Mosteiro das Sete Formas, 19 de Neth de 4592 AR (continuação)


Ayalal seguiu o passo de corrida de ambos, contendo-se para não os ultrapassar. No entanto, ao alcançarem o quarto, o rapaz estacou de súbito, ainda com um pé erguido, sem entrar. Pairava no ar um cheiro diferente.

– Pela Deusa – murmurou o clérigo, erguendo um braço por instinto e cobrindo a boca e o nariz com parte da manga.

– Não é só a diarreia. – A directora avançou sem hesitar por entre as enxergas, parecendo indiferente ao odor pestilento.

Pois não, não era só isso. Ay deu um passo atrás. Era um cheiro férreo, que o chamava, que lhe dava uma fome impossível de saciar.

– As fezes da bebé estão cheias de sangue vivo, demasiado, clérigo Itori. – Drane ajoelhou-se junto à bebé que nem para chorar tinha forças. O corpo pequeno tremelicava de fraqueza, numa ameaça implícita. 

As rugas do clérigo vincaram-se mais ao deparar-se com o estado da criança. Baixou-se ao lado da enxerga e arregaçou as mangas da túnica até aos cotovelos.

– O caso dela tornou-se extremo – murmurou. – Vou pedir à Deusa que me empreste os seus poderes curativos.

Da porta, com uma mão sobre a boca e o nariz, Ayalal estreitou o olhar na direcção do reverendo, atento ao que ele se preparava para fazer. Queria aproximar-se, porém temia que aquele terrível cheiro o aliciasse mais. A ponta da língua deslizou sobre os incisivos afiados. E se não se conseguisse controlar e atacasse alguém?

O clérigo iniciou o recitar de uma litania baixa, enquanto a mão esquerda se erguia de palma virada para cima. Um minúsculo ponto de luz branca surgiu do nada sobre ela, crescendo até se transformar numa esfera brilhante, como se a Deusa Sarenrae depositasse, de facto, um pouco do seu poder na mão do fiel. Ele voltou a baixar a mão e rodou a palma para baixo, pousando-a no peito da bebé. O corpo absorveu a luz.

Aguardaram, em silêncio. Aos poucos, a menina parou de tremer, todavia, as sobrancelhas do clérigo uniram-se ao meio da fronte, de tão franzidas. Algo não correra como ele previra.

De súbito, uma forte convulsão abalou o pequeno corpo, roubando-lhe um soluço. De imediato, a directora tirou a bebé de sob a mão do servo da Deusa, e agarrou-a contra si, tentando controlar-lhe os espasmos. Ao fim de alguns segundos, eles diminuíram e cessaram por si mesmos. Drane continuou com a criança abraçada ao peito, de lábios brancos de tão comprimidos.

– Directora – começou o homem, hesitando nas palavras. – Eu não… o feitiço… não consegui que a curasse.

Não obteve resposta. A mulher baixou o olhar para a criança, desencostando-a um pouco. Tocou-lhe no rosto com uma das mãos, depois no pescoço, e engoliu em seco. Fechou os olhos por um momento e Ay quase pensou que ela fosse desmaiar.

– Penso que agora já não podemos fazer mais nada, senhor – murmurou Drane, as pálpebras voltando a abrir-se e revelando um brilho húmido no olhar. – Mais nada.

Por um momento, Ayalal esqueceu-se do cheiro, da fome e do medo, enquanto fitava o pequeno corpo ainda nos braços da directora. Avançou, devagar, não conseguindo acreditar no que escutara. Parou ao lado do clérigo. O rosto da bebé descontraíra-se num repouso que já há dias não conseguia alcançar. Um repouso eterno.

O lábio inferior do rapaz começou a tremer e um aperto sufocante tomou-lhe a garganta. Ao contrário de Drane e do clérigo, não conseguiu conter as lágrimas pela vida inocente que acabara de se esvair.

***

Mosteiro das Sete Formas, 19 de Neth de 4592 AR


Nenhum dos doentes melhorou, pelo contrário: em alguns os sintomas agravaram-se, e destes surgiram outros que, sem piedade, atacaram os enfermos. Para além disso, novos casos despontaram entre os órfãos, tornando a divisão impossível de os alojar a todos. Por essa razão, Ay ajudou a transferi-los, ora ao colo, ora às costas, para o aposento maior: o quarto das crianças. Das 29 pessoas que viviam no orfanato, 21 havia adoecido. A ajudá-lo estavam somente a directora e a responsável mais nova. Às restantes crianças fora proibida a aproximação.

Até esse dia, nunca se apercebera realmente da diferença de forças que existia entre ele e os restantes órfãos, e até mesmo em comparação com próprias mulheres que cuidavam deles. Uma criança normal da sua idade não conseguiria levantar os doentes, muito menos transportá-los ao longo de um corredor.

– Ayalal. – A directora dirigiu-se-lhe, enquanto o rapaz aconchegava melhor Lysa, depois de a ter deitado. A doença galopara pela saúde dela: a febre recusava-se a baixar e, por vezes, nem os líquidos se seguravam no estômago. Ainda assim não era a pior.

– Sim, senhora Drane? – O tom dele era baixo, cansado. Porém, o que mais lhe pesava era a preocupação. Esfregou os braços doridos. Não tinha muita vontade de carregar mais coisas, já tivera a sua dose diária.

– Vai até ao templo e pede ao senhor clérigo para regressar contigo. Diz-lhe que nenhum deles teve melhoras… enfim. Diz-lhe o que se passa – pediu.

Ay hesitou, voltando a olhar o rosto lívido de Lysa, marcado pelas dores que o contorciam.

– Directora, porque é que me deixa tratar dos doentes? Não tem medo que fiquem piores por minha causa?

Drane ergueu uma sobrancelha.

– Isso são só disparates, rapaz. Estás aqui porque esta é uma tarefa com que poucas crianças conseguem lidar. És a excepção, e preocupas-te. Não me interessa o que és, ou o que os outros acham. Queres ajudar, é o que importa. Agora vai. – As palavras não perderam o tom severo e, de alguma forma, isso enfatizava a sinceridade.

O rapaz esboçou o sorriso pouco confiante, antes de sair do quarto, para iniciar uma corrida rápida pelo corredor. Desceu as escadas de dois em dois degraus e precipitou-se para a porta da rua. Pelo caminho, passou pela entrada em arco da cozinha, para além da qual se reuniam as restantes crianças.

– Ele está a fugir!

Ayalal olhou para trás, enquanto puxava o trinco pesado da porta. Três cabeças espreitavam da cozinha, com um olhar simultaneamente hostil e curioso. Não valia a pena responder-lhes, nunca ouviam. Ignorou-os e puxou a porta para si, abrindo-a o suficiente para sair.

– Vai-te embora, coisa!

Olhou por cima do ombro, a tempo de se baixar por instinto e levar as mãos à cabeça. Um projéctil voou por cima dele, indo aterrar lá fora com o barulho de metal a bater em pedra. Não esperou por mais nenhum incentivo e precipitou-se para a rua, meio aos tropeções, fechando a porta atrás de si com força. Encostou-se à madeira velha e inspirou fundo, as pálpebras fechando-se por um segundo.

– Eles vão odiar-me, faça o que fizer – murmurou, quando voltou a abrir os olhos. Um prato de estanho seu conhecido estava caído a dois metros dele. Foi apanhá-lo, com um suspiro, e rodou-o nas mãos. O impacto criara uma amolgadela na borda. – Tu também não fizeste nada de mal, pois não?

Abanou a cabeça e obrigou-se a afastar a frustração. Tinha uma missão mais importante. Com o prato debaixo do braço, correu até ao pequeno templo de Sarenrae, a uma dúzia de minutos de distância, e quase arrastou o clérigo atrás de si, de regresso ao orfanato.

Esperaram sob as luzes que mal mimetizavam o dia, após Ayalal bater à porta uma primeira vez. Voltou a bater, com mais força, sem obter resposta. Rangeu os dentes, já com vontade de esmurrar a madeira.

– Trago o senhor clérigo! – disse, erguendo a voz, assim como o rosto, para o andar superior. A directora e a outra mulher estavam ocupadas com os doentes, provavelmente não ouviriam se simplesmente batesse. Agora quem estava na cozinha com toda a certeza que ouvira. – Alguém abra a porta!

Dentro da sua túnica sacerdotal, o clérigo, um humano cuja meia-idade caminhava já para a velhice, ostentava uma preocupação resignada e paciente. Pousou uma mão no ombro da criança que começava a sussurrar impropérios, de lábios semicerrados. Ay mordeu a língua, calando-se. Se tivesse outra forma de abrir a porta… o clérigo não saberia nenhum feitiço para isso? Eles supostamente também sabiam magia! Yudarh conseguia abrir portas sem lhes tocar…

Por fim escutaram o trinco a ser corrido e a porta abriu-se. Os olhos de Ay arredondaram-se ao encarar a directora. O seu rosto estava muito mais rígido do que quando partira em busca de auxílio sagrado. Acontecera algo de grave.

“Lysa?” pensou, um arrepio de pânico percorrendo-lhe o corpo.

***

Mosteiro das Sete Formas, 16 de Neth de 4592 AR


Pather não foi o único a adoecer. Três dias depois, outras cinco crianças, assim como uma das jovens responsáveis, padeciam dos mesmos sintomas: febre alta, dores abdominais intensas e náuseas. Os sete foram isolados no quarto mais pequeno por ordem da directora, que temia que a doença se propagasse aos restantes habitantes do orfanato. A poucos foi dada autorização para entrar, no entanto Ayalal conseguiu estar entre esses poucos, devido a uma estranha resistência que a sua saúde, desde pequeno, demonstrara.

No entanto, essa mesma presença fora contestada por algumas das crianças que o acusavam de ter causado a doença, de alguma forma. Nenhum argumento conseguiu demovê-los de tal ideia, e a única coisa capaz de os silenciar fora a autoridade da Directora Drane que os ameaçou com um castigo severo. 

Ay manteve-se perto de Lysa, ajudando-a, ainda que tenso pela agora silenciosa hostilidade. Negara as acusações, mas nem ele tinha a certeza se a culpa não seria mesmo sua, se não haveria uma forma estranha de alguém como ele passar doenças. No final de contas, a sua própria palidez fazia muitas pessoas duvidarem da sua saúde.

De mangas arregaçadas até aos cotovelos, voltou a mergulhar um trapo molhado na água fria para o espremer e voltar a passá-lo a Lysa. A amiga pousou-o com cuidado na fronte de uma bebé. O cansaço pesava-lhe no rosto e as mãos tremiam quando soltou o pano.

– Devias descansar – murmurou Ay, preocupado. – Não dormiste nada, pois não?

– Estou bem – garantiu Lysa, sorrindo-lhe. Porém, era um trejeito fraco, e as próprias palavras vacilavam sem que o conseguisse controlar. – Temos de lhes dar o remédio que o senhor clérigo preparou. Uma colher a cada.

– Eu faço isso – disse o rapaz, num tom firme.

Limpou as mãos molhadas às calças e dirigiu-se à mesinha onde o clérigo deixara um frasco velho com rolha de cortiça. Pegou nas colheres que serviriam para dar o caldo aos doentes e foi ter com cada um. Ajoelhou-se ao lado das enxergas e ajudou-os a sentarem-se. Quando desarrolhou o frasco, um cheiro a ervas maceradas subiu pelo gargalo. Não era completamente agradável, o que o fez suspeitar de que o sabor seria dez vezes pior. Encheu a colher com cuidado e levou-a à boca do primeiro doente. Ele fez uma careta repugnada, porém engoliu. Nenhuma das crianças do orfanato se daria ao luxo de rejeitar o remédio. Tinham consciência que até a mais simples e vulgar maleita as poderia matar.

O clérigo da deusa Sarenrae dissera que, em princípio, aquele remédio ajudaria a baixar a febre e a serenar as dores, o suficiente para os doentes poderem beber água e comer um pouco. Sem isso, não lhes restariam energias. Todavia, existira incerteza nas suas palavras, o que não encorajou nenhum deles.

Por último, Ay pegou na bebé e, com mais dificuldade, tentou que ela engolisse o remédio. A pequena fez uma careta e cuspiu metade do conteúdo, sujando-se no queixo e manchando a roupa. Ay suspirou e, depois de uma segunda tentativa em que aconteceu o mesmo, voltou a deitá-la com cuidado.

Junto deles, Lysa acabara por se sentar ao lado do balde da água, de olhos fechados e cabeça pousada sobre os joelhos puxados contra o peito. Dois poços escuros sombreavam-lhe os olhos. Estava exausta.

Ay voltou a guardar o frasco e regressou para junto da amiga.

– Lysa – chamou, tocando-lhe na bochecha marcada pela cicatriz. Ela não reagiu. Para além disso, o calor que sentiu vindo da pele dela alertou-o. – Lysa…?

Continuou a não obter qualquer reacção. A respiração dela era pesada, quase custosa. O cansaço abrira um caminho célere para a febre que minava o orfanato.

***

Mosteiro das Sete Formas, 13 de Neth de 4592 AR


Rodou a cabeça de um lado para o outro, tentando ver alguma coisa no horizonte, um fragmento de luz, um movimento. Porém, era tudo escuridão. Não existia tecto, o chão sentia-o mas era como se os pés estivessem pousados em nada. Em redor, havia somente um vazio negro e um silêncio que ecoava dentro da mente. Onde estavam as pessoas? As casas? Onde estava ele?

– Alguém? – A voz ressoou sem que precisasse de mexer os lábios, pairando por segundos até ser engolida e desaparecer. Não obteve resposta.

Inspirou e expirou. A seguir repetiu o processo e apercebeu-se que o esforço necessário aumentara, da mesma forma que um aperto no peito, como se as costelas se comprimissem. Por fim, os músculos recusaram-se a mexer, deixando de conseguir respirar. Tentou gritar. Porém, ao contrário do que acontecera anteriormente, em que falara sem mexer os lábios, desta vez a boca moveu-se, mas o grito foi mudo.

Em pânico, ergueu as mãos para as levar ao peito, no entanto… não existiam mãos unidas aos pulsos. A escuridão consumira-as e começava a rastejar antebraços acima, fundindo-os com a negritude, tomando-os para si.

Os seus gritos mudos tornaram o silêncio ainda mais pesado. O corpo contorceu-se, tentando afastar a escuridão, porém ela simplesmente continuou a tomar terreno, indiferente aos esforços. Trepou-lhe pelo corpo, roubando-lhe os membros, o peito, a boca. Por fim, perdeu a visão, para pertencer completamente às trevas.

*

Escancarou os olhos e sentou-se num movimento brusco, ofegante. O corpo suava como se tivesse corrido pela cidade, sem cessar. Apalpou os braços, o peito, o pescoço, o rosto, certificando-se de que estava tudo ali. O peso do cobertor sobre as pernas era estranhamente reconfortante, em contraste com o vazio. Inspirou fundo várias vezes. A garganta estava seca e um pouco dorida, como se tivesse mesmo gritado. “Foi só um sonho”, tentou mentalizar-se, “só um sonho”. Era o tipo de pesadelo recorrente que o atacava nos últimos dias, após lhe ter sido revelado parte da sua ascendência. Ficara com demasiado medo de si mesmo.

Quando, por fim, o ritmo cardíaco serenou, Ayalal olhou para as restantes crianças adormecidas. Em princípio não fizera barulho, tendo em conta que nenhuma dava mostras de ter acordado.

A quatro enxergas de distância, um dos órfãos remexeu-se. Ay retesou-se por um instante. A criança voltou a rolar sobre si e pareceu encolher-se, enquanto deixava escapar um queixume. Talvez fosse só mais alguém com pesadelos, pensou.

No entanto, o gemido de fundo prolongou-se. Uma pessoa que dormisse profundamente não daria conta, porém era impossível que alguém já acordado conseguisse ignorar. Ayalal levantou-se e, de pés descalços, aproximou-se da criança em causa, fazendo uso da sua visão nocturna para não tropeçar em ninguém.

Acocorou-se junto de Pather, um rapaz magro, dois anos mais novo que ele. Apesar do rosto contorcido por um qualquer mal-estar, continuava a dormir. Hesitou, antes de estender uma mão, pousando-a sobre a cabeça e dando-lhe uma festa, como Lysa fazia consigo, para o acalmar. Para seu desgosto, não pareceu fazer efeito. Tocou com as costas da mão fria no rosto do rapaz e, por um momento, assustou-se, recolhendo-a contra o corpo. Talvez fosse só impressão. Com mais cautela, voltou a tocar-lhe. Em comparação com a sua frieza, o rosto do rapaz estava quente, muito mais do que o normal.

– Pather – chamou, baixinho. – Pather, acorda.

Com cuidado, abanou-o pelo ombro. O órfão soltou um gemido mais alto e entreabriu os olhos, sem conseguir enxergar por entre a escuridão do quarto.

– Como te sentes? – murmurou.

– Não sei… dói… – gemeu, encolhendo-se mais, sob o cobertor. Um soluço fino soltou-se e, no segundo a seguir, um choro baixo encheu o quarto.

Foi o suficiente para quebrar o sossego da noite. Algumas das outras crianças começaram a abrir os olhos e a erguer-se sobre os cotovelos para tentarem perceber o que se passava.

Ay ergueu-se de junto dele e correu para a porta, saindo para avisar as responsáveis. Não podia fazer muito mais para ajudar. Acabara de passar a soleira para a semiobscuridade do corredor quando, atrás de si, ouviu alguém falar.

– O Pather está a chorar, ele fez-lhe alguma coisa de mal…

O coração pareceu falhar um batimento. Apesar de ser difícil ficar mais lívido do que já era, Ayalal sentiu o sangue a fugir-lhe do rosto.

***

Mosteiro das Sete Formas, 22 de Lamashan de 4592 AR (continuação)


Ay suspirou, apoiando o queixo sobre a mesa. Lançou um olhar conformado ao bolo, como se também ele fosse um vilão que ganhara a batalha.

– E o bolo não tem veneno – notou Yudarh, depois de o ter observado por um instante. – Podem comê-lo.

O rosto da criança contorceu-se numa careta quase repugnada. Preferia comer pão com um mês do que provar aquele “presente”.

Lysa deu um passo em frente e posicionou-se ao lado de Ayalal, pousando-lhe a mão no cabelo negro.

– Já tiraste as dúvidas todas?

O rapaz ergueu um pouco a cabeça, olhando-a. Na sua expressão havia mais do que uma questão pendente, e uma hesitação que conseguia somente enfatizá-la. Yudarh esperou, observando-o, até o pequeno ganhar coragem.

– O que é que eu sou? Porque é que vi aquele homem de forma diferente? – perguntou, baixinho. – Qual é a minha… proveniência?

Por um segundo, Lysa conteve o ar nos pulmões. A ênfase que Ay dera àquela última palavra fê-la recordar-se da mulher que o tentara levar de si. Ela usara-a numa insinuação propositada que ficara a pairar na consciência da criança. Lançou, com o olhar, um pedido de auxílio ao tiefling. O meio-demónio, por sua vez, não lhe dispensava qualquer atenção, dedicando-se a observar Ayalal. Após ponderar, levou ao rosto a mão que segurava o colar, apoiando nela o queixo.

– Tu és aquilo a que muitos chamam dhampir – disse, o tom ponderado permitindo que as palavras tomassem o seu rumo. – Um meio vampiro, provavelmente do lado paterno. Isso dá-te algumas capacidades e fragilidades. É por seres o que és que detectaste a aura de morto-vivo daquele homem, é também por isso que os teus olhos são tão sensíveis à luz do sol. Provavelmente a tua palidez também advém disso, assim como a afinidade com energia negativa, a capacidade de ver na escuridão e, talvez, algum gosto por sangue…

Ay não se mexeu. O corpo petrificara, a partir do momento em que Yudarh mencionara a palavra “vampiro”. Lysa, pelo contrário, abria e fechava a boca, sem conseguir articular nada, demasiado chocada com o despejar de informação para cima da criança. Cerrou os punhos diante da boca.

Yudarh continuou a ignorá-la, atento somente à reacção do rapaz.

– Sou um monstro. – O murmúrio escapou-se por entre os lábios de Ayalal, como constatação de algo que já suspeitava.

– Tanto como eu – acrescentou Yudarh, fazendo um gesto com a mão livre, como a enfatizar o sarcasmo. – És um monstro se quiseres sê-lo, ou se deixares que uma criatura assim se apodere do teu espírito. Fica por tua conta o que serás no futuro. Por agora és só um rapazito magricela. Não sentes vontade de beber sangue, pois não? Nem de fazeres algo mau.

Ay abanou a cabeça numa negativa lenta, enquanto levava uma mão aos lábios, estarrecido. Era então por isso que dois dos seus incisivos se alongavam anormalmente e tinham pontas mais afiadas, constatou: serviam para morder pessoas, para sugar sangue, talvez para matar…

– Mas…

– Não há “mas”. Sê aquilo que queres ser, não aquilo que a imaginação dos outros acham que és. Podes ter a certeza, isso vai magoar-te. Mas não há maior vitória que levares a tua avante e provares a todos o quão enganados estão a teu respeito. São as tuas crenças, as tuas vontades, a tua força – ditou Yudarh, apontando-lhe uma garra. – E não te esqueças que não estás sozinho. Há mais pessoas que acreditam nas tuas capacidades. Fá-lo por ti e por elas, Ayalal.

Com esforço, Lysa ultrapassou o momento de torpor. Levou os joelhos ao chão e, vacilante, ergueu a mão, tocando no rosto frio da criança.

– Tu não és um monstro, Ay. Nunca vais ser. És um menino bom. Senti isso mal te encontrei, tão silencioso, tão só… – murmurou, quase falando consigo mesma ao recordar-se. – Tão… importante para mim.

Duas lágrimas escaparam-se-lhe, escorrendo de cada lado do rosto. Ay desviou o olhar para ela e à sua expressão estarrecida juntou-se um sentimento profundo de culpa ao vê-la chorar.

Yudarh desviou o olhar e retirou a mão de sob o queixo, para observar o colar que ainda segurava. Deixou um dedo deslizar pelo símbolo da espada.

– A Lysa está a chorar porque te ama – murmurou. – Porque está feliz de te ter consigo. Não comeces a culpar-te do que não tens culpa. A culpa é capaz de destruir a alma.

Por entre as lágrimas, Lysa sorriu e esticou-se para lhe dar um beijo na fronte.

– É o que o mestre Yudarh diz. És demasiado importante para mim, Ay. Se pudesse ser mãe de alguém, só quereria ser tua mãe. – Passou a mão por um dos lados do rosto, limpando-o. – E eu não diria isso se fosses um monstro.

Um apertado nó na garganta impediu o rapaz de dizer fosse o que fosse. Devagar, estendeu ambos os braços para o pescoço de Lysa e abraçou-a em silêncio.

Ayalal,
amavelmente desenhado pela Aergia

***

Mosteiro das Sete Formas, 22 de Lamashan de 4592 AR


– Preciso de saber se isto tem veneno, por favor. – Ay pousou o bolo em cima da mesa, sob o olhar espantado de Yudarh.

– Queres saber se isso tem veneno? – Yudarh olhou para Lysa. – O que é que se passa aqui?

A jovem suspirou e encolheu os ombros, explicando-lhe a proveniência do bolo e o que Ayalal sentira a respeito das duas pessoas que haviam visitado o orfanato.

Yudarh escutou-a, erguendo um pouco as sobrancelhas quando ela denominou uma das visitas como “anjo”, e ficou algo pensativo ao ouvir a descrição de como a criança se comportara ao ver o homem que chegara depois.

– O que é que viste nele ao certo? Explica-me como puderes – pediu, acabando por se sentar numa das cadeiras.

Ay coçou a cabeça e insuflou as bochechas, enquanto pensava em como pôr aquilo por palavras.

– Era como… como se houvesse alguma coisa diferente nele, à volta dele. Uma coisa má, como um fantasma. Eu não conseguia ver nada, mas… – arrepiou-se. – Ela estava lá, eu não estou maluco, mestre Yu.

– Não acredito que sejas – garantiu o tiefling. Passou uma mão pelo queixo encarando a criança. – Nem me parece que estejas a inventar tudo isso, mas preferia que estivesses. Para onde é que essa mulher ia levar as crianças, Lysa?

A jovem ficou algo atrapalha pela conversa ter, de súbito, virado na sua direcção.

– Ah, bem, não sei. Nunca vi nem ouvi falar de ninguém com asas na cidade. Eram estrangeiros, definitivamente. As crianças deveriam ir com eles para fora – notou.

Yudarh desviou a atenção para a lareira, estreitando os olhos, com um desagrado óbvio espelhado no rosto.

– Mestre Yudarh, o que se passa? – Lysa começou a ficar preocupada.

– Pela descrição daquilo que o Ayalal sentiu, talvez esse homem já não esteja vivo. A possibilidade de um morto-vivo poder estar a levar cinco crianças para fora desta cidade…

– Um morto-vivo? Como assim, um morto-vivo? Ele não parecia morto… e estava com um anjo…

Face àquele comentário, Yudarh soltou um riso sarcástico baixo. Nenhum deles havia algum dia visto o meio-demónio a esboçar mais do que um sorriso leve.

– Os anjos têm mais que fazer do que ir buscar crianças a um orfanato. Aquilo era, na melhor das hipóteses, uma aasimar, um ser meio-celestial. Alguns têm, de facto, tendências para actos honrados e de bom cariz. Isso não os impede de serem tão cruéis como o pior demónio do Inferno – acrescentou. – E até poderia ser outro qualquer tipo de criatura, sob disfarce. As aparências enganam, Lysa.

A cabeça da jovem inclinou-se para a frente, os lábios comprimindo-se numa linha trémula, sob a reprimenda da última frase.

– É possível saber se são mesmo maus? – perguntou Ayalal, apoiando os braços na mesa e pondo-se em bicos de pés. – Como fazemos para trazer os outros de volta?

Yudarh fez-lhe um sinal com a mão, para que sossegasse, e ergueu-se, indo até um dos seus armários, donde trouxe um colar cujo pendente possuía a forma de uma espada de prata com a guarda raiada a ouro.

– Não falem comigo nos próximos momentos. – Poderia parecer um pedido, porém era uma ordem tácita. – Não vou conseguir ouvir-vos.

Ay acenou em concordância, de olhos presos nele, esperando que alguma coisa acontecesse.

Yudarh voltou a sentar-se, agora de costas direitas e sem se encostar. Pousou o antebraço esquerdo sobre a mesa, com o pendente na palma da mão e fechou os dedos com cuidado, ficando somente a corrente a descoberto. Inspirou fundo e expirou, focando a vista num ponto para além do tampo de madeira. A mão direita ergueu-se diante do rosto e os dedos riscaram o ar, de cima para baixo, executando de seguida um semicírculo que continuou para um movimento diagonal. Ao mesmo tempo, os lábios do meio-demónio moveram-se. Ao princípio, o rapaz pensou que o mestre nada estava a dizer, porém, por entre o crepitar da lareira, um sussurro ditava palavras que não foi capaz de compreender.

Aos poucos, um brilho leve que se escapava por entre os dedos da mão fechada de mestre Yudarh chamou-lhe a atenção. Semi-abriu a boca e os olhos brilharam, perplexo. Aquilo era magia a sério. Uma névoa esbranquiçada cresceu e espalhou-se pelos orbes de íris vermelha do tiefling, tornando-o cego para o presente. Por segundos que pareceram uma eternidade, ficou parado, mal respirando. Ayalal conseguia sentir como que um peso diferente na atmosfera que pairava em redor dele, uma energia estranha, mas apelativa.

Por fim, Yudarh piscou os olhos e a névoa desapareceu. Na mão, o brilho apagou-se.

– Saíram da cidade ontem, pela estrada principal – suspirou, o corpo descontraindo um pouco. – Não vi qualquer intenção maligna. Esperemos que assim seja.

O rosto contorceu-se num esgar de quem estava longe de se convencer disso.

***

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Lamashan de 4592 AR (continuação III)


Após a saída de Sëdara, um pesado silêncio caiu entre todos. Era muito raro alguém adoptar uma criança. Cinco, de uma só vez, deveria ser inédito até para a Directora Drane. A responsável inspirou fundo e observou os órfãos cabisbaixos.

– Meninos, vão comer o vosso bolo para a cozinha. – Apesar do tom brando, era uma ordem à qual nenhum desobedeceria.

As crianças formaram uma fila torta que seguiu, algo arrastada, pelo corredor. Lysa puxou Ayalal pela mão, para que fechassem o grupo, contudo a mulher mais velha pousou neles o olhar.

– Quero falar com ambos. Entrem e fechem a porta – disse, desaparecendo dentro do próprio gabinete.

A jovem respirou fundo, passando a mão livre pelo rosto. As bochechas estavam quentes da tensão a que se impusera quando enfrentara o ser celestial. Observou Ayalal. Continuava assustado, como se tivesse acabado de ver uma alma penada.

– Ay – murmurou, levando ambos os joelhos ao chão e ficando um pouco mais baixa que ele. – Não sei o que viste, mas não fales disso à senhora Drane. Conversamos mais tarde e contas-me tudo, pode ser?

O pequeno escutou-a, absorvendo as palavras. A voz de Lysa serenava o receio que lhe apertava o peito, como a canção de embalar de uma mãe.

– Eles são maus. Eu sei que são maus – murmurou, ao fim de alguns segundos. – Não podemos deixar que os levem. Vão fazer-lhes mal.

Não tinha a certeza de onde Ayalal tirara tal ideia, porém a expressão mais que preocupada da criança transmitia uma crença verdadeira.

– Ay, não lhes vai acontecer nada de mal. Aquelas pessoas não eram más, só um pouco diferentes daquilo a que estamos habituados por aqui. Foi isso que te criou essa impressão.

Ele queria acreditar. No final de contas, aquilo era um anjo, e os anjos eram sempre bons, todos diziam o mesmo. Ainda assim…

– Desculpa – murmurou. Não tinha uma razão lógica, porém era simplesmente incapaz de acreditar nas boas intenções de quem visitara o orfanato.

Lysa sorriu-lhe da forma terna e compreensiva que reservava sempre para ele. Agarrou-lhe o rosto com ambas as mãos e depositou-lhe um beijo na fronte.

– Vamos falar com a senhora Drane?

Ay acenou e a jovem endireitou-se. Deu a volta a Ay e empurrou-o com cuidado à sua frente.

O escritório era um compartimento pequeno. De um dos lados, uma janela quadrada permitia que a luz artificial da cidade entrasse de forma tímida; do lado oposto, erguia-se uma estante algo torta e com mais pó do que livros. Sentada atrás da sua secretária, a directora não parecia impaciente. Na verdade, a expressão era pensativa, enquanto os dedos tamborilavam na madeira.

– Sentem-se – disse, indicando duas cadeiras diante de si. Observou a tensão de um e outro enquanto seguiam a indicação. A madeira velha gemeu até sob o peso da criança. – O que fizeram há pouco foi imprudente e desrespeitoso. Mas… – fez uma pausa e sorriu. – Admito que fiquei espantada e satisfeita.

Ayalal e Lysa entreolharam-se. Nenhum dos dois esperava o que aparentava ser uma aprovação, mesmo que reticente.

– Senhora… – começou Lysa, porém a directora ergueu uma mão que a silenciou.

– Quem te deixou aqui – encarou Ayalal – pediu para que cuidássemos de ti. Se quisesses ir com a senhora Sëdara, ninguém te impediria. No entanto, se sentes que és mais feliz no orfanato, junto da tua família – o olhar desviou-se para Lysa –, então o teu lugar é este, até decidires partir. E que nada te obrigue a fazê-lo. Estamos entendidos?

A cabeça de Ay moveu-se quase autonomamente num assentimento. Imaginara que a directora fosse a primeira a querer mandá-lo embora, seria sempre menos uma boca para alimentar. Agora percebia que estivera enganado. Poderia ficar ali com Lysa, até ser crescido e começar a trabalhar, pelo menos.

– Vão lá então ter com os outros – dispensou-os, recostando-se na cadeira.

Lysa ergueu-se, com um alívio óbvio, porém Ayalal não o fez. A mão que não segurava o bolo agarrou o seu lado respectivo do assento, forçando-se a ficar ali. Mordeu o lábio inferior ao de leve, até ter coragem de formular a questão.

– Quem é que me deixou aqui?

A directora arqueou um pouco as sobrancelhas, antes de soltar um suspiro.

– Não sei, Ayalal. Foi a Lysa que te encontrou aqui à porta. Contigo vinha um bilhete e algum dinheiro.

Os ombros do rapaz descaíram e a cabeça inclinou-se um pouco para a frente, desanimada. Não era um assunto sobre o qual pensasse muito, em comparação com outras crianças. No entanto, ao escutar a senhora Drane falar de tal presença anónima, o interesse que vivia nas suas profundezas viera à tona.

– Ainda tenho aqui o bilhete – disse a directora, abrindo a gaveta e tirando um caderno gasto do interior. Folheou-o por instantes, até retirar de entre duas páginas de anotações um pequeno pedaço de pergaminho, estendendo-o a Ayalal.

Ele olhou-o com receio, como se o pudesse morder. Hesitante, largou a cadeira e estendeu a mão para o agarrar. Só após deixar o escritório é que teve coragem de ver o que estava escrito. A caligrafia era trémula, algumas letras estavam esborratadas e outras ténues, como se a mão de quem as escrevera não tivesse encontrado a firmeza necessária.

Inspirou fundo e acabou por guardar o bilhete no bolso. Um dia seria capaz de o ler.

***

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Lamashan de 4592 AR (continuação II)


– Não. – A palavra fugiu-lhe por entre os lábios, sem sequer pensar.

O anjo ergueu as sobrancelhas finas.

– Não tenhas vergonha, querido. – Estendeu-lhe a mão cuja tez ebúrnea parecia quase etérea, ainda assim não era tão pálida quanto a de Ayalal.

O pequeno abanou a cabeça numa negativa e escondeu as mãos atrás das costas. O sorriso de Sëdara estremeceu por um instante.

– Porque não, pequeno? – quis saber, ainda de mão erguida, de palma voltada para cima. – Cuidaria bem de ti, terias o que desejasses, serias feliz. Terias uma família.

– Estais a assustá-lo, senhora.

Ayalal inspirou fundo e desviou o olhar para o seu lado do corredor, por onde Lysa se aproximava, vinda do piso superior. Quando o alcançou, Ay estendeu a mão para agarrar a dela, ancorando-se à sua presença e protecção.

O anjo encarou a recém-chegada e, devagar, endireitou-se. Era cerca de um palmo mais alta, e todo o seu semblante divino lançava uma sombra pesada sobre a simplicidade de Lysa. Porém a jovem encarou-a com firmeza, não permitindo que nada nela a intimidasse.

– Estou? Não era minha intenção – notou e, enquanto falava, os olhos azuis mediam Lysa, tendo especial atenção à cicatriz que lhe manchava parte do rosto. – É uma pena que uma criança assim, especial, não queira vir comigo. Seria bem acolhido e ninguém olharia à sua… proveniência.

A mão pequena de Ay apertou ainda mais a que agarrava.

– Ele não quer ir – frisou Lysa, sendo directa.

O anjo soltou um suspiro e acabou por encolher os ombros, resignada.

– Se assim é… mas ainda estás a tempo de mudar de ideias, pequeno. De ter uma família.

Sem ser Lysa, ninguém parecia disposto a dissuadir Sëdara. Algumas das crianças lançavam, inclusive, olhares de inveja por tamanha insistência.

Ay inspirou fundo, tomando coragem para si.

– A Lysa é a minha família.

Por um instante, os olhos de Sëdara gelaram. O pequeno estremeceu e chegou-se mais para a saia de Lysa, tentando proteger-se. Antes que o anjo pudesse responder àquela declaração, uma voz masculina, vinda da entrada, chamou-a. O frio desapareceu e ela rodou sobre si, atentando o homem que se aproximava.

Ay também o olhou: dentro de um fato de bom corte, era alto, elegante, belo; porém, o pequeno não viu nada disso. Inspirou fundo de forma audível, os olhos arredondando-se. Havia algo errado, algo mau em redor daquele homem. Abanou a cabeça, assustado com o que sentia e era incapaz de compreender.

– Senhora, não podemos demorar-nos mais – disse-lhe. Olhou para Ay, por um momento fugaz, só por se aperceber que era com ele que Sëdara estivera a falar. Ia desviar o olhar, com desinteresse, contudo notou na forma como a criança o olhava e franziu as sobrancelhas.

– Tens razão. Já estava a terminar – notou ela. – Posso levar já os meus filhos, correcto, directora?

– Como tínhamos combinado – disse Drane, olhando os cinco escolhidos.

Myria saltitou no lugar.

– Eu vou buscar a minha boneca!

E preparava-se para partir a correr, quando o recém-chegado a deteve, baixando-se e agarrando-a por um braço.

– Não é necessário. Nós temos muitas bonecas – disse, com um sorriso amável. – Lindas como tu.

A pequenita hesitou, o entusiasmo esmorecendo um pouco.

– Mas a Mimi vai ficar triste se eu a deixar aqui… não posso ir mesmo? Por favor, senhor?

Foi Sëdara quem respondeu, aproximando-se e pousando-lhe a mão na cabeça, numa carícia.

– Nós depois voltamos para buscar a Mimi – garantiu.

As palavras convenceram Myria que se deixou ir à frente, seguindo o homem que viera chamar o anjo, junto com as restantes crianças. Ele não tornou a olhar para trás, porém Sëdara fê-lo, encarando Ayalal. A atenção dele oscilava entre o homem que já desaparecia no corredor, e o anjo.

– Desejo que sejas feliz com a tua família. – Relanceou Lysa, antes de se afastar.

As palavras transmitiam nada mais do que sinceridade, tal como o sorriso angelical. No entanto, Ayalal não conseguia acreditar em nenhum deles.

***

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Lamashan de 4592 AR (continuação)


– Meninos – A directora Drane chamou-lhes a atenção, num tom pouco simpático. Não obstante, alguns lançaram-lhe somente uma mirada rápida, para poderem voltar a observar o anjo. – A senhora Sëdara veio até aqui partilhar a sua generosidade, com um presente para cada um de vós.

Ayalal olhou o anjo com mais atenção e percebeu que ela trazia na mão um saco cheio com alguma coisa. Ela deu um passo à frente e inclinou-se um pouco, como se tentasse ficar à altura das crianças. Nas suas costas, as asas agitaram-se ligeiramente.

– Olá a todos – disse, com simpatia. – Fico muito feliz por vos conhecer. A senhora directora disse-me que são todos muito bons meninos, por isso trouxe-vos isto...

Abriu o saco e tirou um bolo do tamanho de um punho fechado. Estendeu-o à criança mais perto, Myria, que a olhava, fascinada. Os olhos da pequena escancararam-se e esticou os braços timidamente, pegando na oferenda com todo o cuidado que as pequenas mãos continham.

– Muito obrigada! – A voz, mais fina que o normal, denunciava o seu quase histerismo.

O anjo riu-se e deu-lhe uma festa na cabeça, que a deixou nas nuvens, antes de continuar a distribuição dos bolos por todas elas. Algumas sorriram-lhe em forma de agradecimento, duas tiveram a ousadia de a abraçar. Por reflexo, a directora abrira a boca para as repreender, porém pensou melhor e conteve as palavras.

Ay, o último a receber, pegou no bolo que lhe era estendido. Nunca tivera um pedaço de doce tão grande em sua posse. Iria guardar para partilhar com Lysa e pediria para irem visitar Yudarh, dessa forma poderia também dar-lhe um pouco.

– Obrigado – murmurou, levantando o olhar para o anjo. Ela observava-o com um sorriso que era mais do que simpático. Havia ali algum divertimento e a expressão retinha um interesse disfarçado. Por alguma razão que ele próprio não sabia explicar, encostou-se melhor à parede, numa tentativa de aumentar a distância entre eles. Voltou a olhar o bolo, incerto. Teria veneno?

– Sobraram alguns – notou o anjo, relanceando a directora. – Poderiam dividi-los por todos, mais tarde.

Drane concordou com um aceno sério, antes de relancear a satisfação das crianças que viviam no orfanato. A expressão descontraiu um pouco.

– A senhora Sëdara deseja também adoptar alguns de vós – anunciou. E, de súbito, os bolos foram esquecidos, os comentários sussurrados silenciaram-se. O bando de pequenos maltrapilhos focou-se completamente na jovem angelical.

– É verdade. Gostava de tornar-me na mãe de cinco de vós, para já. Se ninguém se importar.

E, depois do silêncio, houve uma súbita turbulência de mãos a levantarem-se e crianças a rodearem a jovem que ergueu as sobrancelhas, estupefacta com tanta comoção.

– Oh, tanto entusiasmo! Vamos acalmar-nos, vamos… – pediu num tom brando. – Vá, eu não me vou já embora…

Ay manteve-se onde estava, enquanto a pequenada tagarelava ao mesmo tempo, tentando fazer-se ouvir e reclamar um lugar como filho adoptivo.

– Meninos! – A voz da directora ouviu-se por cima da de todos, ríspida, cortante. Não foi um efeito instantâneo, mas os órfãos acalmaram-se. – Para os vossos lugares, imediatamente. Se voltarem a comportar-se dessa forma, ficarão de castigo até serem adultos.

O anjo inspirou fundo e ajeitou o vestido simples porém de boa qualidade, ao qual algumas das crianças se tinham agarrado.

– Eu – Sëdara enfatizou a primeira palavra – irei escolher-vos.

Com dificuldade, a pequenada conteve-se. O anjo deslocou-se até à ponta contrária àquela onde estava Ayalal para, num passo lento, caminhar diante deles, estudando-os e indicando com um dedo cada um dos seus escolhidos. A quinta pessoa, um rapaz de 10 anos, situado a três lugares de distância de Ay, sorriu de puro contentamento, quando um dedo recaiu sobre ele. Atrás deles, já Myria saltava de contentamento no seu lugar, rindo-se e chorando ao mesmo tempo.

A mulher parou, levando um dedo aos lábios, pensativa. Deu mais duas passadas e parou à frente de Ayalal. O rapaz retesou-se e engoliu em seco quando a viu dobrar-se, apoiando as mãos nos joelhos.

– Na verdade, seis é um número perfeito. Vem comigo, pequeno.

***

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Lamashan de 4592 AR (1 ano e 1 mês depois)


– É um anjo! Venham todos!

De mãos ainda dentro da tina onde lavava a roupa, Ayalal endireitou o pescoço e relanceou Myria. Era uma menina de 4 anos que raramente parava quieta, alimentada por uma energia que ninguém sabia muito bem donde vinha. Desta vez estava ofegante, como se tivesse corrido de uma ponta à outra da cidade.

– Um anjo? – Um dos órfãos, com quem Ay partilhava a tarefa, ergueu uma sobrancelha. – Não inventes…

– É verdade! – Os olhos da pequena brilhavam de puro entusiasmo. – Está na sala da senhora directora. Vi-as passarem.

O outro rapaz coçou a cabeça com uma mão molhada.

– Vou averiguar isso. Se for mentira… comes menos pão ao jantar – ditou, com o sorriso satisfeito de quem sairia vitorioso.

– Mas não é mentira – fungou a pequena, olhando depois para Ay. – Vem também!

Ele hesitou, de lábios entreabertos. Apesar de ter ficado um pouco curioso com o que Myria dissera, ainda assim preferia acabar aquela tarefa primeiro.

– Vão indo. Vou lá ter depois.

A pequena não fez questão de insistir e, sem mais demoras, partiu a correr pelo corredor. O outro órfão seguiu-a, não correndo mas, ainda assim, não conseguindo esconder a curiosidade no ritmo apressado dos passos. Ay olhou pela janela, pensativo. Nunca acreditara realmente que os anjos existissem, ou talvez acreditasse que existiam, mas que não eram tão simpáticos como os queriam fazer parecer. Encolheu os ombros e esfregou a roupa com mais vigor na água que haviam aquecido à lareira.

Os minutos passaram sem que nenhuma das crianças regressasse. Por fim, uma das jovens mais velhas que cuidavam deles parou junto à porta e pediu para que ele a seguisse até ao gabinete da directora. Uma estranha apreensão germinou-lhe no peito, ao ligar a chegada do suposto anjo com a necessidade da sua presença. Teria feito alguma coisa de mal? Um anjo viera do céu para o castigar? Seria melhor fugir? Talvez o mestre Yudarh o pudesse ajudar, no final de contas ele era uma espécie de demónio bom… Ay inspirou fundo e abanou a cabeça. Acabou por limpar as mãos às calças remendadas e seguiu-a, sem dizer nada.

Quando se aproximou do escritório, deparou-se com os restantes órfãos alinhados diante da porta encostada, os mais próximos tentando espreitar por uma fresta, enquanto segredavam entre eles. Encostou-se à parede, junto a uma rapariga um pouco mais alta que ele e esperou em silêncio. Por fim, a porta abriu-se e a Directora Drane saiu, lançando a todos uma expressão severa, antes de dar passagem à pessoa com a qual estivera a conversar.

Ay piscou os olhos, quase como ofuscado. Era a senhora mais bonita que alguma vez vira. O cabelo ondulado, que caía até ao nível cintura, lembrava um rio de ouro, e o rosto claro possuía uma estranha perfeição que não compreendia. No entanto, havia algo ainda mais surpreendente nela, aquilo que fizera Myria correr desenfreada até eles – duas asas com penas de um branco puro que lhe haviam nascido nas costas.

O anjo relanceou-os com dois olhos cuja cor lembrava o céu por cima das montanhas e sorriu.

***

Mosteiro das Sete Formas, 14 de Rova de 4591 AR (continuação II)


As velas do altar diminuíram de tamanho com o passar do tempo. Quando o pequeno já parecia mais tranquilo, Lysa tirou do bolso um pedaço duro de pão.

– Foi o que consegui arranjar – murmurou, segurando-o à frente do rosto de Ayalal. – Mas ajudará um pouco a passar a noite, espero.

Ele pegou no pão com ambas as mãos, depois de um agradecimento, e mordiscou a côdea. Ficou em silêncio, olhando a comida, enquanto mastigava.

– Lysa, também te vais embora? – acabou por perguntar, sem a olhar.

A jovem piscou os olhos face à pergunta inesperada.

– Embora? Não…

– Mesmo se casares?

– Casar? Eu? – Uma risada tomou-a por um instante, porém acabou a abanar a cabeça em negação. – Ninguém iria querer casar comigo. Não sou propriamente bonita, nem interessante. – Levou uma mão ao rosto, tocando na cicatriz que a queimadura deixara. – Não, de todo.

– Eu casava – ditou Ay, erguendo o olhar para ela, muito sério, e até um pouco ofendido pela falta de autoconfiança. – Se fosse grande. És minha amiga, e eu gosto de ti. E és bonita, sim! De certeza que o mestre Yu concorda comigo. Mas vou perguntar-lhe da próxima vez que o vir.

Lysa tapou a boca com uma mão, abafando uma gargalhada, ao imaginar a cara de Yudarh ao ouvir uma pergunta do género. Esperava que a semideusa Andoletta não se incomodasse com tal comoção junto ao seu altar.

De bochechas insufladas, Ayalal deu uma dentada mais vigorosa no pão.

– Vou perguntar, sim. E não tem piada! – protestou, com um rubor marcado a tomar-lhe a pele pálida do rosto. – Para mim és a pessoa mais bonita do mundo.

– Oh, Ay, desculpa – murmurou, levando uma mão ao rosto e limpando uma lágrima que se formara num dos cantos dos olhos. – É só que… és amoroso.

– Não sou nada – rezingou, voltando o rosto para outro lado, envergonhado.

Lysa riu-se de modo mais controlado e envolveu-o nos braços, puxando-o para o seu colo.

– Se algum dia me for embora daqui, levo-te comigo – garantiu, encostando-o ao peito. – Como é que vivia sem o meu Ay para me proteger dos monstros maus?

A criança fitou-a, desconfiada, e ainda de bochechas inchadas, lembrando-lhe um esquilo a armazenar comida.

– O mestre Yu ainda não me ensinou nada para te proteger – rezingou, depois de engolir o pão que tinha, efectivamente, armazenado nas bochechas. – Ainda não sei magia…

– Um dia saberás – notou, passando-lhe uma mão pelo cabelo negro e prendendo-lhe uma madeixa atrás da orelha. – E serás um feiticeiro poderoso e gentil, que nos protegerá das coisas más. O que te parece?

Com uma certa timidez, Ay estendeu o pão para que Lysa desse também uma dentada, ao que ela acedeu.

– Vou ser isso – disse o pequeno, apesar de não muito confiante. – Um feiticeiro.

Conversaram por mais alguns minutos, até passar já da hora de Ayalal se deitar. Lysa levou-o ao quarto e, ao despedir-se, ofereceu-lhe um beijo de boa noite na fronte. Esperou que ele entrasse e encostasse a porta, antes de se afastar.

A maior parte das crianças já dormiam, tendo-se deitado após o jantar. Se não tivesse a capacidade de ver no escuro, Ay teria tido dificuldade em alcançar a sua enxerga. Andou com cuidado, tentando não fazer barulho, e, ao chegar ao destino, acocorou-se, levando uma mão à almofada, com intenção de tirar a roupa de dormir de sob ela. No entanto, ao tactear o tecido, uma humidade gelada tocou-lhe os dedos. A almofada estava encharcada. Tocou na roupa, na coberta, no lençol… estava tudo molhado.

O pedaço de alegria que Lysa plantara em si há poucos minutos evaporou-se. Ficou estático, olhando para a cama sem realmente a ver, chamando a si os bocadinhos de razão, pensando na amiga e em como ela ficaria desiludida se fosse mau para quem lhe fizera aquilo. Acabou por inspirar fundo e tirou toda a roupa da cama, arrastando-a para fora do quarto, até junto à lareira que ainda ardia na cozinha. Estendeu-a no chão, esperando que o calor a ajudasse a secar e deitou-se ali, encolhido, esperando que o cansaço o embalasse.

***

Mosteiro das Sete Formas, 14 de Rova de 4591 AR (1 ano e 7 meses depois)


Um encontrão súbito fê-lo perder o equilíbrio e estremecer. A taça de estanho escorregou-lhe das mãos, caindo ao chão e espalhando o conteúdo por cima dos seus pés. Ayalal premiu os lábios e engoliu em seco.

– Ah, tens de ter mais cuidado… – O rapaz atrás de si soltou uma risada trocista. Um palmo mais alto do que ele, era um dos membros do grupo que, dia após dia, implicava consigo, causando-lhe todo o tipo de problemas. – Parece que hoje já não jantas.

Ayalal não lhe respondeu. Manteve a expressão mais fechada possível, fingindo não ouvir, e baixou-se para apanhar a taça. Lysa ensinara-o a não reagir, a não dar parte fraca e, ao mesmo tempo, a não se vingar. Ela dizia que a vingança só o tornaria em alguém mau. Afastou-se, seguido pelos olhares de outros órfãos e, depois de lavar a taça e tentar limpar os sapatos, foi buscar um pano encardido, acocorando-se junto à poça de sopa. As regras do orfanato eram estritas: em caso de acidentes do género, para aprenderem a não desperdiçar comida, não serviriam um novo prato – uma noite de fome ensiná-lo-ia a ter mais cuidado.

– Ay, o que estás a fazer?

O rapaz ergueu a cabeça, olhando para Lysa que acabara de chegar à cozinha.

– Entornei a sopa – murmurou, após uma hesitação, voltando a fitar o chão. Não era realmente uma mentira. Ela já se preocupava demasiado, não iria contar-lhe como é que o seu jantar desaparecera. – Estou a limpar.

Lysa ficou em silêncio, aquele silêncio de quem esperava uma resposta mais elaborada. Ay continuou a limpar, agarrando no pano com mais força. Uma mão pousou ao de leve sobre a cabeça do rapaz, fazendo-o pressionar mais os lábios quando o aperto no peito aumentou.

“Não sou um bebé, não vou chorar”, mentalizou-se.

– Sabes que estou aqui para te ajudar, podes confiar em mim – disse-lhe, baixinho.

E ele sabia. Lysa estivera sempre lá, deste que se lembrava, a dar-lhe a mão, a apoiá-lo.

Ayalal fez um aceno mudo, sem parar o que fazia, e Lysa acabou por se afastar, com um suspiro, para ir ajudar noutras tarefas.

Discretamente, o pequeno ergueu o olhar, observando-a. Na semana passada, uma das raparigas mais velhas casara-se com um carpinteiro da cidade e abandonara o orfanato. Vira-a a despedir-se das outras, e escutara a Directora Drane a congratulá-la por ter conseguido encontrar um marido, como se fosse a melhor coisa do mundo. Ele não achava que fosse.

Quando acabou, foi guardar o pano junto do lava-loiça e saiu subtilmente da cozinha. Caminhou devagar pelo corredor mal iluminado até uma pequena sala onde, sobre um altar de granito, ladeando uma bengala de salgueiro, ardiam duas velas, a única iluminação. Todos os órfãos, logo pela manhã, dirigiam-se até ali e oravam à semideusa Andoletta, a Avó Corvo, protetora dos inocentes. Era uma obrigação à qual não podiam escapar. Depois disso, saiam o mais depressa possível. Ele, pelo contrário, refugiava-se ali, quando não podia estar com Lysa. Era uma solidão estranhamente reconfortante, como se estivesse realmente alguém invisível a guardá-lo.

Aninhou-se num canto e abraçou os joelhos contra o peito. A seguir, murmurou uma oração à venerável semideusa, como pedido de autorização para que o deixasse ficar até ter de ir para a sua enxerga. Não obteve qualquer resposta, e, como sempre, tomou isso como um consentimento.

Os minutos passaram devagar. Passavam sempre. Do corredor chegou-lhe o som de passos e o roçagar de uma saia que pararam junto à porta, antes de entrarem e se aproximarem. A dona deles sentou-se ao seu lado, em silêncio. Ay hesitou meia dúzia de segundos, antes de inclinar o corpo contra o braço de Lysa, quase como se tentasse ser discreto, e sem coragem para a encarar.

– Tonto – murmurou Lysa, rodeando-o com o aconchego que ele pedia. – Não te escondas de mim, por favor.

***

Mosteiro das Sete Formas, 27 de Calistril de 4590 AR (continuação IV)


Envolto numa ligeira sombra mágica, Ayalal conteve a respiração por segundos, enquanto absorvia todo aquele novo mundo. Olhou para Lysa, depois olhou para o horizonte, e voltou a olhar para Lysa, sem palavras.

A jovem riu-se um pouco.

– É uma vista bonita, não é? O resto do mundo – notou.

– É – murmurou Ayalal, afastando-se três passos pelo carreiro pedregoso que descia a pique.

Os olhos de Lysa arregalaram-se, alarmada, e esticou a mão para o agarrar, porém Yudarh atravessou o bastão diante dela, impedindo-a.

Fascinado, o pequeno comtemplou a distância, o azul do céu, as suas nuvens de forma peculiar e, de olhos semicerrados, o próprio Sol. Voltou a escutar o pio agudo do falcão e desta vez viu-o, passando ao largo num voo lento. O bater daquelas asas transmitiam-lhe uma liberdade pura. De seguida, deu mais alguns passos pelo trilho, reparando noutra coisa. Derrapou uma vez, mas a curiosidade deu-lhe uma segurança extra, ajudando-o a equilibrar-se. Acocorou-se junto a uma pedra e ficou muito quieto a observar uma solitária flor. O vento sacudia-a, porém a resiliência da planta ultrapassava a óbvia fragilidade. Esticou um dedo e tocou, suavemente, nas pétalas vermelhas. Era, sem dúvida, o ser mais belo que alguma vez vira.

– É uma papoila. Podes levá-la contigo – disse Lysa que, com cuidado, fora espreitar o que lhe chamara a atenção.

– Não. – Ayalal abanou a cabeça. – Esta é a casa dela, vive aqui. Não posso tirá-la. Estaria a ser mau para ela.

Lysa não insistiu, gostando, na verdade, daquela demonstração de preocupação.

A poucos metros deles, Yudarh acabou por se sentar à entrada do túnel, lançando-lhes uma mirada serena, antes de perder os pensamentos no vasto horizonte.

As horas passaram. O Sol subiu mais no céu, até atingir o zénite, enquanto Ayalal fazia várias perguntas sobre o que conseguiam ver dali, o que é que vivia nas florestas… e quando é que poderiam ir ver o mar de perto.

Lysa abriu a boca, hesitando na última resposta.

– Isso… bem… quando fores mais velho.

Ay insuflou as bochechas.

– Amanhã já sou mais velho – notou.

– Ah, sou eu que decido quão mais velho tens de ser – riu-se Lysa. – E agora temos de voltar para casa.

– Já…?

– Já. O Mestre Yudarh usou esse feitiço duas vezes em ti, não devemos abusar da boa vontade dos outros. Voltaremos noutro dia – disse-lhe.

O pequeno fez beicinho, porém acabou por concordar com um aceno. Pouco depois faziam o caminho de regresso pelo túnel, deixando para trás a luz do dia.

Quando chegaram à encruzilhada, Yudarh fez sinal com o bastão para o caminho que os levaria à cidade.

– Podem regressar ao orfanato. – O tom era indiferente e seco, nada a que não estivessem habituados.

Lysa sorriu e fez uma ligeira vénia.

– Agradecemos por tudo, Mestre. Não é, Ay?

Ayalal mirou Yudarh, claramente hesitante, antes de se achegar, não tão subtilmente quanto gostaria, e lhe oferecer um súbito abraço ao nível das pernas.

– Obrigado, Mestre Yu – murmurou, antes de o largar tão depressa quanto o agarrara, indo, muito envergonhado, dar a mão a Lysa.

O tiefling não lhes respondeu. Ficou parado, vendo-os afastarem-se por um momento, antes de ele mesmo voltar aos seus afazeres. Ayalal ainda olhou para trás a tempo de o ver desaparecer pelo lado da encruzilhada que levava à escuridão.

***

Mosteiro das Sete Formas, 27 de Calistril de 4590 AR (continuação III)


À medida que se aproximavam da saída do túnel, a corrente de ar tornava-se mais forte. O fogo das tochas encantadas vacilava, sem nunca se apagar. Uma tocha normal aguentar-se-ia acesa pouco mais que um segundo.

Yudarh liderava a marcha, apoiado no bastão que sempre o acompanhava, com a extremidade inferior, calçada a metal, marcando o ritmo. O caminho transformou-se numa subida íngreme, obrigando Ayalal e Lysa a apoiar as mãos na pedra para subirem, ao contrário do meio-demónio cujos cascos pareciam habituados a tais trilhos. Sendo uma passagem pouco frequentada, ninguém se dera ao trabalho de construir escadas para auxiliar na tarefa.

Uma luz clara, que não a das tochas, começou a revelar-se, espreitando-os de uma curva que os impedia de ver mais além. Mal a ultrapassaram, Ayalal encolheu-se com um gemido de dor e, por instinto, levou o antebraço até aos olhos. Era como se a luz tivesse tomado a forma de várias agulhas que o atacaram de surpresa.

Yudarh olhou para trás.

– A luz poderá magoar-te, mas se queres mesmo ver o exterior desta montanha, aguentarás essa dor.

Desabituada da luminosidade exterior, Lysa semicerrara os olhos, 

– Far-lhe-á mal, mestre? – quis saber, preocupada.

– Em princípio, uma dor de cabeça. – O tiefling recomeçou a caminhada. – Não olhes directamente para o Sol, criança.

Ay fez um aceno rápido, ainda com o braço sobre os olhos. De um momento para o outro, aquela inesperada e súbita dor semeara-lhe uma pontada de medo no coração. Nunca imaginara que a luz do dia o fosse magoar. Ficou parado, no sítio onde estava, enquanto os passos de Yudarh e Lysa seguiam caminho. Inspirou fundo e obrigou uma perna a içar-se para se apoiar na pedra. Segurou-se com a mão livre e continuou a avançar, devagar, hesitante, em direcção à enorme boca de luz, diante de si.

Andara poucos metros quando, sem aviso, um pé bateu num pedregulho e o rapaz caiu para a frente, meio desamparando. Sobressaltado, e para não se magoar, levou ambas as mãos ao chão e abriu os olhos. Luz. Tudo parecia feito de luz que cegava e apagava o resto do mundo. Voltou a fechar as pálpebras, com toda a força, porém a claridade parecia ter ficado presa lá dentro.

– Ay! – A palavra foi levada pelo vento forte. A mão preocupada de Lysa tocou-lhe nas costas, enquanto a outra o ajudou a levantar-se. – Mestre, ele não consegue abrir os olhos…

– Consegue. Aos poucos – respondeu o meio-demónio. A voz dele não estava longe.

Ayalal nada disse, porém os punhos das mãos estavam cerrados. Uma parte de si incitava-o a correr de volta ao túnel, aos tropeções. Outra queria ver, abrir os olhos e absorver o que haveria ali de novo, as imagens de que Lysa lhe contava histórias. Esperou, os instantes decorrendo devagar. Ao longe, escutou um som que nunca antes ouvira, perfurando o vento, parecendo chamá-lo.

– O que foi aquilo? – perguntou, ainda sem se atrever a abrir os olhos. Havia já tanta luz com eles fechados, o que aconteceria se os abrisse?

– Um dos falcões que habita as montanhas veio cumprimentar-te – disse Yudarh.

Ficou mais curioso. O que seria um falcão e porque viria cumprimentá-lo?

Aos poucos, a pressão das pálpebras começou a aliviar-se. Duas pequenas frestas revelaram uma nesga violeta da sua íris. Viu vultos e borrões do que o rodeava, porém a dor continuava lá, desafiando-o. Tentou abrir mais, todavia as lágrimas surgiram, para lhe esborratar ainda mais a visão, numa vã tentativa de lhe aplacar o sofrimento.

Quando estava quase a desistir daquele esforço, um dos vultos aproximou-se e tocou-lhe. O corpo da criança foi percorrido por um calafrio, provocado por uma onda de energia e, de súbito, a intensidade da luz diminuiu. A medo, não fosse aquilo uma partida, Ayalal acabou de abrir os olhos e… arregalou-os.

Diante de si, o vasto horizonte revelava os picos mais baixos das montanhas íngremes onde vivia; abaixo deles, pequenas manchas verdes pintalgavam a planície; e, muito mais além, uma vastidão brilhante abarcava tudo o resto – era O Mar Interior.

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Mosteiro das Sete Formas, 27 de Calistril de 4590 AR (continuação II)


Ayalal acabou por adormecer no colo de Lysa. Com cuidado, a jovem afagou-lhe o cabelo escuro. Tinha pena de simplesmente o levar para o quarto onde as restantes crianças descansavam. As mesmas crianças que o atormentavam. Hesitou, acabando por pegar nele ao colo e seguir para o aposento das raparigas mais velhas. Eram quatro, contando com ela, e todas haviam crescido no orfanato, sob a tutela da Directora Drane.

Deitou-o na sua cama, junto a si, e aconchegou-o. Ay encolheu-se, como fazia sempre, parecendo ainda mais pequeno.

– Bons sonhos – sussurrou-lhe, antes de também ela fechar as pálpebras para dormir.

*

Ay correu à frente, enquanto Lysa acabava de subir a escadaria que desembocava no início do túnel. O rapaz tinha uma estranha energia, apesar da sua palidez, principalmente quando estava animado. Seguiu o percurso entrecortado por luz e sombras, e acabou por apanhá-lo parado no meio da encruzilhada, de cenho franzido, observando o caminho que dava para a escuridão.

– Pareceu-me ver algo a mexer – disse, quando Lysa parou ao seu lado.

– Al… algo? – A voz da jovem tremeu. – Não há nada aí, Ay…

– Tenho a certeza que vi qualquer coisa – insistiu, dando um passo para a escuridão.

– Não! – Lysa agarrou-o pelos ombros e fê-lo voltar-se um pouco, empurrando-o de seguida para o lado do qual ficava a casa do mestre Yudarh. – Foi só impressão tua.

Ayalal insuflou as bochechas porém não insistiu, olhando por cima do ombro para o negrume que deixavam para trás. Não era proibido ir por ali, mas ninguém se atrevia a fazê-lo. Nem luzes se haviam dado ao trabalho de pôr. Ou teriam e alguém as apagara? A curiosidade remoía-o.

Quando chegaram ao fundo do túnel e bateram à porta de casa de Yudarh, este tardou a recebê-los. Voltaram a bater. Insistir era a chave para serem recebidos. Por fim a porta abriu-se.

– Já vos disse…

– Viemos fazer-lhe uma visita, mestre – cortou Lysa, não lhe permitindo terminar a frase do costume. Ambos achavam que Yudarh estava demasiado sozinho ali. Tanto que Ay, preocupado, perguntava-lhe, de vez em quando, se ele não poderia viver também no orfanato.

Ayalal acenou, mirando-o.

– E trouxemos uma coisa – disse, levando uma mão ao bolso do casaco de cotovelos recosidos que outrora já fora vestido por outras crianças. Retirou um embrulho de tecido que Lysa reconheceu e estendeu-o ao tiefling.

Yudarh franziu o sobrolho, pegando na oferta, e puxou o cordel com uma garra, revelando o bolinho que se escondia no interior. Arqueou as sobrancelhas, por um instante, lançando uma mirada à criança, antes de guardar o inesperado presente.

– Faz hoje quatro anos que comecei a tomar conta do Ayalal – comentou Lysa, pousando uma mão no topo da cabeça da criança e fazendo-lhe uma festa. – Ele decidiu repartir o seu presente entre nós.

– Estou a ver… – hesitou, passando uma mão pelo queixo, pensativo. – Ia agora sair. Querem vir?

Lysa piscou os olhos.

– Para onde?

– Para a superfície. – Um dos cantos dos lábios de Yudarh ergueu-se de modo ténue, ao ver o olhar de Ayalal brilhar de entusiasmo.

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Mosteiro das Sete Formas, 27 de Calistril de 4590 AR (continuação)


Encostou a cabeça ao peito de Lysa e suspirou, baixinho. Agora, sentia-se muito mais seguro, ela protegê-lo-ia dos monstros maus. Ficou em silêncio por um instante e, como ela não falava, ergueu o olhar.

– Como é que posso proteger-te do teu monstro?

Ela sorriu-lhe com carinho. Havia meninos no orfanato que tinham um irmão ou uma irmã a viver com eles. Lysa era isso para ele, uma pessoa importante, valiosa.

– Já proteges, Ayalal.

O pequeno premiu os lábios num trejeito torto e pouco convencido.

– Foi o monstro que te fez isso? – murmurou, esticando a mão e tocando-lhe com leveza na cicatriz do rosto, os dedos deslizando pelas rugosidades que a queimadura deixara.

Lysa desviou o olhar, a expressão fechando-se.

– Foi – murmurou, recordando-se do seu “monstro”. Era uma sombra que pairava atrás de si, perseguindo-a. Agarrou em Ayalal só com uma mão, e levou a outra à pequena mão dele, segurando-a contra o seu rosto. – Era o meu pai. Mas agora já está longe, fugi dele. É só que muitas coisas do passado são difíceis de esquecer.

O lábio inferior de Ayalal dobrou-se um pouco para fora, fazendo beicinho.

– Os pais são maus…

– Há muitos que não são – notou, dando-lhe um beijo terno na palma da mão. – Há pessoas más e pessoas boas, e pessoas que são ambas as coisas, ou não são nenhuma. O teu pode não ser mau. Nem a tua mãe. Talvez… lhes tenha acontecido algo e pensassem que aqui estavas melhor, comigo. Talvez achem que és capaz de me proteger do monstro mau.

Ayalal ficou pensativo por um momento e depois acenou, mais confiante.

– Sim, foi isso. Vou pedir ao mestre Yu para me ensinar coisas para te proteger – determinou.

Lysa riu-se ao ouvi-lo dizer aquilo. Yudarh ficara quase de cabelo em pé, da primeira vez em que um Ayalal gatinhante lhe chamara “mest’Yu”. Já não o visitavam regularmente, principalmente depois de ter conseguido desabituar Ayalal do leite com sangue, algo que fora mais fácil do que realmente imaginara. Apesar de tudo, continuava a ser um rapazito com pouco apetite e, por isso, magrito.

– Então, e se depois do amanhecer, lhe formos fazer uma visita? O que achas?

– Sim! – disse, sorrindo.

– Mas antes… – Lysa tirou-o do seu colo com cuidado e levantou-se do banco. Ay seguiu-a com o olhar, intrigado.

– O que foi?

A jovem foi até um armário donde voltou com um saquinho de pano, preso com um cordel. Sentou-se ao lado dele e estendeu-lho.

– Feliz aniversário, Ay – desejou.

Os olhos da criança arredondaram-se, enquanto encarava o embrulho tosco.

– É hoje?

– Hm-hm. E este é o teu presente. É pouco, mas espero que gostes – disse, vendo-o pegar no cuidado no embrulho.

Ayalal labutou um pouco com o nó apertado, mordendo o interior da bochecha. Quando conseguiu, por fim, abriu o saco sobre o colo, revelando três bolinhos que, juntos, cabiam na palma da mão de um adulto. Os seus olhos brilharam de felicidade – doces eram uma luxúria que não entrava no orfanato.

– Prova – incitou, Lysa. – Ouvi dizer que são muito bons.

Ele fez um aceno e pegou num. Hesitou por um momento, antes de o estender na direcção dela.

– Prova também – ofereceu.

– Não posso, são para ti…

Ele sorriu de forma algo traquina.

– Se são meus, dou-te um. Prova, vá lá…

Lysa acabou por aceitar, pois sabia que, se não o fizesse, deixá-lo-ia triste. Ayalal pegou num segundo bolo e deu-lhe uma dentada pequena, saboreando devagar, sem nada mais dizer. Quando acabou de comê-lo, pousou o terceiro na mesa e, sem aviso, abraçou-se à cintura dela, escondendo o rosto na sua barriga.

– Obrigado – A palavra abafada chegou até si com dificuldade. Aos poucos, a camisa de dormir ficou humedeceu no local onde a criança encostava o rosto. – Obrigado.

E Lysa sabia que era um agradecimento que ia muito além dos três bolinhos que lhe oferecera. Ayalal não imaginava o quanto aquela gratidão era mútua.

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Mosteiro das Sete Formas, 27 de Calistril de 4590 AR (quatro anos depois)


Estremeceu e, de súbito, abriu os olhos. A escuridão reinava no quarto. Contudo, não era isso que o impedia de ver. Deitado na sua enxerga, sobre o chão, Ayalal observou as restantes crianças. As respirações eram leves, monótonas. Sentou-se devagar, trémulo, agarrado ao cobertor. Ao todo, contando com ele, eram trinta e duas, deitadas a pouco mais que um braço de distância e, excepto ele, todas dormiam.

Tentou não fazer barulho, enquanto se levantava. Levou consigo o cobertor, sobre as costas, como uma capa que arrastava pelo chão, e saiu pela porta que fora deixada encostada. Caminhou só com as peúgas nos pés, parando diante da porta seguinte, por alguns segundos. Lysa, junto com as restantes senhoras que cuidavam deles, dormiam naquele quarto. Mordeu o lábio inferior e abanou a cabeça, continuando caminho até às escadas que levavam ao piso inferior. Era demasiado crescido para lhe pedir para dormir com ela. Demasiado crescido para ter medo dos pesadelos que não o deixavam descansar. Não queria dar outra razão a certas crianças para gozarem consigo.

Espreitou a cozinha, certificando-se de que estava vazia, antes de entrar para se sentar junto à lareira. Uma chama pequena oscilava entre os toros queimados, lutando para continuar acesa. Enrolou-se no cobertor e deitou-se no chão, encolhido, só com o rosto de fora, observando o esmorecer do fogo. Por vezes desaparecia por completo, deixando somente as brasas no seu lugar, só para renascer, um momento depois. Fechou os olhos, sem conseguir dormir. Lá fora, o vento que desembocava na cidade, vindo dos vários túneis, abanava as portadas da janela, entrando pelas frinchas. Assustava-o. Era uma espécie de monstro invisível que, se conseguisse entrar completamente, o devoraria. Estremeceu, encolhendo-se mais.

Não soube quanto tempo ficou assim. Lá fora o vento serenou. O monstro cansara-se e partira. Fora da cozinha, a madeira das escadas estalou. Ayalal abriu os olhos e apressou-se a gatinhar para debaixo da mesa da cozinha, arrastando o cobertor atrás de si. Encolheu-se, abraçado aos joelhos, enquanto a luz de uma vela iluminava timidamente a entrada. Viu dois pés a espreitarem de sob uma camisa de dormir de lã e avançarem pelo chão de pedra, até junto da mesa. A pessoa sentou-se no banco corrido, ficando em silêncio, à espera.

Ay esperou, de coração a bater muito depressa, até ganhar coragem e espreitar pelo espaço entre o banco e o tampo da mesa.

– Como é que sabias que eu estava aqui? – perguntou, baixinho.

Lysa sorriu-lhe com carinho e esticou a mão para lhe fazer uma festa no cabelo negro.

– Foi uma fada que me contou.

– Nunca vi nenhuma fada aqui no orfanato…

– Ah… bem… na verdade tive um sonho mau – confessou Lysa.

Ayalal franziu as sobrancelhas e trepou para cima do banco, sentando-se ao lado da amiga.

– Dói? – perguntou, com uma preocupação sincera. – O monstro fez-te mal?

Ela hesitou um pouco.

– Foi só um sonho mau. O monstro não existe.

– Não existe mesmo? – perguntou ele, desconfiado. – Eu acho que existe. Senão, não te faria mal quando dormes.

Lysa ficou sem saber muito bem o que lhe responder.

– Bem, talvez exista. Temos de os derrotar, então. Como era o teu monstro, Ay? – Passou-lhe um braço em redor dos ombros, chegando-o para si. Observou-o, vendo não tanto medo, mas mais tristeza.

– Eram muitos – murmurou. – Não conseguimos derrotá-los. Eu estava num quarto escuro, eles vieram pelo chão e agarraram-me. Começaram a morder-me e havia sangue… eu gritava, mas não havia som. Puxavam-me o cabelo, queriam tirar-me a cabeça… – Os olhos arredondaram-se, fitando as mãos.

A jovem ofereceu-lhe um beijo no cabelo negro, deixando-o terminar. Só depois colocou a questão que começara a pairar com a descrição do sonho.

– Ay, os outros meninos voltaram a bater-te?

– Não.

A resposta fora firme e rápida. Demasiado, na verdade. As mãos pequenas apertavam-se, tornando-se mais pálidas do que já eram. Lysa pegou nele com cuidado e sentou-o no seu colo, de lado, para o abraçar contra o peito. Todas as crianças do orfanato tinham uma história desagradável para contar. Apesar de algumas, como Ayalal, não terem realmente noção dessa história, outras, pelo contrário, tinham sido moldadas por ela. E, em algumas, esse molde trouxera à tona o prazer de magoar. Ayalal guardava essas feridas para si. Falava-lhe só dos monstros que o atacavam nos pesadelos, sem perceber o que reflectiam.

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