Mosteiro das Sete Formas, 1 de Kuthona de 4592 AR (parte I)


Ay pegou numa pequena cesta que estava guardada na despensa, indo ter com Lysa à porta principal, meio a correr. Quando a alcançou, deu-lhe a mão e saíram para a cidade.

Nos dias que se seguiram à vinda de Yudarh, Ayalal não voltara a sentir a estranha presença fantasmagórica. Tal como antes, ajudara nas tarefas do orfanato, porém com mais ânimo, devido às melhoras que os feitiços haviam operado na sua amiga. O estranho de nome Dariun, após a sua terceira visita ao orfanato, despedira-se, sem aceitar qualquer pagamento por parte da Directora, e nunca mais fora visto nas redondezas. 

No primeiro dia em que Lysa se pudera levantar e andar pela casa, tinham ido ambos rezar a Andoletta. Durante esse momento a sós, Ay contara-lhe a respeito de quem os havia ajudado. Omitira a parte da criatura que quase o devorara – ela não precisava de mais essa preocupação, nem de saber que as lendas sobre garras sem dono que puxavam quem passava para a escuridão eram mais do que imaginação. E agora que Lysa estava quase recomposta, poderiam ir visitar Yudarh.

Pelo caminho, pararam junto a uma banca e compraram meia-dúzia de peças de fruta com algum dinheiro que Lysa juntara nos últimos tempos. A grande maioria dos alimentos vendidos na cidade era dispendiosa, devido ao processo de importação que sofria. Não crescia muito mais do que fungos e líquenes sob os cumes das Montanhas da Beira do Mundo, e sobre eles o ambiente era demasiado inóspito para a maioria das plantas e animais perdurarem, exceptuando num lugar. Na superfície existia um antigo mosteiro de monges, o qual dera o nome à cidade. Ayalal ouvira dizer que, no seu interior, havia um maravilhoso jardim habitado árvores milenares capazes de tocar a Esfera Exterior, onde os deuses habitavam. Os seus frutos eram por isso abençoados, e só os monges se alimentavam deles.

Suspirou, enquanto via Lysa pagar pela fruta meio enfezada. Seguiram então caminho até casa do mestre Yudarh. Quando atravessaram a encruzilhada, Ay fitou o túnel onde a escuridão densa se perdia de vista. Dentro de si revolvia-se um sem número de questões a respeito de todo o tipo de coisas que poderiam viver nas profundezas e de que forma Yudarh as mantinha afastadas da população dispersa da cidade, se teria ajuda de outros guerreiros ou magos… e se o seu pai poderia viver ali. Não tinha a certeza se queria saber a resposta a essa última questão.

Lysa bateu à porta e esperaram. Passaram-se talvez dez minutos, até Yudarh aparecer. Ay perguntou-se se ele faria de propósito para demorar tanto tempo, de forma a desencorajar as visitas; se estaria a fazer algum tipo de experiência e precisaria de tempo para arrumar os utensílios mágicos; ou se simplesmente estaria a dormir.

O meio-demónio olhou de um para o outro, com a sua expressão quase sempre séria e desagradada. Lysa respondeu-lhe com um sorriso amplo. Ele acabou por revirar os olhos e soltar um suspiro, dando-lhes passagem, sem qualquer palavra, antes de fechar a porta atrás de si.

– Trouxemos alguma fruta. Precisa de se alimentar bem, mestre – notou Lysa, quando entrou na sala. Ay pousou a cesta sobre a mesa, enquanto lançava uma mirada curiosa em redor. Encontrou o bastão, que agora sabia ser realmente mágico, encostado no canto do costume.

Yudarh parou junto da mesa, espreitando o interior da cesta antes de fitar os recém-chegados com uma certa descrença.

– Não sou eu que preciso de me alimentar bem, Lysa – fez notar. – És tu e esse pequeno pirralho.

– Nós alimentamo-nos – garantiu Lysa. – Mas queremos agradecer-lhe pelo que fez. Isto não é nada comparado com as vidas que salvou. É só… um pequeno gesto. Por favor, mestre.

Yudarh coçou uma bochecha com as garras de uma das mãos e acabou por fazer um gesto resignado para que deixassem ficar a fruta por ali.

– Já que vieram, sentem-se. Vou fazer-vos um chá – disse, voltando-lhes as costas e dirigindo-se a um armário.

Lysa e Ayalal entreolharam-se, estupefactos. Aquela atitude era, decerto, estranha. Ele nunca lhes oferecera um chá.

Yudarh pôs ao lume uma chaleira com água, antes de voltar para junto deles. Fitou Lysa com mais atenção.

– Como te sentes?

– Muito melhor. Tenho os músculos ainda doridos – confessou a jovem, apoiando os braços na mesa. – E não consigo fazer esforços durante muito tempo. Mas, tirando isso, estou bem. Devo-lhe isso.

– Não fiz mais do que aquilo que estava ao meu alcance. Não foi nada particularmente difícil – notou, desviando a atenção para a criança entre eles. As suas íris de um vermelho intenso perscrutavam-no de forma tão intensa que a criança baixou o olhar. – O Ayalal fez muito mais do que eu, e é graças a ele que estás viva.

– Não – murmurou Ay, abanando a cabeça, enquanto fitava as mãos. – Foi eu que causei a doença, não fui? Não foi o rato, pois não?

Uma das sobrancelhas do tiefling ergueu-se, enquanto Lysa piscou as pálpebras, incrédula.

– Podes repetir, Ayalal? – As garras de Yudarh tamborilaram sobre a mesa, produzindo um ruído que, no silêncio, parecia quase uma ameaça.

O rapaz encolheu o pescoço e as mãos crisparam-se nos joelhos.

– Foi culpa minha, por eu ter sangue de vampiro. Devo ter passado alguma doença…

– Oh, pelos deuses, rapaz! Que raio de ideia é essa? – perguntou Yudarh, erguendo-se num movimento rápido.

Ay encolheu-se mais, temendo que ele lhe fosse bater, porém o tiefling afastou-se com passos largos até à estante que continha a sua colecção de livros. Correu os olhos pelas lombadas e acabou por tirar um tomo pesado. Abriu-o nas primeiras páginas, folheando-o depressa. Depois voltou à mesa e pousou-o diante da criança.

– Vês aqui alguma coisa que diga que os vampiros, por defeito, sejam portadores de doenças contagiosas? – perguntou-lhe, sem paciência.

A criança espreitou o livro, olhando primeiro para uma bonita mas já antiga ilustração de um homem de porte elegante, muito pálido e de incisivos salientes. Depois olhou para a restante página cheia de palavras escritas numa letra fluída.

– Ah, mestre Yudarh… – Lysa ergueu um dedo, fazendo-o desviar a atenção para si. – As Letras não são ensinadas às crianças do orfanato. O Ay não sabe ler.

Yudarh respirou fundo e fechou os olhos por um segundo, pousando dois dedos na fronte.

A voz de Ayalal soou a medo, baixinho.

– Pode ensinar-me, mestre?

O crepitar do fogo acompanhou o silêncio que seguiu a questão. Lysa olhou para o interpelado, expectante.

Yudarh desviou o olhar para a chaleira cuja água começara a ferver. Passou uma mão pelo cabelo branco e rangeu os dentes. Nesse instante, a sua expressão pareceu perder parte da severidade, como se ele próprio estivesse cansado dela.

– Posso tentar, Ayalal.

*

Mosteiro das Sete Formas, 22 de Neth de 4592 AR (parte I)


Ay acordou com um estremecimento. Abriu os olhos e ergueu um pouco a cabeça para olhar em volta. Continuava deitado no chão, ao lado de Lysa. Alguém se dera ao trabalho de o tapar com uma coberta pesada, a qual o aquecera durante as horas que haviam passado. Ainda se sentia cansado e de membros doridos, mas a mente pesava-lhe muito menos. Olhou para a amiga, deitada ao seu lado e estendeu a mão para lhe tocar a fronte. Pelo menos a febre parecia ter desaparecido por completo. O rosto descontraído levava-o a crer que o sono era pacífico, livre da maior parte das dores e pesadelos.

Baixou a mão e olhou para além de Lysa. Com passos silenciosos, Hendran movimentava-se entre os órfãos, mudando panos molhados, verificando o seu estado de saúde e se precisavam de outro tipo de atenção. Não havia sinal nem de Yudarh nem da Directora Drane. O rapaz observou as velas, tentando perceber pelo seu tamanho quanto tempo poderia ter passado – não passavam de pequenos cotos cujo pavio ameaçava apagar-se daí a não muito tempo.

Ergueu-se com cuidado e fez um leve aceno com a mão quando Hendran se apercebeu que ele acordara. Foi até à gaveta onde guardavam as velas e tirou duas, indo, com cuidado, substituir as que já tinham quase acabado. Pelo caminho, o seu estômago soltou um audível gorgolejo de fome. Há quantas horas não mordiscava um pedaço duro de pão?

– Há caldo na cozinha, ainda deve estar morno – murmurou Hendran, lançando-lhe um sorriso leve.

O pequeno não pensou duas vezes. Depois de tratar das velas, apressou-se até ao piso inferior. A cozinha estava silenciosamente vazia. A noite deveria ir já avançada para não haver por ali nenhuma criança. Foi até à panela ampla, ainda sob as achas mornas, serviu-se do caldo e devorou-o sem sair do lado da lareira. Serviu-se uma segunda vez, pescando um ou outro pedaço extra de carne cozida, e dessa vez foi sentar-se no banco corrido. Comeu mais devagar, saboreando o caldo enxabido e pensando em tudo o que acontecera nas últimas horas em que estivera acordado. Sorriu para si. Pelo menos conseguira ajudá-los de alguma forma.

Ao acabar o jantar tardio, lavou a sua tigela e voltou para o quarto, indo ajudar a jovem que vigiava os doentes.

*

Yudarh regressou ao amanhecer, quando Ayalal e a senhora Drane (que substituíra Hendran, para que a rapariga pudesse dormir), eram os únicos despertos. Como no dia anterior, o meio-demónio, sob o seu disfarce, voltou a observar os doentes e, desta vez, não só lançou dois feitiços a seis diferentes enfermos, como, no fim, voltou a observar os que já tratara antes. De dentro da capa que trazia sobre os ombros, retirou um graveto fino, não muito direito, e fez uma pergunta à directora. Esta indicou-lhe as enxergas daqueles que sofriam ou davam indícios de ter alguma hemorragia intestinal, e foi a esses que o tiefling se dirigiu.

À distância, Ayalal observava-o, atento. Tinha a certeza que aquilo só poderia ser uma varinha mágica – nunca vira de perto uma que fosse real. Yudarh baixou-se e tocou com o graveto no doente mais próximo. Os lábios moveram-se, formando uma rápida palavra de comando, e a ponta da varinha soltou um brilho branco. 

Junto do pequeno, Lysa remexeu-se sob a coberta e soltou um leve mas dorido gemido. A atenção dele focou-se de imediato na amiga. Ela piscou as pálpebras, e levou uma mão ao rosto, esfregando os olhos.

– Lysa…?

A jovem baixou a mão ao escutá-lo e rodou a cabeça para ele, fitando-o com uma expressão algo confusa. Os segundos em que ficou em silêncio pareceram demasiado longos para Ayalal. O rapaz conteve a respiração, temendo que outra crise de alucinações a tomasse.

– Ay... o que aconteceu?

Aliviado, Ayalal libertou o ar que havia retido nos pulmões. Levou uma mão pequena ao peito e sorriu-lhe com carinho.

– Estiveste muito doente. Mas agora já estás melhor, e vais ficar boa – disse. E, ao escutar-se, sentiu-se como um pequeno adulto.

Lysa suspirou, lançando uma mirada vaga ao tecto, e depois às restantes pessoas presentes no quarto. Focou o olhar em Yudarh, as sobrancelhas franzindo-se um pouco.

– Quem é? – murmurou, num tom algo vago. A sua mente estava ainda demasiado difusa para que a presença de um desconhecido a incomodasse realmente. Era quase como uma curiosidade.

Ayalal hesitou. Por um lado não se sentia no direito de denunciar o disfarce de Yudarh, por outro não achava justo que a amiga ficasse na ignorância.

Começara a debruçar-se, de forma a poder segredar-lhe ao ouvido, quando um estranho arrepio lhe percorreu o corpo. Endireitou-se de imediato e rodou a cabeça de um lado para o outro, procurando uma explicação para aquela sensação. Parecia tudo dentro do normal – os doentes descansavam nas suas enxergas, Yudarh estava junto de outra criança, enquanto a directora observava. No entanto, sentia os pelos dos braços eriçados sob as mangas da camisola. Passou uma mão pela nuca, erguendo os olhos para o tecto. Era uma sensação similar à que sentia quando as outras crianças o observavam discretamente, mas desta vez não havia ninguém a observá-lo. Engoliu em seco, quando uma ideia assustadora o assaltou. Seria a alma invisível de algum dos mortos que ficara presa ao quarto?

– Ay? O que se passa?

O rapaz baixou o olhar para Lysa, tentando disfarçar a sua repentina apreensão.

– Eu… depois explico – murmurou. Não conseguiu impedir-se de voltar a olhar em volta, agora mais discretamente.

*

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR (parte VI)


Ayalal ergueu o punho para bater à porta, porém, antes de chegar a tocar na madeira, Yudarh agarrou-lhe o braço e baixou-o com cuidado. Em vez da criança, foi o tiefling que bateu, com bastante mais força do que o pequeno seria capaz. Aguardaram por um bocado até a porta se abrir num movimento abrupto.

Desconcertado, o olhar da senhora Drane focou-se, por um momento, na figura desconhecida, antes de se aperceber da presença do órfão descalço. Os lábios formaram uma linha apertada, antes de falar.

– Agradeç…

– Encontrei esta criança a correr a cidade, meio desesperada, à procura de um curandeiro. Vim ajudar no que puder. – Yudarh interrompeu-a, num tom firme e grave.

A directora piscou os olhos, meio atordoada com a forma directa como o homem falara.

– O que… quem é o senhor? – quis saber, franzindo o sobrolho.

– Sou um viajante, com alguns poderes curativos. Mas se os meus serviços não forem realmente necessários… – Recuou um passo e chegou mesmo a dar meia volta.

Ay arregalou os olhos, o coração falhando um batimento.

– Não! – A directora esticou a mão, mas conseguiu impedir-se de o agarrar pela capa. Yudarh olhou por cima do ombro, erguendo uma sobrancelha. – Peço perdão. Agradecemos qualquer auxílio que nos possa prestar, senhor – hesitou, sendo óbvia a sua dúvida. – Mas o clérigo mais apto da cidade foi incapaz de nos ajudar. E não sei se temos como pagar-lhe…

O tiefling abanou a cabeça, afastando a menção de pagamento.

– Permita-me examinar os casos mais graves e farei o que puder.

Apesar da incerteza, a senhora Drane acabou por dar passagem a ambos, fechando a porta atrás de si. Vários pares de olhos espreitaram da cozinha, silenciosos. Yudarh lançou-lhes uma mirada vaga, enquanto seguia a directora.

– Porque nome o poderei tratar, senhor?

– Daryun – apresentou-se. – E este rapaz precisa de descansar. Está mais do que esgotado, senhora.

Drane suspirou, lançando um olhar a Ayalal.

– Esse rapaz já se esforçou demasiado nestes últimos dias – notou. – E parte da culpa disso é minha. Mas acredito que ele só conseguirá sossegar ao lado de uma das nossas jovens, quando ela estiver melhor.

O rapaz fez um aceno de confirmação. Já deixara a amiga sozinha demasiado tempo. E se tivesse piorado ainda mais? A súbita ansiedade fê-lo passar à frente de ambos e correr escadas acima.

– Ayalal!

A voz da directora perdeu-se atrás dele. A criança tropeçou no penúltimo degrau, levando as mãos ao chão para se apoiar e impedir-se de se estatelar, e continuou até à porta do quarto, onde estacou, o olhar precipitando-se para a enxerga de Lysa. A amiga estava deitada de lado, encolhida sobre si. Ofegava baixinho por entre os lábios semi-abertos. Ayalal ajoelhou-se ao lado dela, levando-lhe uma mão à fronte febril. O pano húmido que estaria a tentar aplacar-lhe a subida da temperatura havia deslizado para o chão.

Atrás dele, a senhora Drane e Yudarh entraram no quarto. A directora indicou ao homem as três enxergas onde jaziam os doentes mais graves, entre as quais estava a de Lysa, que era também a mais próxima. Ele abeirou-se, levou um joelho ao chão, ao lado de Ayalal, e pousou o bastão entre ambos.

– Eu trato dela – disse, num tom baixo, dirigindo-se mais à criança do que à directora. – Daqui a uns minutos já estará melhor. Mas precisará de descansar. Tal como tu. Se ela ficar preocupada com o teu bem-estar, piorará, por isso trata de dormir, Ayalal.

O rapaz não disse nada, mas o aceno lento confirmou que o ouvira. Retirou a mão da fronte de Lysa e afastou-se um pouco, dando-lhes espaço.

Yudarh procedeu a um pequeno exame, obrigando-a a deitar-se de ventre para cima. Ao sentir o movimento, as pálpebras de Lysa arrastaram-se morosamente e os olhos abriram-se. Fitou cada um deles, no entanto não houve qualquer reconhecimento no seu rosto, só aquele estranho medo, como se lhe pudessem fazer mal.

Após o exame, o tiefling sussurrou algumas palavras e as mãos recriaram um conjunto de movimentos fluídos que demoraram poucos segundos. A seguir pousou a mão esquerda sobre a fronte de Lysa e disse uma última palavra. Um brilho fraco emergiu de sob a palma, para desaparecer pouco depois. A jovem não tentou fugir. Na verdade, quando a luz se esvaiu, as suas pálpebras descaíram num movimento lento, e fecharam-se por completo.

Ayalal sobressaltou-se, os olhos arredondando-se de terror, enquanto os dedos se crispavam no tecido das calças.

– O que se… – começou a directora, também assustada.

– Está tudo bem. A doença foi removida e ela adormeceu devido à exaustão – informou Yudarh, após retirar a mão. – Mas a jovem continua fraca. Vou tentar restaurar um pouco da sua força, porém precisará de repouso absoluto. Todos eles. Se insistirem em levantarem-se, não o permita, directora, a não ser para fazerem somente as necessidades básicas. Por hoje conseguirei tratar de seis dos casos, no máximo.

A senhora Drane respondeu um “sim, senhor” murmurado, enquanto o via iniciar um novo feitiço, este um pouco mais demorado que o primeiro.

Quando deu por terminado o caso de Lysa, dirigiu-se à próxima enxerga, repetindo o procedimento. Ayalal pouca atenção lhe prestou, voltando a aproximar-se da amiga para a observar de perto. O rosto descontraíra-se para uma expressão esgotada mas pacífica e o corpo deixara de tremer daquela forma descontrola. Um vacilante sorriso de alívio despontou nos lábios da criança, e duas lágrimas escaparam-se-lhe pelos cantos dos olhos. Apressou-se a limpá-las à manga da camisola, não fosse Lysa acordar de repente e as visse.

Minutos depois, Yudarh ergueu-se de junto do último caso ao qual podia prestar ajuda naquele dia, para observar as restantes crianças, ao mesmo tempo que dava algumas recomendações à directora. Por fim, fitou o local onde estava Ayalal. O pequeno jazia deitado e meio encolhido, ao lado de Lysa, e ambos dormiam. O meio-demónio sorriu para si.

*

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR (parte V)


Antes de iniciarem a caminhada, Yudarh deixou a criança acalmar-se, aproveitando para lhe examinar as escoriações causadas pela criatura.

– O que era aquilo? – murmurou Ay, não conseguindo deixar de olhar para o corpo caído.

O tiefling não lhe respondeu logo. Tocou-lhe no queixo arranhado e murmurou um feitiço. O rapaz sentiu uma ligeira comichão no ferimento para, de seguida, o ardor começar a desvanecer-se. Permaneceu somente uma sensação de dormência. O mesmo aconteceu com os restantes arranhões e nódoas negras.

– Aquilo – começou, endireitando-se devagar. A sua expressão contorceu-se num esgar de desgosto e simultânea repulsa. – É uma aberração criada pelos drow. Chamam-lhe irnakurse, que na nossa língua significa “perfeitos”. Do que já investiguei e observei, acredito que antes pudesse ter sido um elfo que sofreu todo um processo de tortura insana num dos seus laboratórios, que o transformou naquilo: uma abominação repleta de raiva, de mente e espírito quebrados. Uma pobre alma que sofreu mais do que alguma vez deveria ser permitido.

Drow… Ayalal não sabia exactamente o que eram mas, pela forma como a mão de Yudarh se crispara no bastão ao explicar-lhe a origem do monstro, eram seres muito maus. Olhou a criatura que o tentara devorar, agora com uma palpitação de pena no peito. Quem teria sido no passado? Onde estaria a sua família?

– Esses Drow vivem aqui? – murmurou, preocupado.

– Não “aqui”. Vivem num local muito mais profundo, as Terras Negras, que têm ligação com algumas destas grutas. Foi daí que o irnakurse veio, em busca de comida, imagino.

Enquanto Ayalal estava distraído com a nova informação, o meio-demónio moveu uma mão num gesto ligeiro e recitou meia dúzia de palavras. As nódoas de sangue e uma grande parte da sujidade que manchava a pele e roupa da criança desapareceram.

Não se demoraram muito mais. No regresso, Ay pôs de lado o assunto do irnakurse e contou-lhe o que sabia sobre o que se passava no orfanato: o número de doentes, os sintomas, as mortes, a incapacidade do clérigo de as curar, o rato que as outras crianças tinham encontrado. Yudarh movia-se com a segurança de quem era familiar com o local, simultaneamente atento ao que o rapaz dizia e ao que os rodeava.

Por fim, a luz fraca das tochas anunciou-se à distância, conferindo ao negrume um fraco tom alaranjado que era mais animador do que Ayalal imaginara. Tentou andar mais depressa. Quando estava em plena escuridão, a sua visão fazia com que tudo ficasse numa mistura perturbadora de preto e branco.

Ao irromperem para o centro da encruzilhada, a criança inspirou fundo. Teve vontade de se sentar no chão, mesmo ali, e não se mexer durante um bom bocado. As pernas ameaçavam não o suster de pé, e ele não estava certo de quanto mais aguentariam.

– Ayalal.

A criança ergueu o olhar encovado para Yudarh, e os olhos piscaram, focando mais do que a vista. A súbita segurança que a presença de Yudarh conferia fizera com que a sua mente perdesse o estado de alarme e começasse a avançar para uma letargia de exaustão.

– Sim, Mestre?

– Fora deste túnel vou ser um viajante que encontraste enquanto procuravas ajuda na cidade – disse o tiefling, muito sério. – Não sabes o que sou, donde venho, nem sequer o meu nome.

Ay franziu um pouco as sobrancelhas. A ideia de que o Mestre Yudarh os ajudaria numa espécie de anonimato incomodava-o. Ele merecia que o reconhecessem como alguém que fazia o bem, não como um ser demoníaco que muitos pensavam que era.

– É o melhor. Não queremos alimentar a imaginação fértil e muitas vezes rebuscada do povo – notou o adulto.

– Mas ainda tem… – A criança apontou para os chifres, algo hesitante. – Como…?

Um pequeno sorriso ergueu um dos cantos dos lábios de Yudarh. Num gesto rápido levou a palma da mão livre ao peito e fez os dedos terminados em garras deslizarem até à base do pescoço. Sussurrou quatro palavras e, de seguida, afastou a mão. Por um fugaz instante, foi possível antever-se um emaranhado de energia que o corpo assimilou de imediato. De forma gradual, o tom avermelhado da pele de Yudarh foi absorvido por um castanho claro; os olhos outrora vermelhos, ganharam um tom também ele castanho mas mais claro, quase como dourado; chifres, garras, cauda e cascos desapareceram como se nunca tivessem existido; o cabelo passou de branco a puro negro; as feições suavizaram-se, tornando-o mais jovem; e o bastão perdeu as runas e revestiu-se de nós rústicos próprios de um ramo de árvore.

A criança piscou os olhos, com um ar aparvalhado. Era como se Yudarh estivesse lá e, ao mesmo tempo, não estivesse. A imagem parecia tremelicar, permitindo-lhe ver as duas imagens intercaladas.

– É um feitiço de disfarce – explicou o meio-demónio. – Uma mera ilusão. É possível que não a vejas muito bem, porque sabes quem eu sou. Em todo o caso, não dura muito mais do que duas horas, por isso sejamos rápidos.

Não tardaram a sair do túnel para a cidade, Ayalal seguindo um pouco atrás de Yudarh. Pouco depois estavam diante das portas duplas do orfanato que se erguiam austeras na sua madeira escura. Avançaram para os degraus.

*

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR (parte IV)


O tentáculo em redor do tornozelo de Ayalal não afrouxara o aperto, pelo contrário. As palavras fizeram-no estreitar-se ao ponto de parecer querer enterrar-se na carne. O rapaz soltou um gemido de dor e, agora que a criatura estava distraída, dobrou-se sobre si, tentando com os dedos abrir o tentáculo para se libertar. Porém, a sua força estava muito longe de se comparar à do monstro.

Quando Yudarh fez um pequeno movimento para diante, a boca da criatura escancarou-se. Um grito alienígena, repleto da mais pura raiva e horror, precipitou-se sobre eles e tentou perfurar-lhes não só os ouvidos, como a alma. Ay encolheu-se por instinto, como se o ser tivesse acabado de saltar na sua direcção. Porém nada aconteceu. O grito continuou a ecoar pela gruta, perdendo-se na escuridão.

No processo, três outros tentáculos lançaram-se na direcção do tiefling. Ele baixou-se e desviou-se para o lado, evitando dois deles, porém o terceiro atingiu-o numa coxa. Yudarh vacilou, mas não caiu. Lançou um olhar à criatura.

– Os teus poderes não me afectam a mente – disse, pousando os cascos em terra firme.

Como aviso, a extremidade superior do bastão soltou uma faísca. No instante a seguir, um novo relâmpago de energia eléctrica precipitou-se na direcção da criatura. Ela não teve como fugir. O corpo foi abalado por vários estremecimentos e o grito de horror com que os tentara afectar vacilou para algo gorgolejado.

Com isso, o tentáculo que agarrava Ayalal abriu-se e escorregou da sua perna, num movimento serpenteante. A criança tornara-se um alvo secundário.

Os quatro membros lançaram-se sobre Yudarh em simultâneo. Um deles falhou redondamente o alvo, outro pareceu acertar, e no entanto o tiefling não pareceu de todo afectado com o choque. Dos outros ele desviou-se com movimentos atentos. Uma rosnadela frustrada soltou-se da boca da criatura, diante do completo falhanço da sua ofensiva. Yudarh não esperou um segundo para contra-atacar.

Ay encostou-se à rocha o melhor que podia, tentando manter-se tão longe quanto possível da batalha, enquanto observava. O meio-demónio não demonstrava qualquer tipo de descontrolo. Cada ataque parecia premeditado, a atenção focada no que a criatura poderia fazer a seguir. Desse modo, conseguiu evitar todos os ataques que lhe eram dirigidos. A criatura não teve a mesma sorte. Quando realmente percebeu que não teria hipótese de vitória, tentou rastejar e fugir, porém poucos foram os metros percorridos, quando um novo relâmpago a atingiu, siderando-a.

Muito quieto, Ayalal ficou a olhar para o corpo disforme, caído no chão. Fumegava, e o cheiro a carne queimada toldava o ar. Ainda temeu que pudesse voltar a erguer-se, mas nem um membro deslocado estremeceu. Yudarh aproximou-se da criatura, levando um joelho ao chão para a observar de perto. Tocou-lhe com cuidado, voltando-a para si. Ay viu-o a abanar a cabeça e os ombros descaíram um pouco. Sussurrou algumas palavras numa língua desconhecida que, estranhamente, pareciam conter em si um lamento pesaroso.

Por fim, o tiefling ergueu-se e voltou-se para o rapaz. Por um momento Ayalal julgou que também ele seria alvo de um daqueles ataques fulminantes, e encolheu-se por instinto. O olhar de Yudarh coriscava de fúria.

– Devia tê-lo deixado comer-te, criança idiota! – rosnou.

– Eu não quis… eu não sabia… eu precisava… desculpe, mestre Yudarh. – A cabeça da criança descaiu, ainda assim o olhar saltava assustado para a criatura. – Precisava de o encontrar de qualquer forma.

– Não desta forma. Podias estar morto, Ayalal. Não fui eu que te salvei, foi algum deus que teve pena de ti – atirou-lhe as palavras, como se fossem estalos. – Por acaso, e só por acaso, estava aqui perto! E se não estivesse?! Estas grutas são gigantescas, profundas e extremamente perigosas. Aquilo é só uma amostra.

Com a mão livre, apontou o cadáver no chão.

O lábio inferior do rapaz estremeceu e ele engoliu em seco, prendendo o soluço que se queria soltar. A voz vacilou, tornando-se um murmúrio.

– Mestre, a Lysa está a morrer… estão todos a morrer. – Não teve coragem para o encarar. – Ninguém os consegue curar. Eu precisava de o encontrar.

Yudarh não lhe respondeu logo. Ay sentiu o seu escrutínio rápido e pareceu-lhe ouvir o que seria um muito leve e disfarçado suspiro. O som de cascos a bater na pedra avizinharam-se de si. O pequeno fechou os olhos e encolheu-se mais. No entanto, acabou por sentir uma mão pousar-se ao de leve sobre o cabelo.

– Contas-me tudo no caminho de regresso.

O corpo da criança relaxou sob o toque familiar e, inevitavelmente, um novo soluço inundou-lhe o rosto de lágrimas.

*

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR (parte III)


Quando Ayalal piscou os olhos, a trágica imagem da morte de Lysa recuou do primeiro plano da sua mente, para ficar a rondar-lhe a memória, ameaçando atacá-lo a qualquer instante. A gruta voltara a estar diante de si, no entanto a posição do rapaz havia-se alterado em relação à do local: já não estava de pé. O peito e o maxilar inferior doíam-lhe da queda que dera, e o queixo ardia-lhe onde a pedra o esfolara. Apesar disso, a dor era o menos. Devagar, o seu corpo era arrastado para trás, por um pé. Puxou-o, ao mesmo tempo que levantava a cabeça para espreitar por cima do ombro.

O que parecia ser um tentáculo enrolara-se num dos seus tornozelos. Viu a ponta contorcer-se, sentiu a pressão que fazia, face ao seu puxão. O coração começou a bater mais depressa, enquanto o olhar seguia o tentáculo pela escuridão, até uma das enormes colunas de pedra. A criança semicerrou os olhos, perscrutando com mais atenção. A coluna moveu-se e dobrou-se um pouco, revelando não estar presa ao tecto.

Há medida que Ay se aproximava, apercebeu-se da armadilha em que caíra. O que pensara serem espigões escavados na pedra eram, na verdade, dedos e ossos que brotavam de forma aleatória de várias zonas da criatura. Os membros, antes disfarçados pelas sombras, retorceram-se, formando ângulos impossíveis, como se alguém os tivesse partido e recolocado sem ter a mínima noção da forma que deveriam ter, nem da zona onde se inseriam. Fitando-o, dois olhos esféricos piscaram, dessincronizados – um encontrava-se na zona superior do corpo, outro quase ao nível do solo. No espaço que separava os orbes, a superfície contorceu-se e abriu-se numa boca de fundo negro, cada mandíbula ameaçando-o com uma série irregular de dentes afiados.

Um grito de pânico encheu-lhe a garganta, perante tamanha monstruosidade, e Ayalal tentou puxar a perna num movimento frenético. No entanto, ou a força lhe havia fugido, ou a constrição era demasiado forte. Tentou agarrar-se ao chão, mas foi em vão. Os dedos derraparam, as unhas raspando nas irregularidades da pedra. Uma delas soltou-se e Ay agarrou-a por instinto. Rodou sobre si num movimento rápido, impulsionado pelo pavor, e atirou a pedra à criatura. Acertou-lhe, porém o monstro nem sequer reagiu, deixando o projéctil cair e ressaltar duas vezes no chão. Um arquejar gutural libertou-se da boca dele, e este dobrou-se mais, em direcção aos pés do rapaz. Ayalal sentiu um bafo grotesco a carne podre, e um fio de saliva pendeu da língua que se estendia na sua direcção.

Porém, a criatura deteve-se. O olho superior piscou duas vezes, fitando alguma coisa acima da cabeça de Ayalal. De súbito, um traço de luz esbranquiçada cortou o espaço ao lado da criança, erguendo-lhe os cabelos com a energia pura que continha. A criatura deixou escapar um grito estrangulado, talvez de surpresa, e ainda se contorceu numa tentativa de escapar ao impacto, arrastando Ayalal com brusquidão para o lado contrário ao da luz, embatendo com ele na parede. O rapaz semicerrou os olhos e piscou as pálpebras, algo atordoado não só pelo choque, como também pela explosão de luz, seguida de uma torrente de faíscas a saltar em todas as direcções quando a descarga embateu no corpo do monstro. Um forte cheiro a queimado tomou o ar em redor.

Adarghins i zadiran.

Ayalal reconheceu de imediato o tom duro e álgido da voz. Embora não compreendesse o que fora dito, as palavras soaram-lhe a uma ordem que não admitiria desobediência. Olhou para o caminho que pensara seguir antes mesmo de ser capturado, e arregalou os olhos. Yudarh pairava a cerca de dois ou três palmos do chão, para lá do piso plano, por cima da zona que descia a pique. Numa das mãos empunhava o bastão, apontando-o à criatura. A sua expressão, de olhar cortante e cantos dos lábios descaídos, prometia tudo menos compaixão.

*

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR (parte II)


Ofegante e trémulo, parou somente diante da porta fechada. Bateu com a pouca força que lhe restava, mal escutando o som a repercutir-se na madeira.

– Mestre… – sussurrou, dolorosamente consciente de que ninguém o ouviria. Encostou-se à porta e deixou que a exaustão suavizasse. Voltou a bater, ainda assim o punho fraquejava. – Mestre Yudarh!

A única resposta que obteve foi o eco da sua voz nas paredes escurecidas do túnel. Esperou e, sem ter a certeza do tempo que passara, chamou-o novamente e voltou a bater à porta. Mas foi um esforço vão. Se estava em casa, o tiefling não o receberia.

Olhou para as sombras que o haviam seguido até à soleira da porta de Yudarh. Nunca vira o mestre na cidade e, pelo que Lysa dizia, ele preferia a reclusão que lhe reservava a solidão. Não estando em casa, e sendo improvável que houvesse descido à cidade, só via duas hipóteses possíveis.

Caminhou até ao cruzamento, apoiando uma mão na parede. No peito o coração ainda batia descompassado. Lançou um olhar ao trilho que percorrera meses atrás, até ao exterior, onde, pela primeira vez, pudera cumprimentar o céu e o Sol. Depois, fitou o lado oposto. Conseguia perceber como o túnel se perdia na mais pura escuridão, alguns metros mais à frente. Já vira Yudarh desaparecer por aquele trilho e acreditava no que as histórias contavam sobre os monstros que viviam nas sombras das entranhas das montanhas.

Dessa vez, não precisou de coragem para avançar: foi o medo que o empurrou em frente. Entrou na escuridão, seguindo com menos cuidado do que sabia que deveria. Apesar de ser capaz de ver no escuro, a falta de qualquer tipo de luz intimidava e ameaçava-o. Se as histórias fossem verdadeiras, haveria criaturas à escuta, monstros que esperavam por qualquer ser vivo que pudessem devorar.

O caminho começou a descer e as paredes estreitaram-se. O ar que pairava em seu redor tornou-se ligeiramente mais húmido e pesado. Ao fim de alguns minutos, Ay chegou a uma bifurcação: um dos lados seguia no mesmo sentido descendente que levara até ao momento; o outro não passava de pouco mais que uma ampla falha na rocha, através da qual um homem adulto conseguiria passar com cuidado. Parou, ponderando nas poucas hipóteses que tinha. Yudarh poderia estar em qualquer lado, e ele não fazia ideia da extensão daqueles caminhos. A probabilidade de se perder era enorme. Mas se não encontrasse o meio-demónio a tempo…

Encheu os pulmões de ar e esperou um segundo, antes de os esvaziar num súbito grito.

– Yudaaaaarh!

O grito ecoou nas paredes vazias, sendo pouco depois engolido pelo silêncio. Era uma péssima ideia, Ayalal tinha plena noção disso. Se o mestre o ouvisse, estivesse onde estivesse, outro tipo de coisa certamente o faria. Voltou a chamá-lo uma vez e depois olhou para os dois caminhos que tinha à escolha. Nenhum lhe parecia melhor do que o outro, por isso acabou por escolher a fenda, pela qual se infiltrou. Perscrutou cada metro em diante, enquanto tentava ouvir mais do que os seus passos e a própria respiração.

Caminhou talvez durante meia hora – não tinha completa noção do tempo que passara. Para além do seu campo de visão, onde tudo anteriormente fora breu, surgiu uma leve luminosidade. Ayalal franziu as sobrancelhas e parou, com uma mão apoiada na parede. Aguardou que a claridade revelasse ser mais do que uma luz ao fundo do túnel, porém ela não se moveu. A criança avançou com mais cautela, os passos tornando-se tão silenciosos quanto conseguia. Quando estava mais perto, apercebeu-se que a falha de alguma forma se abria para o compartimento donde vinha a luz e que esta parecia produzida pela própria rocha, que em algumas zonas se tornava azulada. Espreitou para ver melhor. A falha abria-se para um compartimento amplo de tecto alto. Uma dúzia de estalactites estendiam-se dele, tentando alcançar as estalagmites que cresciam sob elas. Um ou outra poça de água compunha o local. Para além disso, estava, aparentemente, vazio.

Saiu do interior da falha, sem conseguir disfarçar uma certa curiosidade por aquele estranho brilho. Evitou pisar as poças, porém não foi difícil as meias ficarem molhadas da humidade fria da pedra. Parrou por um momento, debruçando-se sobre um dos brilhos e percebendo que não era realmente a pedra que brilhava, e sim algo que estava colada a ela. Já vira coisas daquelas nas paredes da cidade, só não eram brilhantes. Pensou por um segundo, antes de acenar para si mesmo, ao lembrar-se do nome. Era um líquen, e aquele deveria ser mágico. O melhor era não tocar-lhe, ponderou.

Endireitou-se e voltou a olhar em volta. Mais à frente, a galeria começava a afunilar-se, formando uma nova passagem onde a luz morria. Atrás de si… franziu as sobrancelhas e regressou até junto da fenda na parede. Tocou com a mão pequena numa zona da pedra à altura da sua cabeça. Havia sulcos na rocha, sobrepondo-se em vários ângulos. Eram demasiado definidos para se confundirem com marcas naturais da pedra. Engoliu em seco. Lembravam demasiado estrias deixadas por garras de algo suficientemente forte para rasgar aquela dureza. Não vira nada daquilo durante a caminhada pela falha, por isso pertenceriam provavelmente a algo que tentara sair, mas não conseguira. Um dos monstros que vivia ali.

Contemplou o que o poderia esperar do outro lado. Uma centena de dentes famintos e garras que lhe rasgariam o corpo. Cerrou os punhos. Não podia acobardar-se. Se alguma coisa o tentasse atacar, ele limitar-se-ia a correr tão depressa quanto conseguisse para lhe fugir.

Resoluto, avançou para o outro extremo da galeria, contornando algumas das estalagmites. Atrás de si, deixou o gotejar esporádico da água que se infiltrava na montanha e, após uma inspiração, reentrou na escuridão. O túnel alargava-se consideravelmente daquele lado. Colunas espessas e meio disformes formavam apoios casuais entre o tecto e o solo. Ay atentou as paredes e o próprio chão, no entanto não viu sinal de outras marcas que pudessem denunciar um habitante obscuro.

O trilho encurvou, e a criança parou de repente à beira de uma descida a pique. Não lhe via o fundo. Hesitou, apoiando uma mão na parede. E se não conseguisse voltar a subir?

Por entre a indecisão, foi incapaz de perceber que alguma coisa se aproximara de si pelas costas. Só sentiu de súbito um dos pés a fugir-lhe do chão. Mas, nesse mesmo instante, mal tomou noção da dor da queda que deu para a frente, ou sequer do tentáculo que lhe prendia o tornozelo e o arrastava para trás. Na verdade, já não se encontrava de todo numa gruta escura, mas sim de regresso ao orfanato. Diante de si, Lysa jazia exangue, morta pela doença que a minara, e ele chorava como nunca antes havia chorado, enquanto uma dor terrível lhe rasgava o peito.

***

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR (parte I)


Hendran insistira que Ay se deitasse e tentasse descansar. Ele limitara-se a lançar-lhe um olhar mortiço e abanar a cabeça numa negação. Sob as pálpebras, dois poços escuros falavam melhor do que qualquer palavra a respeito do cansaço da criança. Na verdade, o contraste com a pele pálida fazia-lo parecer mais doente do que alguns dos que padeciam da maleita.

Lysa passara a noite num sono inconstante repleto de murmúrios e esgares de angústia. Com o mimetizar exterior do nascer do dia, a luminosidade do quarto começara a crescer, assim como a sua inquietação. Ay cabeceava para a frente, lutando consigo próprio para não adormecer, quando a voz da amiga o despertou qual estalo no rosto.

– Larguem-me! – Lysa gritara e abrira os olhos, cuja atenção caiu sobre o rapaz ao seu lado. O medo inundou-lhe o rosto num reconhecimento que não era o suposto: via alguém que não era Ayalal. – Deixa-me, por favor! Isso magoa… por favor, por favor!

Soltou um soluço e tentou rastejar para longe dele. Por um segundo, Ay paralisou, chocado com tal reacção, e os músculos fraquejaram quando os tentou mover, doridos por tudo o que haviam passado nos últimos dias. No entanto, logo a seguir agarrou-a para a manter na enxerga.

Em resposta à prisão, as pálpebras de Lysa escancararam-se em puro terror. Ergueu uma mão trémula e pressionou-lha contra o rosto, tentando afastá-lo de si. Faltava-lhe porém a força.

– Lysa, sou eu – murmurou Ay, fechando um olho sobre o qual caíra um dedo magro. – Ninguém te vai fazer mal…

– Não, por favor! – implorava, as lágrimas começando a escorrer-lhe pelo rosto que se contorcia num choro sufocado. – Eu não fiz nada... larga-me, pai, larga-me! Não, não… Mãe, ajuda-me!

O rapaz fez o que pôde para a manter deitada, refreando-lhe as tentativas de o afastar, mas era difícil. O pânico dera-lhe uma falsa força e, apesar de Lysa não ser alta, ainda assim era maior do que ele, o que tornava mais difícil tentar contê-la. Acabou por, de alguma forma a largar e obrigá-la a sentar, só para a poder abraçar, fazendo por prender-lhe os braços contra o peito. Ela gritou de desespero, tentando escapar-se.

– Não vou deixar que te magoem – disse-lhe baixo, junto do ouvido, esperando que houvesse discernimento suficiente para o compreender. Pensou cada uma das palavras. – Estás segura aqui, nós protegemos-te. Somos teus amigos, a tua família. Ele não te fará mal, nunca mais.

Demorou até a jovem sossegar contra ele, levada por um choro que, devagar, se amenizou. Baixinho, Ay cantou-lhe uma música de embalar, a mesma que Lysa lhe cantava algumas vezes para o ajudar a dormir, esperando que isso fosse uma ajuda a sossegá-la. Quando achou que podia aliviar o aperto, o pequeno libertou um braço e afagou-lhe o cabelo num toque carinhoso mas algo trémulo, receando despoletar um novo ataque de alucinações. Por fim, também o choro terminou, deixando-a num sono exausto, aconchegada nos seus braços mais pequenos. Com ajuda de Hendran, voltaram a deitá-la na enxerga.

De mente esgotada por tudo o que se passara, Ayalal saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Lá fora, caminhou lentamente pelo corredor sombrio, os punhos cerrados com tanta força que as extremidades das unhas o magoavam. De súbito, parou e esmurrou a parede ao seu lado. A dor do impacto entranhou-se-lhe pelos ossos, porém foi um alívio breve ao que sentia. Inspirou fundo e engoliu em seco. Não percebia como é que não havia ninguém que os pudesse ajudar. O clérigo falhara de todas as vezes; no dia anterior ouvira Drane a contar a Hendran que os curandeiros, sabendo disso, se haviam recusado a ver as crianças, e que tinham sugerido que fossem levadas para fora da cidade, para não contaminarem os restantes cidadãos. Estavam a condená-los, não se atreviam sequer a tentar! Rosnou por entre os dentes, sentindo raiva dessas diabólicas pessoas, raiva do pobre rato que deveria ter causado aquela epidemia, raiva dos deuses a quem teciam preces, mas que na verdade eram incapazes de ajudar um bando de crianças…

Voltou a esmurrar a parede e a dor fez com que os pensamentos parassem por instantes, para a seguir ficarem a pairar na consciência. Havia neles algo de importante, sentiu, alguma coisa que lhe estava a escapar. Concentrou-se, resistindo à raiva que queria tomar posse dele. Quando se apercebeu do que era, os olhos arredondaram-se. Sentiu-se estúpido por não se ter lembrado antes.

Um instante depois, galgou pelos degraus abaixo e precipitou-se para a porta, saindo a correr para o frio da cidade, sem sequer se calçar. Atrás de si, a porta ficou aberta.

***

Mosteiro das Sete Formas, 20 de Neth de 4592 AR (parte III)


A noite acabara de cair na cidade subterrânea, quando Hendran se apercebera que a expressão de Pather se descontraíra… e que o rapaz deixara de respirar. Tentaram reanimá-lo, porém fora um esforço infrutífero. Apesar de não ter qualquer vontade de se aproximar do corpo, Ayalal viu-se obrigado a ajudar a deslocá-lo até ao andar térreo, pousando-o junto ao altar da Avó Corvo e cobrindo-o com um lençol. O olhar divino velar-lhe-ia a alma pela noite adentro. Ay ficou quieto e em silêncio, enquanto a directora e Hendran rezavam uma prece murmurada a Andoletta. Não era capaz de olhar para o incaracterístico volume deitado no chão frio sem que uma onda de terror o submergisse. Era como se nada conseguisse deter a doença, como se cada um dos enfermos tivesse a sentença ditada.

Horas depois, quase como confirmação desse pensamento, um segundo corpo juntou-se a Pather. Após uma convulsão que lhe arqueara as costas de forma quase sobrenatural, a vida abandonara o corpo da rapariga que tivera o ataque de espasmos durante a manhã. Ver uma mulher quase adulta a perecer arruinava qualquer esperança que pudessem ter. Tentaram retirar o corpo sem acordar os que já dormiam ou estavam tão doentes que a consciência pairava entre uma realidade nublada e o delírio da febre.

Ainda não tinham atingido a madrugada do dia seguinte e já o quadro geral os devastava: os doentes que estavam mal haviam piorado para o estado que antecipara a tragédia. A febre subira e não parecia haver forma de querer baixar, as dores faziam-nos gemer numa sinfonia de horror, e os murmúrios desconexos abalavam quem os escutava.

Foi impossível para Ayalal conseguir dormir. Um nó de aflição esmagava-lhe o peito, tornando quase difícil respirar. Por isso, sob a luz trémula de uma vela, manteve-se sentado junto da amiga, refrescando-lhe o rosto com um trapo molhado, enquanto as horas rastejavam pela noite.

***

Mosteiro das Sete Formas, 20 de Neth de 4592 AR (parte II)


Quando entrou na cozinha, Ayalal deparou-se com um dos rapazes a empunhar firmemente o atiçador da lareira, e uma rapariga a segurar na vassoura, um passo atrás dele, enquanto observavam de olhos semicerrados um armário alto que se erguia encostado a um canto.

– Foi lá para baixo, eu vi! – disse outro dos órfãos, ajoelhando-se e quase encostando o rosto ao chão para espreitar. – Está lá, sim. Tenta tirá-lo com a vassoura.

– E se a coisa salta para cima de mim?! – perguntou a rapariga, chocada. – Eu dou-lhe com a vassoura se ele tentar sair…

Ayalal ponderou seriamente em deixá-los entretidos com fosse qual fosse o bicho que haviam encontrado. No entanto a sua consciência não o deixaria em paz se não soubesse o que poderia ser, principalmente havendo um quarto cheio de doentes por cima da cabeça de todos eles.

– O que se passa? – perguntou, após o segundo que usara para ganhar coragem.

Seis cabeças rodaram e olharam-no por cima dos ombros.

– É um rato gigante – disse a rapariga, muito depressa. – Estava escondido na despensa e, quando fui lá, fugiu.

Ayalal não acreditava que o animal fosse assim tão grande. Mas, segundo ouvira dizer, os ratos podiam causar muitas doenças, e se esse estivera escondido no sítio onde guardavam a maior parte dos alimentos, havia a possibilidade de ser ele o culpado para o que se passava nos últimos dias.

– Dá cá isso. – Um dos outros rapazes arrancou a vassoura da mão da pequena e baixou-se junto ao armário, enfiando a extremidade inferior por baixo do móvel e empurrando com força.

Escutou-se um guincho fino e, num movimento rápido, o animal surgiu, correndo desenfreadamente para tentar escapar. O atiçador da lareira caiu na direcção dele, porém falhou o alvo, batendo antes na pedra fria e ressoando na cozinha.

O rato tinha o comprimento de uma mão adulta aberta e uma magreza doentia – um olhar mais atento detectaria com facilidade várias peladas que revelavam a pele ulcerosa que o cobria. Por um instante, ele olhou na direcção da porta, onde estava Ay, e depois na da janela fechada, medindo as hipóteses de fuga. Enveredou pela primeira opção.

O rapaz ficou parado, vendo-o correr para si. Uma parte da mente dizia-lhe que o correcto era matá-lo, outra sentia pena dele. Não passava de um animal inocente que, como todos eles, só deveria querer um local seguro para viver.

Porém, antes sequer de o animal o conseguir alcançar, uma vassourada caiu sobre ele, atordoando-o. Seguiu-se-lhe o atiçador, que lhe arrancou outro guincho, uma e outra vez. Por instantes, Ayalal desviou o olhar fechou os olhos, contendo um esgar. Nada merecia uma morte assim.

Quando o animal jazia sem vida, sobre a pedra fria, aproximaram-se todos, espreitando-o.

– E agora? – quis saber um dos órfãos que, até ao momento, fizera por se manter afastado.

– Tem ar de estar cheio de doenças – notou Ay, baixinho. – Pode ter sido ele que fez toda a gente ficar doente. É melhor… queimá-lo?

Para sua surpresa, ninguém discutiu a sugestão. O rapaz que segurava no atiçador (agora com um certo orgulho pelo feito), ao fim de três tentativas, ergueu o rato e equilibrou-o na ponta, até chegar à lareira, para dentro da qual o atirou. Ficaram a vê-lo arder, como um estranho e macabro espetáculo de fogo.

***

Mosteiro das Sete Formas, 20 de Neth de 4592 AR (parte I)


O clérigo Itori regressou e voltou a partir, com um sincero e trémulo pedido de perdão. O seu feitiço divino, que deveria curar Pather, falhara. Depois disso, ainda desencantara um pergaminho do interior da mala a tiracolo que trouxera, e lera o feitiço nele embutido. As palavras emitiram um brilho amarelado, e consumiram-se pela magia, desaparecendo. No entanto, o resultado não fora diferente da primeira tentativa.

Após a saída do servo da deusa Sarenrae, a Directora ficara parada à porta do quarto, observando os acamados, a testa formando uma série de rugas firmes. Poucas eram as crianças cujo estado estava razoável: conseguiam alimentar-se, apesar de enfraquecidas, e erguiam-se sozinhas, se se esforçassem. Porém as restantes decaíam depressa. Cerrou um punho com força.

– Ayalal – chamou.

De onde estava, junto de Pather, o rapaz fingiu que não estivera a olhá-la discretamente. Hendran retirara-se há não muito tempo para recuperar das horas que passara em claro a cuidar do órfão.

– Sim, senhora Drane? – perguntou, deixando a tina de água em paz por um momento. Os dedos estavam dormentes da frieza em que mergulhavam. Apertou-os sobre as coxas, aguardando.

A directora levou uma mão ao queixo, hesitante e pensativa, depois abanou a cabeça numa negativa. Os ombros descaídos e as costas levemente vergadas denunciavam como a epidemia roubava forças à mulher de meia-idade, sem necessitar de a contaminar.

Afastou-se do quarto, sem nada mais dizer. Pouco depois, lá em baixo, Ay escutou uma das portas principais bater.

O tempo passou devagar. Ele foi cuidando de todos como podia, no entanto, ao dar mais atenção a Pather, acabava por inevitavelmente descurar outros. Só teve completa noção disso quando, a algumas enxergas de distância, ouviu um ofegar forte, seguido de movimentos rápidos. Assustado, ergueu-se de um salto, enquanto o olhar pulava de pessoa em pessoa, até se aperceber quem era. Correu para lá e, sem ter a certeza do que fazer, tentou agarrar o corpo da jovem que estremecia violentamente com convulsões. Falhou à primeira tentativa, mas à segunda prendeu-lhe os braços, mantendo-a de costas junto ao chão. Não conseguia fazer nada quanto às pernas que chutavam o ar e se contorciam, nem ao pescoço que por alguns momentos quase parecia deslocado.

– Hendran! – gritou Ay, aflito. – Hendran!

Não obteve resposta. Apesar da porta aberta, a outra rapariga estava a alguma distância, a recuperar da exaustão. Era pouco provável que o escutasse.

Por entre os espasmos, o corpo foi incapaz de controlar o interior, e foi possível primeiro ouvir e depois sentir o odor forte e repulsivo de dejectos e sangue. Ayalal conteve a respiração por uns segundos, obrigando-se a ficar ali, mentalizando-se de qual era a sua tarefa. Ao fim de não muito tempo, os espasmos começaram a diminuir. O rapaz não a largou. Deixou passar largos minutos, olhando o rosto avermelhado e suado da jovem, até os músculos pararem por completo. A medo, soltou-a, e, ao mesmo tempo, observou-a com muita atenção. Lembrava-se bem do que acontecera à bebé após a convulsão – acabara morta. Apesar do movimento ser fraco, o peito dela ainda se movia com a respiração.

Passando ambas as mãos pelo rosto lívido, Ay pensou no que fazer. A directora não estava, Hendran precisava de descansar, e pedir ajuda às outras crianças estava fora de questão. Não só correriam um risco maior de ficarem contaminadas, como duvidava que colaborassem sequer consigo. Mordeu o lábio inferior, controlando uma súbita vontade de chorar, e impedindo um soluço de se soltar.

O toque leve de uma mão nas suas costas fê-lo estremecer. Baixou as mãos e olhou para o lado, arregalando os olhos, meio assustado. Lysa fizera o esforço de se levantar e ir ter com ele, apesar de não conseguir sequer disfarçar os tremores do corpo.

– Eu ajudo-te – murmurou, muito baixo. As pálpebras fecharam-se por um instante. – Ainda consigo.

– Vai deitar-te! – Ficou quase em pânico por vê-la ali. – Não podes fazer esforços, ficas pior. Eu trato de tudo. Eu consigo.

Mais importante que ele próprio interiorizar isso, era fazer Lysa acreditar. A mão nas costas de Ayalal fez mais força, já não estando propriamente a dar-lhe apoio, mas mais a apoiar-se para não tombar.

– Ay, não quero que faças tudo sozi… – começou a dizer, no entanto interrompeu-se para engolir em seco, levando uma mão à zona do estômago. Inspirou devagar, provavelmente tentando controlar as náuseas.

– Cuidas sempre de mim. Desta vez sou eu – disse Ay, dando um tom decidido às palavras.

Ela ia argumentar, mas levou a mão livre à boca. Apesar de contrariada, o rapaz conseguiu levá-la para a cama, devagar. A seguir foi buscar água e toalhas limpas e, embora o embaraço por tal tarefa não fosse pequeno, tratou da outra rapariga o melhor possível, despindo-a e limpando-a. O pior, ainda assim, era o fedor a sangue que o desafiava. No entanto, resistiu.

Lysa observara-o da sua enxerga. Quando Ayalal terminou, lançou-lhe um sorriso breve de encorajamento, ao qual ele tentou retribuir, mas não conseguiu. A criança preparava-se para se sentar a um canto e descansar por meia dúzia de minutos, quando ouviu um guincho, abafado pela distância, vindo do andar inferior.

***

Mosteiro das Sete Formas, 19 de Neth de 4592 AR (parte III)


O clérigo prometera voltar logo pela manhã do dia seguinte, para tentar um novo feitiço. Ay e Hendran, a única jovem que, por milagre, ainda não havia adoecido, continuaram a cuidar dos doentes, enquanto a directora tirara algumas horas para tratar da vida que se perdera. O sossego que tiveram foi pouco.

Após ter entrado no quarto, o rapaz forçou-se a permanecer e suportar o odor a sangue que lhe remexia com os sentidos. O choque inicial passara, no entanto a perturbadora sensação de que tinha diante de si um banquete onde não poderia tocar horrorizava-o. Repetiu mentalmente que nada era mais importante que ajudar no que pudesse, por quem estava doente… pela pessoa que mais o amara durante aqueles anos.

Depois de ter tentado alimentar toda a gente, e de se obrigar a comer também um pouco do jantar, Ayalal deitou-se no chão, ao lado da enxerga de Lysa. A amiga estava acordada, observando-o com uma aparente dificuldade em manter os olhos abertos. Forçou um sorriso na direcção de Ay e deixou uma mão escorregar pelo chão na direcção dele, vacilante. Ele pegou-lhe com ambas as suas, mais pequenas, amparando-lhe a tremura. Uma humidade fria e doentia apoderara-se dela. Encostou-a ao seu rosto e aos lábios, tentando passar-lhe um pouco do seu calor.

– Desculpa, pequenino – murmurou, tão baixo que seria difícil alguém ouvir, para além dele. – Estou a dar-te tanto trabalho…

– Não penses nisso. – Manteve a mão dela encostada a uma bochecha. – Queria fazer mais, mas não consigo, Lysa.

– Tonto… já fazes demasiado. És só uma cri… – O sorriso esmoreceu por um momento, sendo substituído por um esgar de dor e a mão retraiu-se entre as dele. Ela reteve a respiração e fechou os olhos com força.

Ayalal semi ergueu-se do soalho, preocupado, apoiando-se num cotovelo.

– Lysa, posso…

– Não – arquejou – Já passou… já passou… não é nada de mais…

Mas era, e ele não sabia como ajudar. Podia rezar a todos os deuses, mas se algum quisesse realmente socorrê-los, já o teria feito. Estavam por sua conta. Quando a expressão da amiga descontraiu um pouco, Ayalal voltou a pousar o corpo no chão. Porém, no peito o coração ainda batia descompassado, temendo por ela.

As duas velas que iluminavam parcamente o quarto apagaram-se. Ay continuou a observar Lysa, apesar de agora ela ser incapaz de o ver.

– Não queria que tivesses de passar por isto – murmurou a jovem, por entre os gemidos baixos que, por si só, se tinham transformado numa espécie de atmosfera. – És só uma criança, e tão pequena.

Com cuidado, Ay largou a mão que segurava e empurrou-a de volta para a enxerga, tapando-a também com o cobertor. A seguir acariciou-lhe o rosto, tocando a cicatriz que a marcava. Lysa fechara os olhos e a respiração tornara-se mais suave.

– Eu também não queria que passasses por isto – respondeu. Não obteve resposta. Lysa cedera ao cansaço e acabara por adormecer, ainda que desassossegada.



De madrugada, Ay deu um salto do canto onde dormia, ao escutar um guincho de pânico. Olhou em volta, tal como alguns dos que haviam também acordado sarapantados, sem perceber o que se passava. Acabou então por detectar um trémulo braço erguido – Pather apontava para o tecto, horrorizado, ao mesmo tempo que se tentava sentar. As dores, no entanto, não lho permitiam, obrigando-o somente a contorcer-se e a arrastar-se, tentando fugir.

Ayalal ergueu o olhar para o tecto, descobrindo que estava vazio, como sempre estivera. E mesmo que não estivesse, por entre a escuridão, outra pessoa seria incapaz de ver fosse o que fosse.

– Ajudem-me! – O grito de Pather encheu o quarto. – Ela vai devorar-me, sal…salvem-me!

Passos rápidos percorreram o soalho e a porta abriu-se, deixando entrar uma nesga de luz fraca. Um vulto saiu, regressando pouco depois com uma vela acesa. Os que estavam mais perto puderam então testemunhar o puro terror com que o rapaz fixava o tecto, os olhos tão abertos que ameaçavam saltar das órbitas.

Ay levantou-se e saltou por cima de Lysa para chegar ao órfão. Tocou-lhe na fronte, somente para confirmar a forma como a febre lhe havia tomado a mente e distorcido a realidade.

– Hendran, água fria! – pediu Ay, agarrando-o para impedir que fugisse da enxerga. Pather esbracejou, atingindo-o ainda com uma cotovelada no queixo, porém a sua força estava tão deteriorada que pouco lhe doeu. – Nós estamos aqui para e ajudar, não vamos deixar que a coisa te faça mal.

A outra jovem havia já ido buscar a tina com água e pousava-a do outro lado do rapaz. Ensopou o trapo e passou-lho no rosto, enquanto Ayalal o prendia e forçava a deitar-se. Não era fácil, a inquietação dos delírios tornavam-no como cego e surdo a tudo o que não fosse a criatura imaginária que o atacava. Os minutos passaram-se, longos. Alguns dos doentes continuaram a observá-los, enquanto outros voltavam-lhes as costas e encolhiam-se sobre a roupa da cama. Pather acabou por se acalmar, em parte por exaustão, em parte pelo pano frio que se esforçava por arrefecê-lo.

Por fim, Ay largou-o, sentando-se no chão e enchendo os pulmões de ar. Suava por todo o lado, de nervosismo e cansaço. Levou ambas as mãos as rosto, deixando-as esconderem-lhe os olhos e o esgar de frustração.

– Vai dormir, pequeno.

Ayalal entreabriu os dedos, e espreitou Hendran. Tinha, talvez, mais um ano do que Lysa, mas o cabelo em desalinho e as olheiras profundas envelheciam-na muito além disso. Uma parte de si queria insistir e mantê-lo acordado, a outra só ameaçava cair para o lado para dormir e não mais acordar. Após uma hesitação, acabou por assentir e arrastou-se até ao seu cobertor. Não deu conta de ter adormecido.

***

Mosteiro das Sete Formas, 19 de Neth de 4592 AR (parte II)


Ayalal seguiu o passo de corrida de ambos, contendo-se para não os ultrapassar. No entanto, ao alcançarem o quarto, o rapaz estacou de súbito, ainda com um pé erguido, sem entrar. Pairava no ar um cheiro diferente.

– Pela Deusa – murmurou o clérigo, erguendo um braço por instinto e cobrindo a boca e o nariz com parte da manga.

– Não é só a diarreia. – A directora avançou sem hesitar por entre as enxergas, parecendo indiferente ao odor pestilento.

Pois não, não era só isso. Ay deu um passo atrás. Era um cheiro férreo, que o chamava, que lhe dava uma fome impossível de saciar.

– As fezes da bebé estão cheias de sangue vivo, demasiado, clérigo Itori. – Drane ajoelhou-se junto à bebé que nem para chorar tinha forças. O corpo pequeno tremelicava de fraqueza, numa ameaça implícita. 

As rugas do clérigo vincaram-se mais ao deparar-se com o estado da criança. Baixou-se ao lado da enxerga e arregaçou as mangas da túnica até aos cotovelos.

– O caso dela tornou-se extremo – murmurou. – Vou pedir à Deusa que me empreste os seus poderes curativos.

Da porta, com uma mão sobre a boca e o nariz, Ayalal estreitou o olhar na direcção do reverendo, atento ao que ele se preparava para fazer. Queria aproximar-se, porém temia que aquele terrível cheiro o aliciasse mais. A ponta da língua deslizou sobre os incisivos afiados. E se não se conseguisse controlar e atacasse alguém?

O clérigo iniciou o recitar de uma litania baixa, enquanto a mão esquerda se erguia de palma virada para cima. Um minúsculo ponto de luz branca surgiu do nada sobre ela, crescendo até se transformar numa esfera brilhante, como se a Deusa Sarenrae depositasse, de facto, um pouco do seu poder na mão do fiel. Ele voltou a baixar a mão e rodou a palma para baixo, pousando-a no peito da bebé. O corpo absorveu a luz.

Aguardaram, em silêncio. Aos poucos, a menina parou de tremer, todavia, as sobrancelhas do clérigo uniram-se ao meio da fronte, de tão franzidas. Algo não correra como ele previra.

De súbito, uma forte convulsão abalou o pequeno corpo, roubando-lhe um soluço. De imediato, a directora tirou a bebé de sob a mão do servo da Deusa, e agarrou-a contra si, tentando controlar-lhe os espasmos. Ao fim de alguns segundos, eles diminuíram e cessaram por si mesmos. Drane continuou com a criança abraçada ao peito, de lábios brancos de tão comprimidos.

– Directora – começou o homem, hesitando nas palavras. – Eu não… o feitiço… não consegui que a curasse.

Não obteve resposta. A mulher baixou o olhar para a criança, desencostando-a um pouco. Tocou-lhe no rosto com uma das mãos, depois no pescoço, e engoliu em seco. Fechou os olhos por um momento e Ay quase pensou que ela fosse desmaiar.

– Penso que agora já não podemos fazer mais nada, senhor – murmurou Drane, as pálpebras voltando a abrir-se e revelando um brilho húmido no olhar. – Mais nada.

Por um momento, Ayalal esqueceu-se do cheiro, da fome e do medo, enquanto fitava o pequeno corpo ainda nos braços da directora. Avançou, devagar, não conseguindo acreditar no que escutara. Parou ao lado do clérigo. O rosto da bebé descontraíra-se num repouso que já há dias não conseguia alcançar. Um repouso eterno.

O lábio inferior do rapaz começou a tremer e um aperto sufocante tomou-lhe a garganta. Ao contrário de Drane e do clérigo, não conseguiu conter as lágrimas pela vida inocente que acabara de se esvair.

***

Mosteiro das Sete Formas, 19 de Neth de 4592 AR (parte I)


Nenhum dos doentes melhorou, pelo contrário: em alguns os sintomas agravaram-se, e destes surgiram outros que, sem piedade, atacaram os enfermos. Para além disso, novos casos despontaram entre os órfãos, tornando a divisão impossível de os alojar a todos. Por essa razão, Ay ajudou a transferi-los, ora ao colo, ora às costas, para o aposento maior: o quarto das crianças. Das 29 pessoas que viviam no orfanato, 21 havia adoecido. A ajudá-lo estavam somente a directora e a responsável mais nova. Às restantes crianças fora proibida a aproximação.

Até esse dia, nunca se apercebera realmente da diferença de forças que existia entre ele e os restantes órfãos, e até mesmo em comparação com próprias mulheres que cuidavam deles. Uma criança normal da sua idade não conseguiria levantar os doentes, muito menos transportá-los ao longo de um corredor.

– Ayalal. – A directora dirigiu-se-lhe, enquanto o rapaz aconchegava melhor Lysa, depois de a ter deitado. A doença galopara pela saúde dela: a febre recusava-se a baixar e, por vezes, nem os líquidos se seguravam no estômago. Ainda assim não era a pior.

– Sim, senhora Drane? – O tom dele era baixo, cansado. Porém, o que mais lhe pesava era a preocupação. Esfregou os braços doridos. Não tinha muita vontade de carregar mais coisas, já tivera a sua dose diária.

– Vai até ao templo e pede ao senhor clérigo para regressar contigo. Diz-lhe que nenhum deles teve melhoras… enfim. Diz-lhe o que se passa – pediu.

Ay hesitou, voltando a olhar o rosto lívido de Lysa, marcado pelas dores que o contorciam.

– Directora, porque é que me deixa tratar dos doentes? Não tem medo que fiquem piores por minha causa?

Drane ergueu uma sobrancelha.

– Isso são só disparates, rapaz. Estás aqui porque esta é uma tarefa com que poucas crianças conseguem lidar. És a excepção, e preocupas-te. Não me interessa o que és, ou o que os outros acham. Queres ajudar, é o que importa. Agora vai. – As palavras não perderam o tom severo e, de alguma forma, isso enfatizava a sinceridade.

O rapaz esboçou o sorriso pouco confiante, antes de sair do quarto, para iniciar uma corrida rápida pelo corredor. Desceu as escadas de dois em dois degraus e precipitou-se para a porta da rua. Pelo caminho, passou pela entrada em arco da cozinha, para além da qual se reuniam as restantes crianças.

– Ele está a fugir!

Ayalal olhou para trás, enquanto puxava o trinco pesado da porta. Três cabeças espreitavam da cozinha, com um olhar simultaneamente hostil e curioso. Não valia a pena responder-lhes, nunca ouviam. Ignorou-os e puxou a porta para si, abrindo-a o suficiente para sair.

– Vai-te embora, coisa!

Olhou por cima do ombro, a tempo de se baixar por instinto e levar as mãos à cabeça. Um projéctil voou por cima dele, indo aterrar lá fora com o barulho de metal a bater em pedra. Não esperou por mais nenhum incentivo e precipitou-se para a rua, meio aos tropeções, fechando a porta atrás de si com força. Encostou-se à madeira velha e inspirou fundo, as pálpebras fechando-se por um segundo.

– Eles vão odiar-me, faça o que fizer – murmurou, quando voltou a abrir os olhos. Um prato de estanho seu conhecido estava caído a dois metros dele. Foi apanhá-lo, com um suspiro, e rodou-o nas mãos. O impacto criara uma amolgadela na borda. – Tu também não fizeste nada de mal, pois não?

Abanou a cabeça e obrigou-se a afastar a frustração. Tinha uma missão mais importante. Com o prato debaixo do braço, correu até ao pequeno templo de Sarenrae, a uma dúzia de minutos de distância, e quase arrastou o clérigo atrás de si, de regresso ao orfanato.

Esperaram sob as luzes que mal mimetizavam o dia, após Ayalal bater à porta uma primeira vez. Voltou a bater, com mais força, sem obter resposta. Rangeu os dentes, já com vontade de esmurrar a madeira.

– Trago o senhor clérigo! – disse, erguendo a voz, assim como o rosto, para o andar superior. A directora e a outra mulher estavam ocupadas com os doentes, provavelmente não ouviriam se simplesmente batesse. Agora quem estava na cozinha com toda a certeza que ouvira. – Alguém abra a porta!

Dentro da sua túnica sacerdotal, o clérigo, um humano cuja meia-idade caminhava já para a velhice, ostentava uma preocupação resignada e paciente. Pousou uma mão no ombro da criança que começava a sussurrar impropérios, de lábios semicerrados. Ay mordeu a língua, calando-se. Se tivesse outra forma de abrir a porta… o clérigo não saberia nenhum feitiço para isso? Eles supostamente também sabiam magia! Yudarh conseguia abrir portas sem lhes tocar…

Por fim escutaram o trinco a ser corrido e a porta abriu-se. Os olhos de Ay arredondaram-se ao encarar a directora. O seu rosto estava muito mais rígido do que quando partira em busca de auxílio sagrado. Acontecera algo de grave.

“Lysa?” pensou, um arrepio de pânico percorrendo-lhe o corpo.

***

Mosteiro das Sete Formas, 16 de Neth de 4592 AR (parte I)


Pather não foi o único a adoecer. Três dias depois, outras cinco crianças, assim como uma das jovens responsáveis, padeciam dos mesmos sintomas: febre alta, dores abdominais intensas e náuseas. Os sete foram isolados no quarto mais pequeno por ordem da directora, que temia que a doença se propagasse aos restantes habitantes do orfanato. A poucos foi dada autorização para entrar, no entanto Ayalal conseguiu estar entre esses poucos, devido a uma estranha resistência que a sua saúde, desde pequeno, demonstrara.

No entanto, essa mesma presença fora contestada por algumas das crianças que o acusavam de ter causado a doença, de alguma forma. Nenhum argumento conseguiu demovê-los de tal ideia, e a única coisa capaz de os silenciar fora a autoridade da Directora Drane que os ameaçou com um castigo severo. 

Ay manteve-se perto de Lysa, ajudando-a, ainda que tenso pela agora silenciosa hostilidade. Negara as acusações, mas nem ele tinha a certeza se a culpa não seria mesmo sua, se não haveria uma forma estranha de alguém como ele passar doenças. No final de contas, a sua própria palidez fazia muitas pessoas duvidarem da sua saúde.

De mangas arregaçadas até aos cotovelos, voltou a mergulhar um trapo molhado na água fria para o espremer e voltar a passá-lo a Lysa. A amiga pousou-o com cuidado na fronte de uma bebé. O cansaço pesava-lhe no rosto e as mãos tremiam quando soltou o pano.

– Devias descansar – murmurou Ay, preocupado. – Não dormiste nada, pois não?

– Estou bem – garantiu Lysa, sorrindo-lhe. Porém, era um trejeito fraco, e as próprias palavras vacilavam sem que o conseguisse controlar. – Temos de lhes dar o remédio que o senhor clérigo preparou. Uma colher a cada.

– Eu faço isso – disse o rapaz, num tom firme.

Limpou as mãos molhadas às calças e dirigiu-se à mesinha onde o clérigo deixara um frasco velho com rolha de cortiça. Pegou nas colheres que serviriam para dar o caldo aos doentes e foi ter com cada um. Ajoelhou-se ao lado das enxergas e ajudou-os a sentarem-se. Quando desarrolhou o frasco, um cheiro a ervas maceradas subiu pelo gargalo. Não era completamente agradável, o que o fez suspeitar de que o sabor seria dez vezes pior. Encheu a colher com cuidado e levou-a à boca do primeiro doente. Ele fez uma careta repugnada, porém engoliu. Nenhuma das crianças do orfanato se daria ao luxo de rejeitar o remédio. Tinham consciência que até a mais simples e vulgar maleita as poderia matar.

O clérigo da deusa Sarenrae dissera que, em princípio, aquele remédio ajudaria a baixar a febre e a serenar as dores, o suficiente para os doentes poderem beber água e comer um pouco. Sem isso, não lhes restariam energias. Todavia, existira incerteza nas suas palavras, o que não encorajou nenhum deles.

Por último, Ay pegou na bebé e, com mais dificuldade, tentou que ela engolisse o remédio. A pequena fez uma careta e cuspiu metade do conteúdo, sujando-se no queixo e manchando a roupa. Ay suspirou e, depois de uma segunda tentativa em que aconteceu o mesmo, voltou a deitá-la com cuidado.

Junto deles, Lysa acabara por se sentar ao lado do balde da água, de olhos fechados e cabeça pousada sobre os joelhos puxados contra o peito. Dois poços escuros sombreavam-lhe os olhos. Estava exausta.

Ay voltou a guardar o frasco e regressou para junto da amiga.

– Lysa – chamou, tocando-lhe na bochecha marcada pela cicatriz. Ela não reagiu. Para além disso, o calor que sentiu vindo da pele dela alertou-o. – Lysa…?

Continuou a não obter qualquer reacção. A respiração dela era pesada, quase custosa. O cansaço abrira um caminho célere para a febre que minava o orfanato.

***

Mosteiro das Sete Formas, 13 de Neth de 4592 AR (parte I)


Rodou a cabeça de um lado para o outro, tentando ver alguma coisa no horizonte, um fragmento de luz, um movimento. Porém, era tudo escuridão. Não existia tecto, o chão sentia-o mas era como se os pés estivessem pousados em nada. Em redor, havia somente um vazio negro e um silêncio que ecoava dentro da mente. Onde estavam as pessoas? As casas? Onde estava ele?

– Alguém? – A voz ressoou sem que precisasse de mexer os lábios, pairando por segundos até ser engolida e desaparecer. Não obteve resposta.

Inspirou e expirou. A seguir repetiu o processo e apercebeu-se que o esforço necessário aumentara, da mesma forma que um aperto no peito, como se as costelas se comprimissem. Por fim, os músculos recusaram-se a mexer, deixando de conseguir respirar. Tentou gritar. Porém, ao contrário do que acontecera anteriormente, em que falara sem mexer os lábios, desta vez a boca moveu-se, mas o grito foi mudo.

Em pânico, ergueu as mãos para as levar ao peito, no entanto… não existiam mãos unidas aos pulsos. A escuridão consumira-as e começava a rastejar antebraços acima, fundindo-os com a negritude, tomando-os para si.

Os seus gritos mudos tornaram o silêncio ainda mais pesado. O corpo contorceu-se, tentando afastar a escuridão, porém ela simplesmente continuou a tomar terreno, indiferente aos esforços. Trepou-lhe pelo corpo, roubando-lhe os membros, o peito, a boca. Por fim, perdeu a visão, para pertencer completamente às trevas.

*

Escancarou os olhos e sentou-se num movimento brusco, ofegante. O corpo suava como se tivesse corrido pela cidade, sem cessar. Apalpou os braços, o peito, o pescoço, o rosto, certificando-se de que estava tudo ali. O peso do cobertor sobre as pernas era estranhamente reconfortante, em contraste com o vazio. Inspirou fundo várias vezes. A garganta estava seca e um pouco dorida, como se tivesse mesmo gritado. “Foi só um sonho”, tentou mentalizar-se, “só um sonho”. Era o tipo de pesadelo recorrente que o atacava nos últimos dias, após lhe ter sido revelado parte da sua ascendência. Ficara com demasiado medo de si mesmo.

Quando, por fim, o ritmo cardíaco serenou, Ayalal olhou para as restantes crianças adormecidas. Em princípio não fizera barulho, tendo em conta que nenhuma dava mostras de ter acordado.

A quatro enxergas de distância, um dos órfãos remexeu-se. Ay retesou-se por um instante. A criança voltou a rolar sobre si e pareceu encolher-se, enquanto deixava escapar um queixume. Talvez fosse só mais alguém com pesadelos, pensou.

No entanto, o gemido de fundo prolongou-se. Uma pessoa que dormisse profundamente não daria conta, porém era impossível que alguém já acordado conseguisse ignorar. Ayalal levantou-se e, de pés descalços, aproximou-se da criança em causa, fazendo uso da sua visão nocturna para não tropeçar em ninguém.

Acocorou-se junto de Pather, um rapaz magro, dois anos mais novo que ele. Apesar do rosto contorcido por um qualquer mal-estar, continuava a dormir. Hesitou, antes de estender uma mão, pousando-a sobre a cabeça e dando-lhe uma festa, como Lysa fazia consigo, para o acalmar. Para seu desgosto, não pareceu fazer efeito. Tocou com as costas da mão fria no rosto do rapaz e, por um momento, assustou-se, recolhendo-a contra o corpo. Talvez fosse só impressão. Com mais cautela, voltou a tocar-lhe. Em comparação com a sua frieza, o rosto do rapaz estava quente, muito mais do que o normal.

– Pather – chamou, baixinho. – Pather, acorda.

Com cuidado, abanou-o pelo ombro. O órfão soltou um gemido mais alto e entreabriu os olhos, sem conseguir enxergar por entre a escuridão do quarto.

– Como te sentes? – murmurou.

– Não sei… dói… – gemeu, encolhendo-se mais, sob o cobertor. Um soluço fino soltou-se e, no segundo a seguir, um choro baixo encheu o quarto.

Foi o suficiente para quebrar o sossego da noite. Algumas das outras crianças começaram a abrir os olhos e a erguer-se sobre os cotovelos para tentarem perceber o que se passava.

Ay ergueu-se de junto dele e correu para a porta, saindo para avisar as responsáveis. Não podia fazer muito mais para ajudar. Acabara de passar a soleira para a semiobscuridade do corredor quando, atrás de si, ouviu alguém falar.

– O Pather está a chorar, ele fez-lhe alguma coisa de mal…

O coração pareceu falhar um batimento. Apesar de ser difícil ficar mais lívido do que já era, Ayalal sentiu o sangue a fugir-lhe do rosto.

***