Mosteiro das Sete Formas, 19 de Neth de 4592 AR (continuação)


Ayalal seguiu o passo de corrida de ambos, contendo-se para não os ultrapassar. No entanto, ao alcançarem o quarto, o rapaz estacou de súbito, ainda com um pé erguido, sem entrar. Pairava no ar um cheiro diferente.

– Pela Deusa – murmurou o clérigo, erguendo um braço por instinto e cobrindo a boca e o nariz com parte da manga.

– Não é só a diarreia. – A directora avançou sem hesitar por entre as enxergas, parecendo indiferente ao odor pestilento.

Pois não, não era só isso. Ay deu um passo atrás. Era um cheiro férreo, que o chamava, que lhe dava uma fome impossível de saciar.

– As fezes da bebé estão cheias de sangue vivo, demasiado, clérigo Itori. – Drane ajoelhou-se junto à bebé que nem para chorar tinha forças. O corpo pequeno tremelicava de fraqueza, numa ameaça implícita. 

As rugas do clérigo vincaram-se mais ao deparar-se com o estado da criança. Baixou-se ao lado da enxerga e arregaçou as mangas da túnica até aos cotovelos.

– O caso dela tornou-se extremo – murmurou. – Vou pedir à Deusa que me empreste os seus poderes curativos.

Da porta, com uma mão sobre a boca e o nariz, Ayalal estreitou o olhar na direcção do reverendo, atento ao que ele se preparava para fazer. Queria aproximar-se, porém temia que aquele terrível cheiro o aliciasse mais. A ponta da língua deslizou sobre os incisivos afiados. E se não se conseguisse controlar e atacasse alguém?

O clérigo iniciou o recitar de uma litania baixa, enquanto a mão esquerda se erguia de palma virada para cima. Um minúsculo ponto de luz branca surgiu do nada sobre ela, crescendo até se transformar numa esfera brilhante, como se a Deusa Sarenrae depositasse, de facto, um pouco do seu poder na mão do fiel. Ele voltou a baixar a mão e rodou a palma para baixo, pousando-a no peito da bebé. O corpo absorveu a luz.

Aguardaram, em silêncio. Aos poucos, a menina parou de tremer, todavia, as sobrancelhas do clérigo uniram-se ao meio da fronte, de tão franzidas. Algo não correra como ele previra.

De súbito, uma forte convulsão abalou o pequeno corpo, roubando-lhe um soluço. De imediato, a directora tirou a bebé de sob a mão do servo da Deusa, e agarrou-a contra si, tentando controlar-lhe os espasmos. Ao fim de alguns segundos, eles diminuíram e cessaram por si mesmos. Drane continuou com a criança abraçada ao peito, de lábios brancos de tão comprimidos.

– Directora – começou o homem, hesitando nas palavras. – Eu não… o feitiço… não consegui que a curasse.

Não obteve resposta. A mulher baixou o olhar para a criança, desencostando-a um pouco. Tocou-lhe no rosto com uma das mãos, depois no pescoço, e engoliu em seco. Fechou os olhos por um momento e Ay quase pensou que ela fosse desmaiar.

– Penso que agora já não podemos fazer mais nada, senhor – murmurou Drane, as pálpebras voltando a abrir-se e revelando um brilho húmido no olhar. – Mais nada.

Por um momento, Ayalal esqueceu-se do cheiro, da fome e do medo, enquanto fitava o pequeno corpo ainda nos braços da directora. Avançou, devagar, não conseguindo acreditar no que escutara. Parou ao lado do clérigo. O rosto da bebé descontraíra-se num repouso que já há dias não conseguia alcançar. Um repouso eterno.

O lábio inferior do rapaz começou a tremer e um aperto sufocante tomou-lhe a garganta. Ao contrário de Drane e do clérigo, não conseguiu conter as lágrimas pela vida inocente que acabara de se esvair.

***

Mosteiro das Sete Formas, 19 de Neth de 4592 AR


Nenhum dos doentes melhorou, pelo contrário: em alguns os sintomas agravaram-se, e destes surgiram outros que, sem piedade, atacaram os enfermos. Para além disso, novos casos despontaram entre os órfãos, tornando a divisão impossível de os alojar a todos. Por essa razão, Ay ajudou a transferi-los, ora ao colo, ora às costas, para o aposento maior: o quarto das crianças. Das 29 pessoas que viviam no orfanato, 21 havia adoecido. A ajudá-lo estavam somente a directora e a responsável mais nova. Às restantes crianças fora proibida a aproximação.

Até esse dia, nunca se apercebera realmente da diferença de forças que existia entre ele e os restantes órfãos, e até mesmo em comparação com próprias mulheres que cuidavam deles. Uma criança normal da sua idade não conseguiria levantar os doentes, muito menos transportá-los ao longo de um corredor.

– Ayalal. – A directora dirigiu-se-lhe, enquanto o rapaz aconchegava melhor Lysa, depois de a ter deitado. A doença galopara pela saúde dela: a febre recusava-se a baixar e, por vezes, nem os líquidos se seguravam no estômago. Ainda assim não era a pior.

– Sim, senhora Drane? – O tom dele era baixo, cansado. Porém, o que mais lhe pesava era a preocupação. Esfregou os braços doridos. Não tinha muita vontade de carregar mais coisas, já tivera a sua dose diária.

– Vai até ao templo e pede ao senhor clérigo para regressar contigo. Diz-lhe que nenhum deles teve melhoras… enfim. Diz-lhe o que se passa – pediu.

Ay hesitou, voltando a olhar o rosto lívido de Lysa, marcado pelas dores que o contorciam.

– Directora, porque é que me deixa tratar dos doentes? Não tem medo que fiquem piores por minha causa?

Drane ergueu uma sobrancelha.

– Isso são só disparates, rapaz. Estás aqui porque esta é uma tarefa com que poucas crianças conseguem lidar. És a excepção, e preocupas-te. Não me interessa o que és, ou o que os outros acham. Queres ajudar, é o que importa. Agora vai. – As palavras não perderam o tom severo e, de alguma forma, isso enfatizava a sinceridade.

O rapaz esboçou o sorriso pouco confiante, antes de sair do quarto, para iniciar uma corrida rápida pelo corredor. Desceu as escadas de dois em dois degraus e precipitou-se para a porta da rua. Pelo caminho, passou pela entrada em arco da cozinha, para além da qual se reuniam as restantes crianças.

– Ele está a fugir!

Ayalal olhou para trás, enquanto puxava o trinco pesado da porta. Três cabeças espreitavam da cozinha, com um olhar simultaneamente hostil e curioso. Não valia a pena responder-lhes, nunca ouviam. Ignorou-os e puxou a porta para si, abrindo-a o suficiente para sair.

– Vai-te embora, coisa!

Olhou por cima do ombro, a tempo de se baixar por instinto e levar as mãos à cabeça. Um projéctil voou por cima dele, indo aterrar lá fora com o barulho de metal a bater em pedra. Não esperou por mais nenhum incentivo e precipitou-se para a rua, meio aos tropeções, fechando a porta atrás de si com força. Encostou-se à madeira velha e inspirou fundo, as pálpebras fechando-se por um segundo.

– Eles vão odiar-me, faça o que fizer – murmurou, quando voltou a abrir os olhos. Um prato de estanho seu conhecido estava caído a dois metros dele. Foi apanhá-lo, com um suspiro, e rodou-o nas mãos. O impacto criara uma amolgadela na borda. – Tu também não fizeste nada de mal, pois não?

Abanou a cabeça e obrigou-se a afastar a frustração. Tinha uma missão mais importante. Com o prato debaixo do braço, correu até ao pequeno templo de Sarenrae, a uma dúzia de minutos de distância, e quase arrastou o clérigo atrás de si, de regresso ao orfanato.

Esperaram sob as luzes que mal mimetizavam o dia, após Ayalal bater à porta uma primeira vez. Voltou a bater, com mais força, sem obter resposta. Rangeu os dentes, já com vontade de esmurrar a madeira.

– Trago o senhor clérigo! – disse, erguendo a voz, assim como o rosto, para o andar superior. A directora e a outra mulher estavam ocupadas com os doentes, provavelmente não ouviriam se simplesmente batesse. Agora quem estava na cozinha com toda a certeza que ouvira. – Alguém abra a porta!

Dentro da sua túnica sacerdotal, o clérigo, um humano cuja meia-idade caminhava já para a velhice, ostentava uma preocupação resignada e paciente. Pousou uma mão no ombro da criança que começava a sussurrar impropérios, de lábios semicerrados. Ay mordeu a língua, calando-se. Se tivesse outra forma de abrir a porta… o clérigo não saberia nenhum feitiço para isso? Eles supostamente também sabiam magia! Yudarh conseguia abrir portas sem lhes tocar…

Por fim escutaram o trinco a ser corrido e a porta abriu-se. Os olhos de Ay arredondaram-se ao encarar a directora. O seu rosto estava muito mais rígido do que quando partira em busca de auxílio sagrado. Acontecera algo de grave.

“Lysa?” pensou, um arrepio de pânico percorrendo-lhe o corpo.

***

Mosteiro das Sete Formas, 16 de Neth de 4592 AR


Pather não foi o único a adoecer. Três dias depois, outras cinco crianças, assim como uma das jovens responsáveis, padeciam dos mesmos sintomas: febre alta, dores abdominais intensas e náuseas. Os sete foram isolados no quarto mais pequeno por ordem da directora, que temia que a doença se propagasse aos restantes habitantes do orfanato. A poucos foi dada autorização para entrar, no entanto Ayalal conseguiu estar entre esses poucos, devido a uma estranha resistência que a sua saúde, desde pequeno, demonstrara.

No entanto, essa mesma presença fora contestada por algumas das crianças que o acusavam de ter causado a doença, de alguma forma. Nenhum argumento conseguiu demovê-los de tal ideia, e a única coisa capaz de os silenciar fora a autoridade da Directora Drane que os ameaçou com um castigo severo. 

Ay manteve-se perto de Lysa, ajudando-a, ainda que tenso pela agora silenciosa hostilidade. Negara as acusações, mas nem ele tinha a certeza se a culpa não seria mesmo sua, se não haveria uma forma estranha de alguém como ele passar doenças. No final de contas, a sua própria palidez fazia muitas pessoas duvidarem da sua saúde.

De mangas arregaçadas até aos cotovelos, voltou a mergulhar um trapo molhado na água fria para o espremer e voltar a passá-lo a Lysa. A amiga pousou-o com cuidado na fronte de uma bebé. O cansaço pesava-lhe no rosto e as mãos tremiam quando soltou o pano.

– Devias descansar – murmurou Ay, preocupado. – Não dormiste nada, pois não?

– Estou bem – garantiu Lysa, sorrindo-lhe. Porém, era um trejeito fraco, e as próprias palavras vacilavam sem que o conseguisse controlar. – Temos de lhes dar o remédio que o senhor clérigo preparou. Uma colher a cada.

– Eu faço isso – disse o rapaz, num tom firme.

Limpou as mãos molhadas às calças e dirigiu-se à mesinha onde o clérigo deixara um frasco velho com rolha de cortiça. Pegou nas colheres que serviriam para dar o caldo aos doentes e foi ter com cada um. Ajoelhou-se ao lado das enxergas e ajudou-os a sentarem-se. Quando desarrolhou o frasco, um cheiro a ervas maceradas subiu pelo gargalo. Não era completamente agradável, o que o fez suspeitar de que o sabor seria dez vezes pior. Encheu a colher com cuidado e levou-a à boca do primeiro doente. Ele fez uma careta repugnada, porém engoliu. Nenhuma das crianças do orfanato se daria ao luxo de rejeitar o remédio. Tinham consciência que até a mais simples e vulgar maleita as poderia matar.

O clérigo da deusa Sarenrae dissera que, em princípio, aquele remédio ajudaria a baixar a febre e a serenar as dores, o suficiente para os doentes poderem beber água e comer um pouco. Sem isso, não lhes restariam energias. Todavia, existira incerteza nas suas palavras, o que não encorajou nenhum deles.

Por último, Ay pegou na bebé e, com mais dificuldade, tentou que ela engolisse o remédio. A pequena fez uma careta e cuspiu metade do conteúdo, sujando-se no queixo e manchando a roupa. Ay suspirou e, depois de uma segunda tentativa em que aconteceu o mesmo, voltou a deitá-la com cuidado.

Junto deles, Lysa acabara por se sentar ao lado do balde da água, de olhos fechados e cabeça pousada sobre os joelhos puxados contra o peito. Dois poços escuros sombreavam-lhe os olhos. Estava exausta.

Ay voltou a guardar o frasco e regressou para junto da amiga.

– Lysa – chamou, tocando-lhe na bochecha marcada pela cicatriz. Ela não reagiu. Para além disso, o calor que sentiu vindo da pele dela alertou-o. – Lysa…?

Continuou a não obter qualquer reacção. A respiração dela era pesada, quase custosa. O cansaço abrira um caminho célere para a febre que minava o orfanato.

***

Mosteiro das Sete Formas, 13 de Neth de 4592 AR


Rodou a cabeça de um lado para o outro, tentando ver alguma coisa no horizonte, um fragmento de luz, um movimento. Porém, era tudo escuridão. Não existia tecto, o chão sentia-o mas era como se os pés estivessem pousados em nada. Em redor, havia somente um vazio negro e um silêncio que ecoava dentro da mente. Onde estavam as pessoas? As casas? Onde estava ele?

– Alguém? – A voz ressoou sem que precisasse de mexer os lábios, pairando por segundos até ser engolida e desaparecer. Não obteve resposta.

Inspirou e expirou. A seguir repetiu o processo e apercebeu-se que o esforço necessário aumentara, da mesma forma que um aperto no peito, como se as costelas se comprimissem. Por fim, os músculos recusaram-se a mexer, deixando de conseguir respirar. Tentou gritar. Porém, ao contrário do que acontecera anteriormente, em que falara sem mexer os lábios, desta vez a boca moveu-se, mas o grito foi mudo.

Em pânico, ergueu as mãos para as levar ao peito, no entanto… não existiam mãos unidas aos pulsos. A escuridão consumira-as e começava a rastejar antebraços acima, fundindo-os com a negritude, tomando-os para si.

Os seus gritos mudos tornaram o silêncio ainda mais pesado. O corpo contorceu-se, tentando afastar a escuridão, porém ela simplesmente continuou a tomar terreno, indiferente aos esforços. Trepou-lhe pelo corpo, roubando-lhe os membros, o peito, a boca. Por fim, perdeu a visão, para pertencer completamente às trevas.

*

Escancarou os olhos e sentou-se num movimento brusco, ofegante. O corpo suava como se tivesse corrido pela cidade, sem cessar. Apalpou os braços, o peito, o pescoço, o rosto, certificando-se de que estava tudo ali. O peso do cobertor sobre as pernas era estranhamente reconfortante, em contraste com o vazio. Inspirou fundo várias vezes. A garganta estava seca e um pouco dorida, como se tivesse mesmo gritado. “Foi só um sonho”, tentou mentalizar-se, “só um sonho”. Era o tipo de pesadelo recorrente que o atacava nos últimos dias, após lhe ter sido revelado parte da sua ascendência. Ficara com demasiado medo de si mesmo.

Quando, por fim, o ritmo cardíaco serenou, Ayalal olhou para as restantes crianças adormecidas. Em princípio não fizera barulho, tendo em conta que nenhuma dava mostras de ter acordado.

A quatro enxergas de distância, um dos órfãos remexeu-se. Ay retesou-se por um instante. A criança voltou a rolar sobre si e pareceu encolher-se, enquanto deixava escapar um queixume. Talvez fosse só mais alguém com pesadelos, pensou.

No entanto, o gemido de fundo prolongou-se. Uma pessoa que dormisse profundamente não daria conta, porém era impossível que alguém já acordado conseguisse ignorar. Ayalal levantou-se e, de pés descalços, aproximou-se da criança em causa, fazendo uso da sua visão nocturna para não tropeçar em ninguém.

Acocorou-se junto de Pather, um rapaz magro, dois anos mais novo que ele. Apesar do rosto contorcido por um qualquer mal-estar, continuava a dormir. Hesitou, antes de estender uma mão, pousando-a sobre a cabeça e dando-lhe uma festa, como Lysa fazia consigo, para o acalmar. Para seu desgosto, não pareceu fazer efeito. Tocou com as costas da mão fria no rosto do rapaz e, por um momento, assustou-se, recolhendo-a contra o corpo. Talvez fosse só impressão. Com mais cautela, voltou a tocar-lhe. Em comparação com a sua frieza, o rosto do rapaz estava quente, muito mais do que o normal.

– Pather – chamou, baixinho. – Pather, acorda.

Com cuidado, abanou-o pelo ombro. O órfão soltou um gemido mais alto e entreabriu os olhos, sem conseguir enxergar por entre a escuridão do quarto.

– Como te sentes? – murmurou.

– Não sei… dói… – gemeu, encolhendo-se mais, sob o cobertor. Um soluço fino soltou-se e, no segundo a seguir, um choro baixo encheu o quarto.

Foi o suficiente para quebrar o sossego da noite. Algumas das outras crianças começaram a abrir os olhos e a erguer-se sobre os cotovelos para tentarem perceber o que se passava.

Ay ergueu-se de junto dele e correu para a porta, saindo para avisar as responsáveis. Não podia fazer muito mais para ajudar. Acabara de passar a soleira para a semiobscuridade do corredor quando, atrás de si, ouviu alguém falar.

– O Pather está a chorar, ele fez-lhe alguma coisa de mal…

O coração pareceu falhar um batimento. Apesar de ser difícil ficar mais lívido do que já era, Ayalal sentiu o sangue a fugir-lhe do rosto.

***

Mosteiro das Sete Formas, 22 de Lamashan de 4592 AR (continuação)


Ay suspirou, apoiando o queixo sobre a mesa. Lançou um olhar conformado ao bolo, como se também ele fosse um vilão que ganhara a batalha.

– E o bolo não tem veneno – notou Yudarh, depois de o ter observado por um instante. – Podem comê-lo.

O rosto da criança contorceu-se numa careta quase repugnada. Preferia comer pão com um mês do que provar aquele “presente”.

Lysa deu um passo em frente e posicionou-se ao lado de Ayalal, pousando-lhe a mão no cabelo negro.

– Já tiraste as dúvidas todas?

O rapaz ergueu um pouco a cabeça, olhando-a. Na sua expressão havia mais do que uma questão pendente, e uma hesitação que conseguia somente enfatizá-la. Yudarh esperou, observando-o, até o pequeno ganhar coragem.

– O que é que eu sou? Porque é que vi aquele homem de forma diferente? – perguntou, baixinho. – Qual é a minha… proveniência?

Por um segundo, Lysa conteve o ar nos pulmões. A ênfase que Ay dera àquela última palavra fê-la recordar-se da mulher que o tentara levar de si. Ela usara-a numa insinuação propositada que ficara a pairar na consciência da criança. Lançou, com o olhar, um pedido de auxílio ao tiefling. O meio-demónio, por sua vez, não lhe dispensava qualquer atenção, dedicando-se a observar Ayalal. Após ponderar, levou ao rosto a mão que segurava o colar, apoiando nela o queixo.

– Tu és aquilo a que muitos chamam dhampir – disse, o tom ponderado permitindo que as palavras tomassem o seu rumo. – Um meio vampiro, provavelmente do lado paterno. Isso dá-te algumas capacidades e fragilidades. É por seres o que és que detectaste a aura de morto-vivo daquele homem, é também por isso que os teus olhos são tão sensíveis à luz do sol. Provavelmente a tua palidez também advém disso, assim como a afinidade com energia negativa, a capacidade de ver na escuridão e, talvez, algum gosto por sangue…

Ay não se mexeu. O corpo petrificara, a partir do momento em que Yudarh mencionara a palavra “vampiro”. Lysa, pelo contrário, abria e fechava a boca, sem conseguir articular nada, demasiado chocada com o despejar de informação para cima da criança. Cerrou os punhos diante da boca.

Yudarh continuou a ignorá-la, atento somente à reacção do rapaz.

– Sou um monstro. – O murmúrio escapou-se por entre os lábios de Ayalal, como constatação de algo que já suspeitava.

– Tanto como eu – acrescentou Yudarh, fazendo um gesto com a mão livre, como a enfatizar o sarcasmo. – És um monstro se quiseres sê-lo, ou se deixares que uma criatura assim se apodere do teu espírito. Fica por tua conta o que serás no futuro. Por agora és só um rapazito magricela. Não sentes vontade de beber sangue, pois não? Nem de fazeres algo mau.

Ay abanou a cabeça numa negativa lenta, enquanto levava uma mão aos lábios, estarrecido. Era então por isso que dois dos seus incisivos se alongavam anormalmente e tinham pontas mais afiadas, constatou: serviam para morder pessoas, para sugar sangue, talvez para matar…

– Mas…

– Não há “mas”. Sê aquilo que queres ser, não aquilo que a imaginação dos outros acham que és. Podes ter a certeza, isso vai magoar-te. Mas não há maior vitória que levares a tua avante e provares a todos o quão enganados estão a teu respeito. São as tuas crenças, as tuas vontades, a tua força – ditou Yudarh, apontando-lhe uma garra. – E não te esqueças que não estás sozinho. Há mais pessoas que acreditam nas tuas capacidades. Fá-lo por ti e por elas, Ayalal.

Com esforço, Lysa ultrapassou o momento de torpor. Levou os joelhos ao chão e, vacilante, ergueu a mão, tocando no rosto frio da criança.

– Tu não és um monstro, Ay. Nunca vais ser. És um menino bom. Senti isso mal te encontrei, tão silencioso, tão só… – murmurou, quase falando consigo mesma ao recordar-se. – Tão… importante para mim.

Duas lágrimas escaparam-se-lhe, escorrendo de cada lado do rosto. Ay desviou o olhar para ela e à sua expressão estarrecida juntou-se um sentimento profundo de culpa ao vê-la chorar.

Yudarh desviou o olhar e retirou a mão de sob o queixo, para observar o colar que ainda segurava. Deixou um dedo deslizar pelo símbolo da espada.

– A Lysa está a chorar porque te ama – murmurou. – Porque está feliz de te ter consigo. Não comeces a culpar-te do que não tens culpa. A culpa é capaz de destruir a alma.

Por entre as lágrimas, Lysa sorriu e esticou-se para lhe dar um beijo na fronte.

– É o que o mestre Yudarh diz. És demasiado importante para mim, Ay. Se pudesse ser mãe de alguém, só quereria ser tua mãe. – Passou a mão por um dos lados do rosto, limpando-o. – E eu não diria isso se fosses um monstro.

Um apertado nó na garganta impediu o rapaz de dizer fosse o que fosse. Devagar, estendeu ambos os braços para o pescoço de Lysa e abraçou-a em silêncio.

Ayalal,
amavelmente desenhado pela Aergia

***

Mosteiro das Sete Formas, 22 de Lamashan de 4592 AR


– Preciso de saber se isto tem veneno, por favor. – Ay pousou o bolo em cima da mesa, sob o olhar espantado de Yudarh.

– Queres saber se isso tem veneno? – Yudarh olhou para Lysa. – O que é que se passa aqui?

A jovem suspirou e encolheu os ombros, explicando-lhe a proveniência do bolo e o que Ayalal sentira a respeito das duas pessoas que haviam visitado o orfanato.

Yudarh escutou-a, erguendo um pouco as sobrancelhas quando ela denominou uma das visitas como “anjo”, e ficou algo pensativo ao ouvir a descrição de como a criança se comportara ao ver o homem que chegara depois.

– O que é que viste nele ao certo? Explica-me como puderes – pediu, acabando por se sentar numa das cadeiras.

Ay coçou a cabeça e insuflou as bochechas, enquanto pensava em como pôr aquilo por palavras.

– Era como… como se houvesse alguma coisa diferente nele, à volta dele. Uma coisa má, como um fantasma. Eu não conseguia ver nada, mas… – arrepiou-se. – Ela estava lá, eu não estou maluco, mestre Yu.

– Não acredito que sejas – garantiu o tiefling. Passou uma mão pelo queixo encarando a criança. – Nem me parece que estejas a inventar tudo isso, mas preferia que estivesses. Para onde é que essa mulher ia levar as crianças, Lysa?

A jovem ficou algo atrapalha pela conversa ter, de súbito, virado na sua direcção.

– Ah, bem, não sei. Nunca vi nem ouvi falar de ninguém com asas na cidade. Eram estrangeiros, definitivamente. As crianças deveriam ir com eles para fora – notou.

Yudarh desviou a atenção para a lareira, estreitando os olhos, com um desagrado óbvio espelhado no rosto.

– Mestre Yudarh, o que se passa? – Lysa começou a ficar preocupada.

– Pela descrição daquilo que o Ayalal sentiu, talvez esse homem já não esteja vivo. A possibilidade de um morto-vivo poder estar a levar cinco crianças para fora desta cidade…

– Um morto-vivo? Como assim, um morto-vivo? Ele não parecia morto… e estava com um anjo…

Face àquele comentário, Yudarh soltou um riso sarcástico baixo. Nenhum deles havia algum dia visto o meio-demónio a esboçar mais do que um sorriso leve.

– Os anjos têm mais que fazer do que ir buscar crianças a um orfanato. Aquilo era, na melhor das hipóteses, uma aasimar, um ser meio-celestial. Alguns têm, de facto, tendências para actos honrados e de bom cariz. Isso não os impede de serem tão cruéis como o pior demónio do Inferno – acrescentou. – E até poderia ser outro qualquer tipo de criatura, sob disfarce. As aparências enganam, Lysa.

A cabeça da jovem inclinou-se para a frente, os lábios comprimindo-se numa linha trémula, sob a reprimenda da última frase.

– É possível saber se são mesmo maus? – perguntou Ayalal, apoiando os braços na mesa e pondo-se em bicos de pés. – Como fazemos para trazer os outros de volta?

Yudarh fez-lhe um sinal com a mão, para que sossegasse, e ergueu-se, indo até um dos seus armários, donde trouxe um colar cujo pendente possuía a forma de uma espada de prata com a guarda raiada a ouro.

– Não falem comigo nos próximos momentos. – Poderia parecer um pedido, porém era uma ordem tácita. – Não vou conseguir ouvir-vos.

Ay acenou em concordância, de olhos presos nele, esperando que alguma coisa acontecesse.

Yudarh voltou a sentar-se, agora de costas direitas e sem se encostar. Pousou o antebraço esquerdo sobre a mesa, com o pendente na palma da mão e fechou os dedos com cuidado, ficando somente a corrente a descoberto. Inspirou fundo e expirou, focando a vista num ponto para além do tampo de madeira. A mão direita ergueu-se diante do rosto e os dedos riscaram o ar, de cima para baixo, executando de seguida um semicírculo que continuou para um movimento diagonal. Ao mesmo tempo, os lábios do meio-demónio moveram-se. Ao princípio, o rapaz pensou que o mestre nada estava a dizer, porém, por entre o crepitar da lareira, um sussurro ditava palavras que não foi capaz de compreender.

Aos poucos, um brilho leve que se escapava por entre os dedos da mão fechada de mestre Yudarh chamou-lhe a atenção. Semi-abriu a boca e os olhos brilharam, perplexo. Aquilo era magia a sério. Uma névoa esbranquiçada cresceu e espalhou-se pelos orbes de íris vermelha do tiefling, tornando-o cego para o presente. Por segundos que pareceram uma eternidade, ficou parado, mal respirando. Ayalal conseguia sentir como que um peso diferente na atmosfera que pairava em redor dele, uma energia estranha, mas apelativa.

Por fim, Yudarh piscou os olhos e a névoa desapareceu. Na mão, o brilho apagou-se.

– Saíram da cidade ontem, pela estrada principal – suspirou, o corpo descontraindo um pouco. – Não vi qualquer intenção maligna. Esperemos que assim seja.

O rosto contorceu-se num esgar de quem estava longe de se convencer disso.

***

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Lamashan de 4592 AR (continuação III)


Após a saída de Sëdara, um pesado silêncio caiu entre todos. Era muito raro alguém adoptar uma criança. Cinco, de uma só vez, deveria ser inédito até para a Directora Drane. A responsável inspirou fundo e observou os órfãos cabisbaixos.

– Meninos, vão comer o vosso bolo para a cozinha. – Apesar do tom brando, era uma ordem à qual nenhum desobedeceria.

As crianças formaram uma fila torta que seguiu, algo arrastada, pelo corredor. Lysa puxou Ayalal pela mão, para que fechassem o grupo, contudo a mulher mais velha pousou neles o olhar.

– Quero falar com ambos. Entrem e fechem a porta – disse, desaparecendo dentro do próprio gabinete.

A jovem respirou fundo, passando a mão livre pelo rosto. As bochechas estavam quentes da tensão a que se impusera quando enfrentara o ser celestial. Observou Ayalal. Continuava assustado, como se tivesse acabado de ver uma alma penada.

– Ay – murmurou, levando ambos os joelhos ao chão e ficando um pouco mais baixa que ele. – Não sei o que viste, mas não fales disso à senhora Drane. Conversamos mais tarde e contas-me tudo, pode ser?

O pequeno escutou-a, absorvendo as palavras. A voz de Lysa serenava o receio que lhe apertava o peito, como a canção de embalar de uma mãe.

– Eles são maus. Eu sei que são maus – murmurou, ao fim de alguns segundos. – Não podemos deixar que os levem. Vão fazer-lhes mal.

Não tinha a certeza de onde Ayalal tirara tal ideia, porém a expressão mais que preocupada da criança transmitia uma crença verdadeira.

– Ay, não lhes vai acontecer nada de mal. Aquelas pessoas não eram más, só um pouco diferentes daquilo a que estamos habituados por aqui. Foi isso que te criou essa impressão.

Ele queria acreditar. No final de contas, aquilo era um anjo, e os anjos eram sempre bons, todos diziam o mesmo. Ainda assim…

– Desculpa – murmurou. Não tinha uma razão lógica, porém era simplesmente incapaz de acreditar nas boas intenções de quem visitara o orfanato.

Lysa sorriu-lhe da forma terna e compreensiva que reservava sempre para ele. Agarrou-lhe o rosto com ambas as mãos e depositou-lhe um beijo na fronte.

– Vamos falar com a senhora Drane?

Ay acenou e a jovem endireitou-se. Deu a volta a Ay e empurrou-o com cuidado à sua frente.

O escritório era um compartimento pequeno. De um dos lados, uma janela quadrada permitia que a luz artificial da cidade entrasse de forma tímida; do lado oposto, erguia-se uma estante algo torta e com mais pó do que livros. Sentada atrás da sua secretária, a directora não parecia impaciente. Na verdade, a expressão era pensativa, enquanto os dedos tamborilavam na madeira.

– Sentem-se – disse, indicando duas cadeiras diante de si. Observou a tensão de um e outro enquanto seguiam a indicação. A madeira velha gemeu até sob o peso da criança. – O que fizeram há pouco foi imprudente e desrespeitoso. Mas… – fez uma pausa e sorriu. – Admito que fiquei espantada e satisfeita.

Ayalal e Lysa entreolharam-se. Nenhum dos dois esperava o que aparentava ser uma aprovação, mesmo que reticente.

– Senhora… – começou Lysa, porém a directora ergueu uma mão que a silenciou.

– Quem te deixou aqui – encarou Ayalal – pediu para que cuidássemos de ti. Se quisesses ir com a senhora Sëdara, ninguém te impediria. No entanto, se sentes que és mais feliz no orfanato, junto da tua família – o olhar desviou-se para Lysa –, então o teu lugar é este, até decidires partir. E que nada te obrigue a fazê-lo. Estamos entendidos?

A cabeça de Ay moveu-se quase autonomamente num assentimento. Imaginara que a directora fosse a primeira a querer mandá-lo embora, seria sempre menos uma boca para alimentar. Agora percebia que estivera enganado. Poderia ficar ali com Lysa, até ser crescido e começar a trabalhar, pelo menos.

– Vão lá então ter com os outros – dispensou-os, recostando-se na cadeira.

Lysa ergueu-se, com um alívio óbvio, porém Ayalal não o fez. A mão que não segurava o bolo agarrou o seu lado respectivo do assento, forçando-se a ficar ali. Mordeu o lábio inferior ao de leve, até ter coragem de formular a questão.

– Quem é que me deixou aqui?

A directora arqueou um pouco as sobrancelhas, antes de soltar um suspiro.

– Não sei, Ayalal. Foi a Lysa que te encontrou aqui à porta. Contigo vinha um bilhete e algum dinheiro.

Os ombros do rapaz descaíram e a cabeça inclinou-se um pouco para a frente, desanimada. Não era um assunto sobre o qual pensasse muito, em comparação com outras crianças. No entanto, ao escutar a senhora Drane falar de tal presença anónima, o interesse que vivia nas suas profundezas viera à tona.

– Ainda tenho aqui o bilhete – disse a directora, abrindo a gaveta e tirando um caderno gasto do interior. Folheou-o por instantes, até retirar de entre duas páginas de anotações um pequeno pedaço de pergaminho, estendendo-o a Ayalal.

Ele olhou-o com receio, como se o pudesse morder. Hesitante, largou a cadeira e estendeu a mão para o agarrar. Só após deixar o escritório é que teve coragem de ver o que estava escrito. A caligrafia era trémula, algumas letras estavam esborratadas e outras ténues, como se a mão de quem as escrevera não tivesse encontrado a firmeza necessária.

Inspirou fundo e acabou por guardar o bilhete no bolso. Um dia seria capaz de o ler.

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