Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR (continuação II)


Quando Ayalal piscou os olhos, a trágica imagem da morte de Lysa recuou do primeiro plano da sua mente, para ficar a rondar-lhe a memória, ameaçando atacá-lo a qualquer instante. A gruta voltara a estar diante de si, no entanto a posição do rapaz havia-se alterado em relação à do local: já não estava de pé. O peito e o maxilar inferior doíam-lhe da queda que dera, e o queixo ardia-lhe onde a pedra o esfolara. Apesar disso, a dor era o menos. Devagar, o seu corpo era arrastado para trás, por um pé. Puxou-o, ao mesmo tempo que levantava a cabeça para espreitar por cima do ombro.

O que parecia ser um tentáculo enrolara-se num dos seus tornozelos. Viu a ponta contorcer-se, sentiu a pressão que fazia, face ao seu puxão. O coração começou a bater mais depressa, enquanto o olhar seguia o tentáculo pela escuridão, até uma das enormes colunas de pedra. A criança semicerrou os olhos, perscrutando com mais atenção. A coluna moveu-se e dobrou-se um pouco, revelando não estar presa ao tecto.

Há medida que Ay se aproximava, apercebeu-se da armadilha em que caíra. O que pensara serem espigões escavados na pedra eram, na verdade, dedos e ossos que brotavam de forma aleatória de várias zonas da criatura. Os membros, antes disfarçados pelas sombras, retorceram-se, formando ângulos impossíveis, como se alguém os tivesse partido e recolocado sem ter a mínima noção da forma que deveriam ter, nem da zona onde se inseriam. Fitando-o, dois olhos esféricos piscaram, dessincronizados – um encontrava-se na zona superior do corpo, outro quase ao nível do solo. No espaço que separava os orbes, a superfície contorceu-se e abriu-se numa boca de fundo negro, cada mandíbula ameaçando-o com uma série irregular de dentes afiados.

Um grito de pânico encheu-lhe a garganta, perante tamanha monstruosidade, e Ayalal tentou puxar a perna num movimento frenético. No entanto, ou a força lhe havia fugido, ou a constrição era demasiado forte. Tentou agarrar-se ao chão, mas foi em vão. Os dedos derraparam, as unhas raspando nas irregularidades da pedra. Uma delas soltou-se e Ay agarrou-a por instinto. Rodou sobre si num movimento rápido, impulsionado pelo pavor, e atirou a pedra à criatura. Acertou-lhe, porém o monstro nem sequer reagiu, deixando o projéctil cair e ressaltar duas vezes no chão. Um arquejar gutural libertou-se da boca dele, e este dobrou-se mais, em direcção aos pés do rapaz. Ayalal sentiu um bafo grotesco a carne podre, e um fio de saliva pendeu da língua que se estendia na sua direcção.

Porém, a criatura deteve-se. O olho superior piscou duas vezes, fitando alguma coisa acima da cabeça de Ayalal. De súbito, um traço de luz esbranquiçada cortou o espaço ao lado da criança, erguendo-lhe os cabelos com a energia pura que continha. A criatura deixou escapar um grito estrangulado, talvez de surpresa, e ainda se contorceu numa tentativa de escapar ao impacto, arrastando Ayalal com brusquidão para o lado contrário ao da luz, embatendo com ele na parede. O rapaz semicerrou os olhos e piscou as pálpebras, algo atordoado não só pelo choque, como também pela explosão de luz, seguida de uma torrente de faíscas a saltar em todas as direcções quando a descarga embateu no corpo do monstro. Um forte cheiro a queimado tomou o ar em redor.

Adarghins i zadiran.

Ayalal reconheceu de imediato o tom duro e álgido da voz. Embora não compreendesse o que fora dito, as palavras soaram-lhe a uma ordem que não admitiria desobediência. Olhou para o caminho que pensara seguir antes mesmo de ser capturado, e arregalou os olhos. Yudarh pairava a cerca de dois ou três palmos do chão, para lá do piso plano, por cima da zona que descia a pique. Numa das mãos empunhava o bastão, apontando-o à criatura. A sua expressão, de olhar cortante e cantos dos lábios descaídos, prometia tudo menos compaixão.

*

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR (continuação)


Ofegante e trémulo, parou somente diante da porta fechada. Bateu com a pouca força que lhe restava, mal escutando o som a repercutir-se na madeira.

– Mestre… – sussurrou, dolorosamente consciente de que ninguém o ouviria. Encostou-se à porta e deixou que a exaustão suavizasse. Voltou a bater, ainda assim o punho fraquejava. – Mestre Yudarh!

A única resposta que obteve foi o eco da sua voz nas paredes escurecidas do túnel. Esperou e, sem ter a certeza do tempo que passara, chamou-o novamente e voltou a bater à porta. Mas foi um esforço vão. Se estava em casa, o tiefling não o receberia.

Olhou para as sombras que o haviam seguido até à soleira da porta de Yudarh. Nunca vira o mestre na cidade e, pelo que Lysa dizia, ele preferia a reclusão que lhe reservava a solidão. Não estando em casa, e sendo improvável que houvesse descido à cidade, só via duas hipóteses possíveis.

Caminhou até ao cruzamento, apoiando uma mão na parede. No peito o coração ainda batia descompassado. Lançou um olhar ao trilho que percorrera meses atrás, até ao exterior, onde, pela primeira vez, pudera cumprimentar o céu e o Sol. Depois, fitou o lado oposto. Conseguia perceber como o túnel se perdia na mais pura escuridão, alguns metros mais à frente. Já vira Yudarh desaparecer por aquele trilho e acreditava no que as histórias contavam sobre os monstros que viviam nas sombras das entranhas das montanhas.

Dessa vez, não precisou de coragem para avançar: foi o medo que o empurrou em frente. Entrou na escuridão, seguindo com menos cuidado do que sabia que deveria. Apesar de ser capaz de ver no escuro, a falta de qualquer tipo de luz intimidava e ameaçava-o. Se as histórias fossem verdadeiras, haveria criaturas à escuta, monstros que esperavam por qualquer ser vivo que pudessem devorar.

O caminho começou a descer e as paredes estreitaram-se. O ar que pairava em seu redor tornou-se ligeiramente mais húmido e pesado. Ao fim de alguns minutos, Ay chegou a uma bifurcação: um dos lados seguia no mesmo sentido descendente que levara até ao momento; o outro não passava de pouco mais que uma ampla falha na rocha, através da qual um homem adulto conseguiria passar com cuidado. Parou, ponderando nas poucas hipóteses que tinha. Yudarh poderia estar em qualquer lado, e ele não fazia ideia da extensão daqueles caminhos. A probabilidade de se perder era enorme. Mas se não encontrasse o meio-demónio a tempo…

Encheu os pulmões de ar e esperou um segundo, antes de os esvaziar num súbito grito.

– Yudaaaaarh!

O grito ecoou nas paredes vazias, sendo pouco depois engolido pelo silêncio. Era uma péssima ideia, Ayalal tinha plena noção disso. Se o mestre o ouvisse, estivesse onde estivesse, outro tipo de coisa certamente o faria. Voltou a chamá-lo uma vez e depois olhou para os dois caminhos que tinha à escolha. Nenhum lhe parecia melhor do que o outro, por isso acabou por escolher a fenda, pela qual se infiltrou. Perscrutou cada metro em diante, enquanto tentava ouvir mais do que os seus passos e a própria respiração.

Caminhou talvez durante meia hora – não tinha completa noção do tempo que passara. Para além do seu campo de visão, onde tudo anteriormente fora breu, surgiu uma leve luminosidade. Ayalal franziu as sobrancelhas e parou, com uma mão apoiada na parede. Aguardou que a claridade revelasse ser mais do que uma luz ao fundo do túnel, porém ela não se moveu. A criança avançou com mais cautela, os passos tornando-se tão silenciosos quanto conseguia. Quando estava mais perto, apercebeu-se que a falha de alguma forma se abria para o compartimento donde vinha a luz e que esta parecia produzida pela própria rocha, que em algumas zonas se tornava azulada. Espreitou para ver melhor. A falha abria-se para um compartimento amplo de tecto alto. Uma dúzia de estalactites estendiam-se dele, tentando alcançar as estalagmites que cresciam sob elas. Um ou outra poça de água compunha o local. Para além disso, estava, aparentemente, vazio.

Saiu do interior da falha, sem conseguir disfarçar uma certa curiosidade por aquele estranho brilho. Evitou pisar as poças, porém não foi difícil as meias ficarem molhadas da humidade fria da pedra. Parrou por um momento, debruçando-se sobre um dos brilhos e percebendo que não era realmente a pedra que brilhava, e sim algo que estava colada a ela. Já vira coisas daquelas nas paredes da cidade, só não eram brilhantes. Pensou por um segundo, antes de acenar para si mesmo, ao lembrar-se do nome. Era um líquen, e aquele deveria ser mágico. O melhor era não tocar-lhe, ponderou.

Endireitou-se e voltou a olhar em volta. Mais à frente, a galeria começava a afunilar-se, formando uma nova passagem onde a luz morria. Atrás de si… franziu as sobrancelhas e regressou até junto da fenda na parede. Tocou com a mão pequena numa zona da pedra à altura da sua cabeça. Havia sulcos na rocha, sobrepondo-se em vários ângulos. Eram demasiado definidos para se confundirem com marcas naturais da pedra. Engoliu em seco. Lembravam demasiado estrias deixadas por garras de algo suficientemente forte para rasgar aquela dureza. Não vira nada daquilo durante a caminhada pela falha, por isso pertenceriam provavelmente a algo que tentara sair, mas não conseguira. Um dos monstros que vivia ali.

Contemplou o que o poderia esperar do outro lado. Uma centena de dentes famintos e garras que lhe rasgariam o corpo. Cerrou os punhos. Não podia acobardar-se. Se alguma coisa o tentasse atacar, ele limitar-se-ia a correr tão depressa quanto conseguisse para lhe fugir.

Resoluto, avançou para o outro extremo da galeria, contornando algumas das estalagmites. Atrás de si, deixou o gotejar esporádico da água que se infiltrava na montanha e, após uma inspiração, reentrou na escuridão. O túnel alargava-se consideravelmente daquele lado. Colunas espessas e meio disformes formavam apoios casuais entre o tecto e o solo. Ay atentou as paredes e o próprio chão, no entanto não viu sinal de outras marcas que pudessem denunciar um habitante obscuro.

O trilho encurvou, e a criança parou de repente à beira de uma descida a pique. Não lhe via o fundo. Hesitou, apoiando uma mão na parede. E se não conseguisse voltar a subir?

Por entre a indecisão, foi incapaz de perceber que alguma coisa se aproximara de si pelas costas. Só sentiu de súbito um dos pés a fugir-lhe do chão. Mas, nesse mesmo instante, mal tomou noção da dor da queda que deu para a frente, ou sequer do tentáculo que lhe prendia o tornozelo e o arrastava para trás. Na verdade, já não se encontrava de todo numa gruta escura, mas sim de regresso ao orfanato. Diante de si, Lysa jazia exangue, morta pela doença que a minara, e ele chorava como nunca antes havia chorado, enquanto uma dor terrível lhe rasgava o peito.

***

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR


Hendran insistira que Ay se deitasse e tentasse descansar. Ele limitara-se a lançar-lhe um olhar mortiço e abanar a cabeça numa negação. Sob as pálpebras, dois poços escuros falavam melhor do que qualquer palavra a respeito do cansaço da criança. Na verdade, o contraste com a pele pálida fazia-lo parecer mais doente do que alguns dos que padeciam da maleita.

Lysa passara a noite num sono inconstante repleto de murmúrios e esgares de angústia. Com o mimetizar exterior do nascer do dia, a luminosidade do quarto começara a crescer, assim como a sua inquietação. Ay cabeceava para a frente, lutando consigo próprio para não adormecer, quando a voz da amiga o despertou qual estalo no rosto.

– Larguem-me! – Lysa gritara e abrira os olhos, cuja atenção caiu sobre o rapaz ao seu lado. O medo inundou-lhe o rosto num reconhecimento que não era o suposto: via alguém que não era Ayalal. – Deixa-me, por favor! Isso magoa… por favor, por favor!

Soltou um soluço e tentou rastejar para longe dele. Por um segundo, Ay paralisou, chocado com tal reacção, e os músculos fraquejaram quando os tentou mover, doridos por tudo o que haviam passado nos últimos dias. No entanto, logo a seguir agarrou-a para a manter na enxerga.

Em resposta à prisão, as pálpebras de Lysa escancararam-se em puro terror. Ergueu uma mão trémula e pressionou-lha contra o rosto, tentando afastá-lo de si. Faltava-lhe porém a força.

– Lysa, sou eu – murmurou Ay, fechando um olho sobre o qual caíra um dedo magro. – Ninguém te vai fazer mal…

– Não, por favor! – implorava, as lágrimas começando a escorrer-lhe pelo rosto que se contorcia num choro sufocado. – Eu não fiz nada... larga-me, pai, larga-me! Não, não… Mãe, ajuda-me!

O rapaz fez o que pôde para a manter deitada, refreando-lhe as tentativas de o afastar, mas era difícil. O pânico dera-lhe uma falsa força e, apesar de Lysa não ser alta, ainda assim era maior do que ele, o que tornava mais difícil tentar contê-la. Acabou por, de alguma forma a largar e obrigá-la a sentar, só para a poder abraçar, fazendo por prender-lhe os braços contra o peito. Ela gritou de desespero, tentando escapar-se.

– Não vou deixar que te magoem – disse-lhe baixo, junto do ouvido, esperando que houvesse discernimento suficiente para o compreender. Pensou cada uma das palavras. – Estás segura aqui, nós protegemos-te. Somos teus amigos, a tua família. Ele não te fará mal, nunca mais.

Demorou até a jovem sossegar contra ele, levada por um choro que, devagar, se amenizou. Baixinho, Ay cantou-lhe uma música de embalar, a mesma que Lysa lhe cantava algumas vezes para o ajudar a dormir, esperando que isso fosse uma ajuda a sossegá-la. Quando achou que podia aliviar o aperto, o pequeno libertou um braço e afagou-lhe o cabelo num toque carinhoso mas algo trémulo, receando despoletar um novo ataque de alucinações. Por fim, também o choro terminou, deixando-a num sono exausto, aconchegada nos seus braços mais pequenos. Com ajuda de Hendran, voltaram a deitá-la na enxerga.

De mente esgotada por tudo o que se passara, Ayalal saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Lá fora, caminhou lentamente pelo corredor sombrio, os punhos cerrados com tanta força que as extremidades das unhas o magoavam. De súbito, parou e esmurrou a parede ao seu lado. A dor do impacto entranhou-se-lhe pelos ossos, porém foi um alívio breve ao que sentia. Inspirou fundo e engoliu em seco. Não percebia como é que não havia ninguém que os pudesse ajudar. O clérigo falhara de todas as vezes; no dia anterior ouvira Drane a contar a Hendran que os curandeiros, sabendo disso, se haviam recusado a ver as crianças, e que tinham sugerido que fossem levadas para fora da cidade, para não contaminarem os restantes cidadãos. Estavam a condená-los, não se atreviam sequer a tentar! Rosnou por entre os dentes, sentindo raiva dessas diabólicas pessoas, raiva do pobre rato que deveria ter causado aquela epidemia, raiva dos deuses a quem teciam preces, mas que na verdade eram incapazes de ajudar um bando de crianças…

Voltou a esmurrar a parede e a dor fez com que os pensamentos parassem por instantes, para a seguir ficarem a pairar na consciência. Havia neles algo de importante, sentiu, alguma coisa que lhe estava a escapar. Concentrou-se, resistindo à raiva que queria tomar posse dele. Quando se apercebeu do que era, os olhos arredondaram-se. Sentiu-se estúpido por não se ter lembrado antes.

Um instante depois, galgou pelos degraus abaixo e precipitou-se para a porta, saindo a correr para o frio da cidade, sem sequer se calçar. Atrás de si, a porta ficou aberta.

***

Mosteiro das Sete Formas, 20 de Neth de 4592 AR (continuação II)


A noite acabara de cair na cidade subterrânea, quando Hendran se apercebera que a expressão de Pather se descontraíra… e que o rapaz deixara de respirar. Tentaram reanimá-lo, porém fora um esforço infrutífero. Apesar de não ter qualquer vontade de se aproximar do corpo, Ayalal viu-se obrigado a ajudar a deslocá-lo até ao andar térreo, pousando-o junto ao altar da Avó Corvo e cobrindo-o com um lençol. O olhar divino velar-lhe-ia a alma pela noite adentro. Ay ficou quieto e em silêncio, enquanto a directora e Hendran rezavam uma prece murmurada a Andoletta. Não era capaz de olhar para o incaracterístico volume deitado no chão frio sem que uma onda de terror o submergisse. Era como se nada conseguisse deter a doença, como se cada um dos enfermos tivesse a sentença ditada.

Horas depois, quase como confirmação desse pensamento, um segundo corpo juntou-se a Pather. Após uma convulsão que lhe arqueara as costas de forma quase sobrenatural, a vida abandonara o corpo da rapariga que tivera o ataque de espasmos durante a manhã. Ver uma mulher quase adulta a perecer arruinava qualquer esperança que pudessem ter. Tentaram retirar o corpo sem acordar os que já dormiam ou estavam tão doentes que a consciência pairava entre uma realidade nublada e o delírio da febre.

Ainda não tinham atingido a madrugada do dia seguinte e já o quadro geral os devastava: os doentes que estavam mal haviam piorado para o estado que antecipara a tragédia. A febre subira e não parecia haver forma de querer baixar, as dores faziam-nos gemer numa sinfonia de horror, e os murmúrios desconexos abalavam quem os escutava.

Foi impossível para Ayalal conseguir dormir. Um nó de aflição esmagava-lhe o peito, tornando quase difícil respirar. Por isso, sob a luz trémula de uma vela, manteve-se sentado junto da amiga, refrescando-lhe o rosto com um trapo molhado, enquanto as horas rastejavam pela noite.

***

Mosteiro das Sete Formas, 20 de Neth de 4592 AR (continuação)


Quando entrou na cozinha, Ayalal deparou-se com um dos rapazes a empunhar firmemente o atiçador da lareira, e uma rapariga a segurar na vassoura, um passo atrás dele, enquanto observavam de olhos semicerrados um armário alto que se erguia encostado a um canto.

– Foi lá para baixo, eu vi! – disse outro dos órfãos, ajoelhando-se e quase encostando o rosto ao chão para espreitar. – Está lá, sim. Tenta tirá-lo com a vassoura.

– E se a coisa salta para cima de mim?! – perguntou a rapariga, chocada. – Eu dou-lhe com a vassoura se ele tentar sair…

Ayalal ponderou seriamente em deixá-los entretidos com fosse qual fosse o bicho que haviam encontrado. No entanto a sua consciência não o deixaria em paz se não soubesse o que poderia ser, principalmente havendo um quarto cheio de doentes por cima da cabeça de todos eles.

– O que se passa? – perguntou, após o segundo que usara para ganhar coragem.

Seis cabeças rodaram e olharam-no por cima dos ombros.

– É um rato gigante – disse a rapariga, muito depressa. – Estava escondido na despensa e, quando fui lá, fugiu.

Ayalal não acreditava que o animal fosse assim tão grande. Mas, segundo ouvira dizer, os ratos podiam causar muitas doenças, e se esse estivera escondido no sítio onde guardavam a maior parte dos alimentos, havia a possibilidade de ser ele o culpado para o que se passava nos últimos dias.

– Dá cá isso. – Um dos outros rapazes arrancou a vassoura da mão da pequena e baixou-se junto ao armário, enfiando a extremidade inferior por baixo do móvel e empurrando com força.

Escutou-se um guincho fino e, num movimento rápido, o animal surgiu, correndo desenfreadamente para tentar escapar. O atiçador da lareira caiu na direcção dele, porém falhou o alvo, batendo antes na pedra fria e ressoando na cozinha.

O rato tinha o comprimento de uma mão adulta aberta e uma magreza doentia – um olhar mais atento detectaria com facilidade várias peladas que revelavam a pele ulcerosa que o cobria. Por um instante, ele olhou na direcção da porta, onde estava Ay, e depois na da janela fechada, medindo as hipóteses de fuga. Enveredou pela primeira opção.

O rapaz ficou parado, vendo-o correr para si. Uma parte da mente dizia-lhe que o correcto era matá-lo, outra sentia pena dele. Não passava de um animal inocente que, como todos eles, só deveria querer um local seguro para viver.

Porém, antes sequer de o animal o conseguir alcançar, uma vassourada caiu sobre ele, atordoando-o. Seguiu-se-lhe o atiçador, que lhe arrancou outro guincho, uma e outra vez. Por instantes, Ayalal desviou o olhar fechou os olhos, contendo um esgar. Nada merecia uma morte assim.

Quando o animal jazia sem vida, sobre a pedra fria, aproximaram-se todos, espreitando-o.

– E agora? – quis saber um dos órfãos que, até ao momento, fizera por se manter afastado.

– Tem ar de estar cheio de doenças – notou Ay, baixinho. – Pode ter sido ele que fez toda a gente ficar doente. É melhor… queimá-lo?

Para sua surpresa, ninguém discutiu a sugestão. O rapaz que segurava no atiçador (agora com um certo orgulho pelo feito), ao fim de três tentativas, ergueu o rato e equilibrou-o na ponta, até chegar à lareira, para dentro da qual o atirou. Ficaram a vê-lo arder, como um estranho e macabro espetáculo de fogo.

***

Mosteiro das Sete Formas, 20 de Neth de 4592 AR


O clérigo Itori regressou e voltou a partir, com um sincero e trémulo pedido de perdão. O seu feitiço divino, que deveria curar Pather, falhara. Depois disso, ainda desencantara um pergaminho do interior da mala a tiracolo que trouxera, e lera o feitiço nele embutido. As palavras emitiram um brilho amarelado, e consumiram-se pela magia, desaparecendo. No entanto, o resultado não fora diferente da primeira tentativa.

Após a saída do servo da deusa Sarenrae, a Directora ficara parada à porta do quarto, observando os acamados, a testa formando uma série de rugas firmes. Poucas eram as crianças cujo estado estava razoável: conseguiam alimentar-se, apesar de enfraquecidas, e erguiam-se sozinhas, se se esforçassem. Porém as restantes decaíam depressa. Cerrou um punho com força.

– Ayalal – chamou.

De onde estava, junto de Pather, o rapaz fingiu que não estivera a olhá-la discretamente. Hendran retirara-se há não muito tempo para recuperar das horas que passara em claro a cuidar do órfão.

– Sim, senhora Drane? – perguntou, deixando a tina de água em paz por um momento. Os dedos estavam dormentes da frieza em que mergulhavam. Apertou-os sobre as coxas, aguardando.

A directora levou uma mão ao queixo, hesitante e pensativa, depois abanou a cabeça numa negativa. Os ombros descaídos e as costas levemente vergadas denunciavam como a epidemia roubava forças à mulher de meia-idade, sem necessitar de a contaminar.

Afastou-se do quarto, sem nada mais dizer. Pouco depois, lá em baixo, Ay escutou uma das portas principais bater.

O tempo passou devagar. Ele foi cuidando de todos como podia, no entanto, ao dar mais atenção a Pather, acabava por inevitavelmente descurar outros. Só teve completa noção disso quando, a algumas enxergas de distância, ouviu um ofegar forte, seguido de movimentos rápidos. Assustado, ergueu-se de um salto, enquanto o olhar pulava de pessoa em pessoa, até se aperceber quem era. Correu para lá e, sem ter a certeza do que fazer, tentou agarrar o corpo da jovem que estremecia violentamente com convulsões. Falhou à primeira tentativa, mas à segunda prendeu-lhe os braços, mantendo-a de costas junto ao chão. Não conseguia fazer nada quanto às pernas que chutavam o ar e se contorciam, nem ao pescoço que por alguns momentos quase parecia deslocado.

– Hendran! – gritou Ay, aflito. – Hendran!

Não obteve resposta. Apesar da porta aberta, a outra rapariga estava a alguma distância, a recuperar da exaustão. Era pouco provável que o escutasse.

Por entre os espasmos, o corpo foi incapaz de controlar o interior, e foi possível primeiro ouvir e depois sentir o odor forte e repulsivo de dejectos e sangue. Ayalal conteve a respiração por uns segundos, obrigando-se a ficar ali, mentalizando-se de qual era a sua tarefa. Ao fim de não muito tempo, os espasmos começaram a diminuir. O rapaz não a largou. Deixou passar largos minutos, olhando o rosto avermelhado e suado da jovem, até os músculos pararem por completo. A medo, soltou-a, e, ao mesmo tempo, observou-a com muita atenção. Lembrava-se bem do que acontecera à bebé após a convulsão – acabara morta. Apesar do movimento ser fraco, o peito dela ainda se movia com a respiração.

Passando ambas as mãos pelo rosto lívido, Ay pensou no que fazer. A directora não estava, Hendran precisava de descansar, e pedir ajuda às outras crianças estava fora de questão. Não só correriam um risco maior de ficarem contaminadas, como duvidava que colaborassem sequer consigo. Mordeu o lábio inferior, controlando uma súbita vontade de chorar, e impedindo um soluço de se soltar.

O toque leve de uma mão nas suas costas fê-lo estremecer. Baixou as mãos e olhou para o lado, arregalando os olhos, meio assustado. Lysa fizera o esforço de se levantar e ir ter com ele, apesar de não conseguir sequer disfarçar os tremores do corpo.

– Eu ajudo-te – murmurou, muito baixo. As pálpebras fecharam-se por um instante. – Ainda consigo.

– Vai deitar-te! – Ficou quase em pânico por vê-la ali. – Não podes fazer esforços, ficas pior. Eu trato de tudo. Eu consigo.

Mais importante que ele próprio interiorizar isso, era fazer Lysa acreditar. A mão nas costas de Ayalal fez mais força, já não estando propriamente a dar-lhe apoio, mas mais a apoiar-se para não tombar.

– Ay, não quero que faças tudo sozi… – começou a dizer, no entanto interrompeu-se para engolir em seco, levando uma mão à zona do estômago. Inspirou devagar, provavelmente tentando controlar as náuseas.

– Cuidas sempre de mim. Desta vez sou eu – disse Ay, dando um tom decidido às palavras.

Ela ia argumentar, mas levou a mão livre à boca. Apesar de contrariada, o rapaz conseguiu levá-la para a cama, devagar. A seguir foi buscar água e toalhas limpas e, embora o embaraço por tal tarefa não fosse pequeno, tratou da outra rapariga o melhor possível, despindo-a e limpando-a. O pior, ainda assim, era o fedor a sangue que o desafiava. No entanto, resistiu.

Lysa observara-o da sua enxerga. Quando Ayalal terminou, lançou-lhe um sorriso breve de encorajamento, ao qual ele tentou retribuir, mas não conseguiu. A criança preparava-se para se sentar a um canto e descansar por meia dúzia de minutos, quando ouviu um guincho, abafado pela distância, vindo do andar inferior.

***

Mosteiro das Sete Formas, 19 de Neth de 4592 AR (continuação II)


O clérigo prometera voltar logo pela manhã do dia seguinte, para tentar um novo feitiço. Ay e Hendran, a única jovem que, por milagre, ainda não havia adoecido, continuaram a cuidar dos doentes, enquanto a directora tirara algumas horas para tratar da vida que se perdera. O sossego que tiveram foi pouco.

Após ter entrado no quarto, o rapaz forçou-se a permanecer e suportar o odor a sangue que lhe remexia com os sentidos. O choque inicial passara, no entanto a perturbadora sensação de que tinha diante de si um banquete onde não poderia tocar horrorizava-o. Repetiu mentalmente que nada era mais importante que ajudar no que pudesse, por quem estava doente… pela pessoa que mais o amara durante aqueles anos.

Depois de ter tentado alimentar toda a gente, e de se obrigar a comer também um pouco do jantar, Ayalal deitou-se no chão, ao lado da enxerga de Lysa. A amiga estava acordada, observando-o com uma aparente dificuldade em manter os olhos abertos. Forçou um sorriso na direcção de Ay e deixou uma mão escorregar pelo chão na direcção dele, vacilante. Ele pegou-lhe com ambas as suas, mais pequenas, amparando-lhe a tremura. Uma humidade fria e doentia apoderara-se dela. Encostou-a ao seu rosto e aos lábios, tentando passar-lhe um pouco do seu calor.

– Desculpa, pequenino – murmurou, tão baixo que seria difícil alguém ouvir, para além dele. – Estou a dar-te tanto trabalho…

– Não penses nisso. – Manteve a mão dela encostada a uma bochecha. – Queria fazer mais, mas não consigo, Lysa.

– Tonto… já fazes demasiado. És só uma cri… – O sorriso esmoreceu por um momento, sendo substituído por um esgar de dor e a mão retraiu-se entre as dele. Ela reteve a respiração e fechou os olhos com força.

Ayalal semi ergueu-se do soalho, preocupado, apoiando-se num cotovelo.

– Lysa, posso…

– Não – arquejou – Já passou… já passou… não é nada de mais…

Mas era, e ele não sabia como ajudar. Podia rezar a todos os deuses, mas se algum quisesse realmente socorrê-los, já o teria feito. Estavam por sua conta. Quando a expressão da amiga descontraiu um pouco, Ayalal voltou a pousar o corpo no chão. Porém, no peito o coração ainda batia descompassado, temendo por ela.

As duas velas que iluminavam parcamente o quarto apagaram-se. Ay continuou a observar Lysa, apesar de agora ela ser incapaz de o ver.

– Não queria que tivesses de passar por isto – murmurou a jovem, por entre os gemidos baixos que, por si só, se tinham transformado numa espécie de atmosfera. – És só uma criança, e tão pequena.

Com cuidado, Ay largou a mão que segurava e empurrou-a de volta para a enxerga, tapando-a também com o cobertor. A seguir acariciou-lhe o rosto, tocando a cicatriz que a marcava. Lysa fechara os olhos e a respiração tornara-se mais suave.

– Eu também não queria que passasses por isto – respondeu. Não obteve resposta. Lysa cedera ao cansaço e acabara por adormecer, ainda que desassossegada.



De madrugada, Ay deu um salto do canto onde dormia, ao escutar um guincho de pânico. Olhou em volta, tal como alguns dos que haviam também acordado sarapantados, sem perceber o que se passava. Acabou então por detectar um trémulo braço erguido – Pather apontava para o tecto, horrorizado, ao mesmo tempo que se tentava sentar. As dores, no entanto, não lho permitiam, obrigando-o somente a contorcer-se e a arrastar-se, tentando fugir.

Ayalal ergueu o olhar para o tecto, descobrindo que estava vazio, como sempre estivera. E mesmo que não estivesse, por entre a escuridão, outra pessoa seria incapaz de ver fosse o que fosse.

– Ajudem-me! – O grito de Pather encheu o quarto. – Ela vai devorar-me, sal…salvem-me!

Passos rápidos percorreram o soalho e a porta abriu-se, deixando entrar uma nesga de luz fraca. Um vulto saiu, regressando pouco depois com uma vela acesa. Os que estavam mais perto puderam então testemunhar o puro terror com que o rapaz fixava o tecto, os olhos tão abertos que ameaçavam saltar das órbitas.

Ay levantou-se e saltou por cima de Lysa para chegar ao órfão. Tocou-lhe na fronte, somente para confirmar a forma como a febre lhe havia tomado a mente e distorcido a realidade.

– Hendran, água fria! – pediu Ay, agarrando-o para impedir que fugisse da enxerga. Pather esbracejou, atingindo-o ainda com uma cotovelada no queixo, porém a sua força estava tão deteriorada que pouco lhe doeu. – Nós estamos aqui para e ajudar, não vamos deixar que a coisa te faça mal.

A outra jovem havia já ido buscar a tina com água e pousava-a do outro lado do rapaz. Ensopou o trapo e passou-lho no rosto, enquanto Ayalal o prendia e forçava a deitar-se. Não era fácil, a inquietação dos delírios tornavam-no como cego e surdo a tudo o que não fosse a criatura imaginária que o atacava. Os minutos passaram-se, longos. Alguns dos doentes continuaram a observá-los, enquanto outros voltavam-lhes as costas e encolhiam-se sobre a roupa da cama. Pather acabou por se acalmar, em parte por exaustão, em parte pelo pano frio que se esforçava por arrefecê-lo.

Por fim, Ay largou-o, sentando-se no chão e enchendo os pulmões de ar. Suava por todo o lado, de nervosismo e cansaço. Levou ambas as mãos as rosto, deixando-as esconderem-lhe os olhos e o esgar de frustração.

– Vai dormir, pequeno.

Ayalal entreabriu os dedos, e espreitou Hendran. Tinha, talvez, mais um ano do que Lysa, mas o cabelo em desalinho e as olheiras profundas envelheciam-na muito além disso. Uma parte de si queria insistir e mantê-lo acordado, a outra só ameaçava cair para o lado para dormir e não mais acordar. Após uma hesitação, acabou por assentir e arrastou-se até ao seu cobertor. Não deu conta de ter adormecido.

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