareira.

Os minutos passaram sem que nenhuma das crianças regressasse. Por fim, uma das jovens mais velhas que cuidavam deles parou junto à porta e pediu para que ele a seguisse até ao gabinete da directora. Uma estranha apreensão germinou-lhe no peito, ao ligar a chegada do suposto anjo com a necessidade da sua presença. Teria feito alguma coisa de mal? Um anjo viera do céu para o castigar? Seria melhor fugir? Talvez o mestre Yudarh o pudesse ajudar, no final de contas ele era uma espécie de demónio bom… Ay inspirou fundo e abanou a cabeça. Acabou por limpar as mãos às calças remendadas e seguiu-a, sem dizer nada.

Quando se aproximou do escritório, deparou-se com os restantes órfãos alinhados diante da porta encostada, os mais próximos tentando espreitar por uma fresta, enquanto segredavam entre eles. Encostou-se à parede, junto a uma rapariga um pouco mais alta que ele e esperou em silêncio. Por fim, a porta abriu-se e a Directora Drane saiu, lançando a todos uma expressão severa, antes de dar passagem à pessoa com a qual estivera a conversar.

Ay piscou os olhos, quase como ofuscado. Era a senhora mais bonita que alguma vez vira. O cabelo ondulado, que caía até ao nível cintura, lembrava um rio de ouro, e o rosto claro possuía uma estranha perfeição que não compreendia. No entanto, havia algo ainda mais surpreendente nela, aquilo que fizera Myria correr desenfreada até eles – duas asas com penas de um branco puro que lhe haviam nascido nas costas.

O anjo relanceou-os com dois olhos cuja cor lembrava o céu por cima das montanhas e sorriu.

***