Mosteiro das Sete Formas, 1 de Kuthona de 4592 AR (parte I)


Ay pegou numa pequena cesta que estava guardada na despensa, indo ter com Lysa à porta principal, meio a correr. Quando a alcançou, deu-lhe a mão e saíram para a cidade.

Nos dias que se seguiram à vinda de Yudarh, Ayalal não voltara a sentir a estranha presença fantasmagórica. Tal como antes, ajudara nas tarefas do orfanato, porém com mais ânimo, devido às melhoras que os feitiços haviam operado na sua amiga. O estranho de nome Dariun, após a sua terceira visita ao orfanato, despedira-se, sem aceitar qualquer pagamento por parte da Directora, e nunca mais fora visto nas redondezas. 

No primeiro dia em que Lysa se pudera levantar e andar pela casa, tinham ido ambos rezar a Andoletta. Durante esse momento a sós, Ay contara-lhe a respeito de quem os havia ajudado. Omitira a parte da criatura que quase o devorara – ela não precisava de mais essa preocupação, nem de saber que as lendas sobre garras sem dono que puxavam quem passava para a escuridão eram mais do que imaginação. E agora que Lysa estava quase recomposta, poderiam ir visitar Yudarh.

Pelo caminho, pararam junto a uma banca e compraram meia-dúzia de peças de fruta com algum dinheiro que Lysa juntara nos últimos tempos. A grande maioria dos alimentos vendidos na cidade era dispendiosa, devido ao processo de importação que sofria. Não crescia muito mais do que fungos e líquenes sob os cumes das Montanhas da Beira do Mundo, e sobre eles o ambiente era demasiado inóspito para a maioria das plantas e animais perdurarem, exceptuando num lugar. Na superfície existia um antigo mosteiro de monges, o qual dera o nome à cidade. Ayalal ouvira dizer que, no seu interior, havia um maravilhoso jardim habitado árvores milenares capazes de tocar a Esfera Exterior, onde os deuses habitavam. Os seus frutos eram por isso abençoados, e só os monges se alimentavam deles.

Suspirou, enquanto via Lysa pagar pela fruta meio enfezada. Seguiram então caminho até casa do mestre Yudarh. Quando atravessaram a encruzilhada, Ay fitou o túnel onde a escuridão densa se perdia de vista. Dentro de si revolvia-se um sem número de questões a respeito de todo o tipo de coisas que poderiam viver nas profundezas e de que forma Yudarh as mantinha afastadas da população dispersa da cidade, se teria ajuda de outros guerreiros ou magos… e se o seu pai poderia viver ali. Não tinha a certeza se queria saber a resposta a essa última questão.

Lysa bateu à porta e esperaram. Passaram-se talvez dez minutos, até Yudarh aparecer. Ay perguntou-se se ele faria de propósito para demorar tanto tempo, de forma a desencorajar as visitas; se estaria a fazer algum tipo de experiência e precisaria de tempo para arrumar os utensílios mágicos; ou se simplesmente estaria a dormir.

O meio-demónio olhou de um para o outro, com a sua expressão quase sempre séria e desagradada. Lysa respondeu-lhe com um sorriso amplo. Ele acabou por revirar os olhos e soltar um suspiro, dando-lhes passagem, sem qualquer palavra, antes de fechar a porta atrás de si.

– Trouxemos alguma fruta. Precisa de se alimentar bem, mestre – notou Lysa, quando entrou na sala. Ay pousou a cesta sobre a mesa, enquanto lançava uma mirada curiosa em redor. Encontrou o bastão, que agora sabia ser realmente mágico, encostado no canto do costume.

Yudarh parou junto da mesa, espreitando o interior da cesta antes de fitar os recém-chegados com uma certa descrença.

– Não sou eu que preciso de me alimentar bem, Lysa – fez notar. – És tu e esse pequeno pirralho.

– Nós alimentamo-nos – garantiu Lysa. – Mas queremos agradecer-lhe pelo que fez. Isto não é nada comparado com as vidas que salvou. É só… um pequeno gesto. Por favor, mestre.

Yudarh coçou uma bochecha com as garras de uma das mãos e acabou por fazer um gesto resignado para que deixassem ficar a fruta por ali.

– Já que vieram, sentem-se. Vou fazer-vos um chá – disse, voltando-lhes as costas e dirigindo-se a um armário.

Lysa e Ayalal entreolharam-se, estupefactos. Aquela atitude era, decerto, estranha. Ele nunca lhes oferecera um chá.

Yudarh pôs ao lume uma chaleira com água, antes de voltar para junto deles. Fitou Lysa com mais atenção.

– Como te sentes?

– Muito melhor. Tenho os músculos ainda doridos – confessou a jovem, apoiando os braços na mesa. – E não consigo fazer esforços durante muito tempo. Mas, tirando isso, estou bem. Devo-lhe isso.

– Não fiz mais do que aquilo que estava ao meu alcance. Não foi nada particularmente difícil – notou, desviando a atenção para a criança entre eles. As suas íris de um vermelho intenso perscrutavam-no de forma tão intensa que a criança baixou o olhar. – O Ayalal fez muito mais do que eu, e é graças a ele que estás viva.

– Não – murmurou Ay, abanando a cabeça, enquanto fitava as mãos. – Foi eu que causei a doença, não fui? Não foi o rato, pois não?

Uma das sobrancelhas do tiefling ergueu-se, enquanto Lysa piscou as pálpebras, incrédula.

– Podes repetir, Ayalal? – As garras de Yudarh tamborilaram sobre a mesa, produzindo um ruído que, no silêncio, parecia quase uma ameaça.

O rapaz encolheu o pescoço e as mãos crisparam-se nos joelhos.

– Foi culpa minha, por eu ter sangue de vampiro. Devo ter passado alguma doença…

– Oh, pelos deuses, rapaz! Que raio de ideia é essa? – perguntou Yudarh, erguendo-se num movimento rápido.

Ay encolheu-se mais, temendo que ele lhe fosse bater, porém o tiefling afastou-se com passos largos até à estante que continha a sua colecção de livros. Correu os olhos pelas lombadas e acabou por tirar um tomo pesado. Abriu-o nas primeiras páginas, folheando-o depressa. Depois voltou à mesa e pousou-o diante da criança.

– Vês aqui alguma coisa que diga que os vampiros, por defeito, sejam portadores de doenças contagiosas? – perguntou-lhe, sem paciência.

A criança espreitou o livro, olhando primeiro para uma bonita mas já antiga ilustração de um homem de porte elegante, muito pálido e de incisivos salientes. Depois olhou para a restante página cheia de palavras escritas numa letra fluída.

– Ah, mestre Yudarh… – Lysa ergueu um dedo, fazendo-o desviar a atenção para si. – As Letras não são ensinadas às crianças do orfanato. O Ay não sabe ler.

Yudarh respirou fundo e fechou os olhos por um segundo, pousando dois dedos na fronte.

A voz de Ayalal soou a medo, baixinho.

– Pode ensinar-me, mestre?

O crepitar do fogo acompanhou o silêncio que seguiu a questão. Lysa olhou para o interpelado, expectante.

Yudarh desviou o olhar para a chaleira cuja água começara a ferver. Passou uma mão pelo cabelo branco e rangeu os dentes. Nesse instante, a sua expressão pareceu perder parte da severidade, como se ele próprio estivesse cansado dela.

– Posso tentar, Ayalal.

*

Mosteiro das Sete Formas, 22 de Neth de 4592 AR (parte I)


Ay acordou com um estremecimento. Abriu os olhos e ergueu um pouco a cabeça para olhar em volta. Continuava deitado no chão, ao lado de Lysa. Alguém se dera ao trabalho de o tapar com uma coberta pesada, a qual o aquecera durante as horas que haviam passado. Ainda se sentia cansado e de membros doridos, mas a mente pesava-lhe muito menos. Olhou para a amiga, deitada ao seu lado e estendeu a mão para lhe tocar a fronte. Pelo menos a febre parecia ter desaparecido por completo. O rosto descontraído levava-o a crer que o sono era pacífico, livre da maior parte das dores e pesadelos.

Baixou a mão e olhou para além de Lysa. Com passos silenciosos, Hendran movimentava-se entre os órfãos, mudando panos molhados, verificando o seu estado de saúde e se precisavam de outro tipo de atenção. Não havia sinal nem de Yudarh nem da Directora Drane. O rapaz observou as velas, tentando perceber pelo seu tamanho quanto tempo poderia ter passado – não passavam de pequenos cotos cujo pavio ameaçava apagar-se daí a não muito tempo.

Ergueu-se com cuidado e fez um leve aceno com a mão quando Hendran se apercebeu que ele acordara. Foi até à gaveta onde guardavam as velas e tirou duas, indo, com cuidado, substituir as que já tinham quase acabado. Pelo caminho, o seu estômago soltou um audível gorgolejo de fome. Há quantas horas não mordiscava um pedaço duro de pão?

– Há caldo na cozinha, ainda deve estar morno – murmurou Hendran, lançando-lhe um sorriso leve.

O pequeno não pensou duas vezes. Depois de tratar das velas, apressou-se até ao piso inferior. A cozinha estava silenciosamente vazia. A noite deveria ir já avançada para não haver por ali nenhuma criança. Foi até à panela ampla, ainda sob as achas mornas, serviu-se do caldo e devorou-o sem sair do lado da lareira. Serviu-se uma segunda vez, pescando um ou outro pedaço extra de carne cozida, e dessa vez foi sentar-se no banco corrido. Comeu mais devagar, saboreando o caldo enxabido e pensando em tudo o que acontecera nas últimas horas em que estivera acordado. Sorriu para si. Pelo menos conseguira ajudá-los de alguma forma.

Ao acabar o jantar tardio, lavou a sua tigela e voltou para o quarto, indo ajudar a jovem que vigiava os doentes.

*

Yudarh regressou ao amanhecer, quando Ayalal e a senhora Drane (que substituíra Hendran, para que a rapariga pudesse dormir), eram os únicos despertos. Como no dia anterior, o meio-demónio, sob o seu disfarce, voltou a observar os doentes e, desta vez, não só lançou dois feitiços a seis diferentes enfermos, como, no fim, voltou a observar os que já tratara antes. De dentro da capa que trazia sobre os ombros, retirou um graveto fino, não muito direito, e fez uma pergunta à directora. Esta indicou-lhe as enxergas daqueles que sofriam ou davam indícios de ter alguma hemorragia intestinal, e foi a esses que o tiefling se dirigiu.

À distância, Ayalal observava-o, atento. Tinha a certeza que aquilo só poderia ser uma varinha mágica – nunca vira de perto uma que fosse real. Yudarh baixou-se e tocou com o graveto no doente mais próximo. Os lábios moveram-se, formando uma rápida palavra de comando, e a ponta da varinha soltou um brilho branco. 

Junto do pequeno, Lysa remexeu-se sob a coberta e soltou um leve mas dorido gemido. A atenção dele focou-se de imediato na amiga. Ela piscou as pálpebras, e levou uma mão ao rosto, esfregando os olhos.

– Lysa…?

A jovem baixou a mão ao escutá-lo e rodou a cabeça para ele, fitando-o com uma expressão algo confusa. Os segundos em que ficou em silêncio pareceram demasiado longos para Ayalal. O rapaz conteve a respiração, temendo que outra crise de alucinações a tomasse.

– Ay... o que aconteceu?

Aliviado, Ayalal libertou o ar que havia retido nos pulmões. Levou uma mão pequena ao peito e sorriu-lhe com carinho.

– Estiveste muito doente. Mas agora já estás melhor, e vais ficar boa – disse. E, ao escutar-se, sentiu-se como um pequeno adulto.

Lysa suspirou, lançando uma mirada vaga ao tecto, e depois às restantes pessoas presentes no quarto. Focou o olhar em Yudarh, as sobrancelhas franzindo-se um pouco.

– Quem é? – murmurou, num tom algo vago. A sua mente estava ainda demasiado difusa para que a presença de um desconhecido a incomodasse realmente. Era quase como uma curiosidade.

Ayalal hesitou. Por um lado não se sentia no direito de denunciar o disfarce de Yudarh, por outro não achava justo que a amiga ficasse na ignorância.

Começara a debruçar-se, de forma a poder segredar-lhe ao ouvido, quando um estranho arrepio lhe percorreu o corpo. Endireitou-se de imediato e rodou a cabeça de um lado para o outro, procurando uma explicação para aquela sensação. Parecia tudo dentro do normal – os doentes descansavam nas suas enxergas, Yudarh estava junto de outra criança, enquanto a directora observava. No entanto, sentia os pelos dos braços eriçados sob as mangas da camisola. Passou uma mão pela nuca, erguendo os olhos para o tecto. Era uma sensação similar à que sentia quando as outras crianças o observavam discretamente, mas desta vez não havia ninguém a observá-lo. Engoliu em seco, quando uma ideia assustadora o assaltou. Seria a alma invisível de algum dos mortos que ficara presa ao quarto?

– Ay? O que se passa?

O rapaz baixou o olhar para Lysa, tentando disfarçar a sua repentina apreensão.

– Eu… depois explico – murmurou. Não conseguiu impedir-se de voltar a olhar em volta, agora mais discretamente.

*

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR (parte VI)


Ayalal ergueu o punho para bater à porta, porém, antes de chegar a tocar na madeira, Yudarh agarrou-lhe o braço e baixou-o com cuidado. Em vez da criança, foi o tiefling que bateu, com bastante mais força do que o pequeno seria capaz. Aguardaram por um bocado até a porta se abrir num movimento abrupto.

Desconcertado, o olhar da senhora Drane focou-se, por um momento, na figura desconhecida, antes de se aperceber da presença do órfão descalço. Os lábios formaram uma linha apertada, antes de falar.

– Agradeç…

– Encontrei esta criança a correr a cidade, meio desesperada, à procura de um curandeiro. Vim ajudar no que puder. – Yudarh interrompeu-a, num tom firme e grave.

A directora piscou os olhos, meio atordoada com a forma directa como o homem falara.

– O que… quem é o senhor? – quis saber, franzindo o sobrolho.

– Sou um viajante, com alguns poderes curativos. Mas se os meus serviços não forem realmente necessários… – Recuou um passo e chegou mesmo a dar meia volta.

Ay arregalou os olhos, o coração falhando um batimento.

– Não! – A directora esticou a mão, mas conseguiu impedir-se de o agarrar pela capa. Yudarh olhou por cima do ombro, erguendo uma sobrancelha. – Peço perdão. Agradecemos qualquer auxílio que nos possa prestar, senhor – hesitou, sendo óbvia a sua dúvida. – Mas o clérigo mais apto da cidade foi incapaz de nos ajudar. E não sei se temos como pagar-lhe…

O tiefling abanou a cabeça, afastando a menção de pagamento.

– Permita-me examinar os casos mais graves e farei o que puder.

Apesar da incerteza, a senhora Drane acabou por dar passagem a ambos, fechando a porta atrás de si. Vários pares de olhos espreitaram da cozinha, silenciosos. Yudarh lançou-lhes uma mirada vaga, enquanto seguia a directora.

– Porque nome o poderei tratar, senhor?

– Daryun – apresentou-se. – E este rapaz precisa de descansar. Está mais do que esgotado, senhora.

Drane suspirou, lançando um olhar a Ayalal.

– Esse rapaz já se esforçou demasiado nestes últimos dias – notou. – E parte da culpa disso é minha. Mas acredito que ele só conseguirá sossegar ao lado de uma das nossas jovens, quando ela estiver melhor.

O rapaz fez um aceno de confirmação. Já deixara a amiga sozinha demasiado tempo. E se tivesse piorado ainda mais? A súbita ansiedade fê-lo passar à frente de ambos e correr escadas acima.

– Ayalal!

A voz da directora perdeu-se atrás dele. A criança tropeçou no penúltimo degrau, levando as mãos ao chão para se apoiar e impedir-se de se estatelar, e continuou até à porta do quarto, onde estacou, o olhar precipitando-se para a enxerga de Lysa. A amiga estava deitada de lado, encolhida sobre si. Ofegava baixinho por entre os lábios semi-abertos. Ayalal ajoelhou-se ao lado dela, levando-lhe uma mão à fronte febril. O pano húmido que estaria a tentar aplacar-lhe a subida da temperatura havia deslizado para o chão.

Atrás dele, a senhora Drane e Yudarh entraram no quarto. A directora indicou ao homem as três enxergas onde jaziam os doentes mais graves, entre as quais estava a de Lysa, que era também a mais próxima. Ele abeirou-se, levou um joelho ao chão, ao lado de Ayalal, e pousou o bastão entre ambos.

– Eu trato dela – disse, num tom baixo, dirigindo-se mais à criança do que à directora. – Daqui a uns minutos já estará melhor. Mas precisará de descansar. Tal como tu. Se ela ficar preocupada com o teu bem-estar, piorará, por isso trata de dormir, Ayalal.

O rapaz não disse nada, mas o aceno lento confirmou que o ouvira. Retirou a mão da fronte de Lysa e afastou-se um pouco, dando-lhes espaço.

Yudarh procedeu a um pequeno exame, obrigando-a a deitar-se de ventre para cima. Ao sentir o movimento, as pálpebras de Lysa arrastaram-se morosamente e os olhos abriram-se. Fitou cada um deles, no entanto não houve qualquer reconhecimento no seu rosto, só aquele estranho medo, como se lhe pudessem fazer mal.

Após o exame, o tiefling sussurrou algumas palavras e as mãos recriaram um conjunto de movimentos fluídos que demoraram poucos segundos. A seguir pousou a mão esquerda sobre a fronte de Lysa e disse uma última palavra. Um brilho fraco emergiu de sob a palma, para desaparecer pouco depois. A jovem não tentou fugir. Na verdade, quando a luz se esvaiu, as suas pálpebras descaíram num movimento lento, e fecharam-se por completo.

Ayalal sobressaltou-se, os olhos arredondando-se de terror, enquanto os dedos se crispavam no tecido das calças.

– O que se… – começou a directora, também assustada.

– Está tudo bem. A doença foi removida e ela adormeceu devido à exaustão – informou Yudarh, após retirar a mão. – Mas a jovem continua fraca. Vou tentar restaurar um pouco da sua força, porém precisará de repouso absoluto. Todos eles. Se insistirem em levantarem-se, não o permita, directora, a não ser para fazerem somente as necessidades básicas. Por hoje conseguirei tratar de seis dos casos, no máximo.

A senhora Drane respondeu um “sim, senhor” murmurado, enquanto o via iniciar um novo feitiço, este um pouco mais demorado que o primeiro.

Quando deu por terminado o caso de Lysa, dirigiu-se à próxima enxerga, repetindo o procedimento. Ayalal pouca atenção lhe prestou, voltando a aproximar-se da amiga para a observar de perto. O rosto descontraíra-se para uma expressão esgotada mas pacífica e o corpo deixara de tremer daquela forma descontrola. Um vacilante sorriso de alívio despontou nos lábios da criança, e duas lágrimas escaparam-se-lhe pelos cantos dos olhos. Apressou-se a limpá-las à manga da camisola, não fosse Lysa acordar de repente e as visse.

Minutos depois, Yudarh ergueu-se de junto do último caso ao qual podia prestar ajuda naquele dia, para observar as restantes crianças, ao mesmo tempo que dava algumas recomendações à directora. Por fim, fitou o local onde estava Ayalal. O pequeno jazia deitado e meio encolhido, ao lado de Lysa, e ambos dormiam. O meio-demónio sorriu para si.

*

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR (parte V)


Antes de iniciarem a caminhada, Yudarh deixou a criança acalmar-se, aproveitando para lhe examinar as escoriações causadas pela criatura.

– O que era aquilo? – murmurou Ay, não conseguindo deixar de olhar para o corpo caído.

O tiefling não lhe respondeu logo. Tocou-lhe no queixo arranhado e murmurou um feitiço. O rapaz sentiu uma ligeira comichão no ferimento para, de seguida, o ardor começar a desvanecer-se. Permaneceu somente uma sensação de dormência. O mesmo aconteceu com os restantes arranhões e nódoas negras.

– Aquilo – começou, endireitando-se devagar. A sua expressão contorceu-se num esgar de desgosto e simultânea repulsa. – É uma aberração criada pelos drow. Chamam-lhe irnakurse, que na nossa língua significa “perfeitos”. Do que já investiguei e observei, acredito que antes pudesse ter sido um elfo que sofreu todo um processo de tortura insana num dos seus laboratórios, que o transformou naquilo: uma abominação repleta de raiva, de mente e espírito quebrados. Uma pobre alma que sofreu mais do que alguma vez deveria ser permitido.

Drow… Ayalal não sabia exactamente o que eram mas, pela forma como a mão de Yudarh se crispara no bastão ao explicar-lhe a origem do monstro, eram seres muito maus. Olhou a criatura que o tentara devorar, agora com uma palpitação de pena no peito. Quem teria sido no passado? Onde estaria a sua família?

– Esses Drow vivem aqui? – murmurou, preocupado.

– Não “aqui”. Vivem num local muito mais profundo, as Terras Negras, que têm ligação com algumas destas grutas. Foi daí que o irnakurse veio, em busca de comida, imagino.

Enquanto Ayalal estava distraído com a nova informação, o meio-demónio moveu uma mão num gesto ligeiro e recitou meia dúzia de palavras. As nódoas de sangue e uma grande parte da sujidade que manchava a pele e roupa da criança desapareceram.

Não se demoraram muito mais. No regresso, Ay pôs de lado o assunto do irnakurse e contou-lhe o que sabia sobre o que se passava no orfanato: o número de doentes, os sintomas, as mortes, a incapacidade do clérigo de as curar, o rato que as outras crianças tinham encontrado. Yudarh movia-se com a segurança de quem era familiar com o local, simultaneamente atento ao que o rapaz dizia e ao que os rodeava.

Por fim, a luz fraca das tochas anunciou-se à distância, conferindo ao negrume um fraco tom alaranjado que era mais animador do que Ayalal imaginara. Tentou andar mais depressa. Quando estava em plena escuridão, a sua visão fazia com que tudo ficasse numa mistura perturbadora de preto e branco.

Ao irromperem para o centro da encruzilhada, a criança inspirou fundo. Teve vontade de se sentar no chão, mesmo ali, e não se mexer durante um bom bocado. As pernas ameaçavam não o suster de pé, e ele não estava certo de quanto mais aguentariam.

– Ayalal.

A criança ergueu o olhar encovado para Yudarh, e os olhos piscaram, focando mais do que a vista. A súbita segurança que a presença de Yudarh conferia fizera com que a sua mente perdesse o estado de alarme e começasse a avançar para uma letargia de exaustão.

– Sim, Mestre?

– Fora deste túnel vou ser um viajante que encontraste enquanto procuravas ajuda na cidade – disse o tiefling, muito sério. – Não sabes o que sou, donde venho, nem sequer o meu nome.

Ay franziu um pouco as sobrancelhas. A ideia de que o Mestre Yudarh os ajudaria numa espécie de anonimato incomodava-o. Ele merecia que o reconhecessem como alguém que fazia o bem, não como um ser demoníaco que muitos pensavam que era.

– É o melhor. Não queremos alimentar a imaginação fértil e muitas vezes rebuscada do povo – notou o adulto.

– Mas ainda tem… – A criança apontou para os chifres, algo hesitante. – Como…?

Um pequeno sorriso ergueu um dos cantos dos lábios de Yudarh. Num gesto rápido levou a palma da mão livre ao peito e fez os dedos terminados em garras deslizarem até à base do pescoço. Sussurrou quatro palavras e, de seguida, afastou a mão. Por um fugaz instante, foi possível antever-se um emaranhado de energia que o corpo assimilou de imediato. De forma gradual, o tom avermelhado da pele de Yudarh foi absorvido por um castanho claro; os olhos outrora vermelhos, ganharam um tom também ele castanho mas mais claro, quase como dourado; chifres, garras, cauda e cascos desapareceram como se nunca tivessem existido; o cabelo passou de branco a puro negro; as feições suavizaram-se, tornando-o mais jovem; e o bastão perdeu as runas e revestiu-se de nós rústicos próprios de um ramo de árvore.

A criança piscou os olhos, com um ar aparvalhado. Era como se Yudarh estivesse lá e, ao mesmo tempo, não estivesse. A imagem parecia tremelicar, permitindo-lhe ver as duas imagens intercaladas.

– É um feitiço de disfarce – explicou o meio-demónio. – Uma mera ilusão. É possível que não a vejas muito bem, porque sabes quem eu sou. Em todo o caso, não dura muito mais do que duas horas, por isso sejamos rápidos.

Não tardaram a sair do túnel para a cidade, Ayalal seguindo um pouco atrás de Yudarh. Pouco depois estavam diante das portas duplas do orfanato que se erguiam austeras na sua madeira escura. Avançaram para os degraus.

*

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR (parte IV)


O tentáculo em redor do tornozelo de Ayalal não afrouxara o aperto, pelo contrário. As palavras fizeram-no estreitar-se ao ponto de parecer querer enterrar-se na carne. O rapaz soltou um gemido de dor e, agora que a criatura estava distraída, dobrou-se sobre si, tentando com os dedos abrir o tentáculo para se libertar. Porém, a sua força estava muito longe de se comparar à do monstro.

Quando Yudarh fez um pequeno movimento para diante, a boca da criatura escancarou-se. Um grito alienígena, repleto da mais pura raiva e horror, precipitou-se sobre eles e tentou perfurar-lhes não só os ouvidos, como a alma. Ay encolheu-se por instinto, como se o ser tivesse acabado de saltar na sua direcção. Porém nada aconteceu. O grito continuou a ecoar pela gruta, perdendo-se na escuridão.

No processo, três outros tentáculos lançaram-se na direcção do tiefling. Ele baixou-se e desviou-se para o lado, evitando dois deles, porém o terceiro atingiu-o numa coxa. Yudarh vacilou, mas não caiu. Lançou um olhar à criatura.

– Os teus poderes não me afectam a mente – disse, pousando os cascos em terra firme.

Como aviso, a extremidade superior do bastão soltou uma faísca. No instante a seguir, um novo relâmpago de energia eléctrica precipitou-se na direcção da criatura. Ela não teve como fugir. O corpo foi abalado por vários estremecimentos e o grito de horror com que os tentara afectar vacilou para algo gorgolejado.

Com isso, o tentáculo que agarrava Ayalal abriu-se e escorregou da sua perna, num movimento serpenteante. A criança tornara-se um alvo secundário.

Os quatro membros lançaram-se sobre Yudarh em simultâneo. Um deles falhou redondamente o alvo, outro pareceu acertar, e no entanto o tiefling não pareceu de todo afectado com o choque. Dos outros ele desviou-se com movimentos atentos. Uma rosnadela frustrada soltou-se da boca da criatura, diante do completo falhanço da sua ofensiva. Yudarh não esperou um segundo para contra-atacar.

Ay encostou-se à rocha o melhor que podia, tentando manter-se tão longe quanto possível da batalha, enquanto observava. O meio-demónio não demonstrava qualquer tipo de descontrolo. Cada ataque parecia premeditado, a atenção focada no que a criatura poderia fazer a seguir. Desse modo, conseguiu evitar todos os ataques que lhe eram dirigidos. A criatura não teve a mesma sorte. Quando realmente percebeu que não teria hipótese de vitória, tentou rastejar e fugir, porém poucos foram os metros percorridos, quando um novo relâmpago a atingiu, siderando-a.

Muito quieto, Ayalal ficou a olhar para o corpo disforme, caído no chão. Fumegava, e o cheiro a carne queimada toldava o ar. Ainda temeu que pudesse voltar a erguer-se, mas nem um membro deslocado estremeceu. Yudarh aproximou-se da criatura, levando um joelho ao chão para a observar de perto. Tocou-lhe com cuidado, voltando-a para si. Ay viu-o a abanar a cabeça e os ombros descaíram um pouco. Sussurrou algumas palavras numa língua desconhecida que, estranhamente, pareciam conter em si um lamento pesaroso.

Por fim, o tiefling ergueu-se e voltou-se para o rapaz. Por um momento Ayalal julgou que também ele seria alvo de um daqueles ataques fulminantes, e encolheu-se por instinto. O olhar de Yudarh coriscava de fúria.

– Devia tê-lo deixado comer-te, criança idiota! – rosnou.

– Eu não quis… eu não sabia… eu precisava… desculpe, mestre Yudarh. – A cabeça da criança descaiu, ainda assim o olhar saltava assustado para a criatura. – Precisava de o encontrar de qualquer forma.

– Não desta forma. Podias estar morto, Ayalal. Não fui eu que te salvei, foi algum deus que teve pena de ti – atirou-lhe as palavras, como se fossem estalos. – Por acaso, e só por acaso, estava aqui perto! E se não estivesse?! Estas grutas são gigantescas, profundas e extremamente perigosas. Aquilo é só uma amostra.

Com a mão livre, apontou o cadáver no chão.

O lábio inferior do rapaz estremeceu e ele engoliu em seco, prendendo o soluço que se queria soltar. A voz vacilou, tornando-se um murmúrio.

– Mestre, a Lysa está a morrer… estão todos a morrer. – Não teve coragem para o encarar. – Ninguém os consegue curar. Eu precisava de o encontrar.

Yudarh não lhe respondeu logo. Ay sentiu o seu escrutínio rápido e pareceu-lhe ouvir o que seria um muito leve e disfarçado suspiro. O som de cascos a bater na pedra avizinharam-se de si. O pequeno fechou os olhos e encolheu-se mais. No entanto, acabou por sentir uma mão pousar-se ao de leve sobre o cabelo.

– Contas-me tudo no caminho de regresso.

O corpo da criança relaxou sob o toque familiar e, inevitavelmente, um novo soluço inundou-lhe o rosto de lágrimas.

*

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR (parte III)


Quando Ayalal piscou os olhos, a trágica imagem da morte de Lysa recuou do primeiro plano da sua mente, para ficar a rondar-lhe a memória, ameaçando atacá-lo a qualquer instante. A gruta voltara a estar diante de si, no entanto a posição do rapaz havia-se alterado em relação à do local: já não estava de pé. O peito e o maxilar inferior doíam-lhe da queda que dera, e o queixo ardia-lhe onde a pedra o esfolara. Apesar disso, a dor era o menos. Devagar, o seu corpo era arrastado para trás, por um pé. Puxou-o, ao mesmo tempo que levantava a cabeça para espreitar por cima do ombro.

O que parecia ser um tentáculo enrolara-se num dos seus tornozelos. Viu a ponta contorcer-se, sentiu a pressão que fazia, face ao seu puxão. O coração começou a bater mais depressa, enquanto o olhar seguia o tentáculo pela escuridão, até uma das enormes colunas de pedra. A criança semicerrou os olhos, perscrutando com mais atenção. A coluna moveu-se e dobrou-se um pouco, revelando não estar presa ao tecto.

Há medida que Ay se aproximava, apercebeu-se da armadilha em que caíra. O que pensara serem espigões escavados na pedra eram, na verdade, dedos e ossos que brotavam de forma aleatória de várias zonas da criatura. Os membros, antes disfarçados pelas sombras, retorceram-se, formando ângulos impossíveis, como se alguém os tivesse partido e recolocado sem ter a mínima noção da forma que deveriam ter, nem da zona onde se inseriam. Fitando-o, dois olhos esféricos piscaram, dessincronizados – um encontrava-se na zona superior do corpo, outro quase ao nível do solo. No espaço que separava os orbes, a superfície contorceu-se e abriu-se numa boca de fundo negro, cada mandíbula ameaçando-o com uma série irregular de dentes afiados.

Um grito de pânico encheu-lhe a garganta, perante tamanha monstruosidade, e Ayalal tentou puxar a perna num movimento frenético. No entanto, ou a força lhe havia fugido, ou a constrição era demasiado forte. Tentou agarrar-se ao chão, mas foi em vão. Os dedos derraparam, as unhas raspando nas irregularidades da pedra. Uma delas soltou-se e Ay agarrou-a por instinto. Rodou sobre si num movimento rápido, impulsionado pelo pavor, e atirou a pedra à criatura. Acertou-lhe, porém o monstro nem sequer reagiu, deixando o projéctil cair e ressaltar duas vezes no chão. Um arquejar gutural libertou-se da boca dele, e este dobrou-se mais, em direcção aos pés do rapaz. Ayalal sentiu um bafo grotesco a carne podre, e um fio de saliva pendeu da língua que se estendia na sua direcção.

Porém, a criatura deteve-se. O olho superior piscou duas vezes, fitando alguma coisa acima da cabeça de Ayalal. De súbito, um traço de luz esbranquiçada cortou o espaço ao lado da criança, erguendo-lhe os cabelos com a energia pura que continha. A criatura deixou escapar um grito estrangulado, talvez de surpresa, e ainda se contorceu numa tentativa de escapar ao impacto, arrastando Ayalal com brusquidão para o lado contrário ao da luz, embatendo com ele na parede. O rapaz semicerrou os olhos e piscou as pálpebras, algo atordoado não só pelo choque, como também pela explosão de luz, seguida de uma torrente de faíscas a saltar em todas as direcções quando a descarga embateu no corpo do monstro. Um forte cheiro a queimado tomou o ar em redor.

Adarghins i zadiran.

Ayalal reconheceu de imediato o tom duro e álgido da voz. Embora não compreendesse o que fora dito, as palavras soaram-lhe a uma ordem que não admitiria desobediência. Olhou para o caminho que pensara seguir antes mesmo de ser capturado, e arregalou os olhos. Yudarh pairava a cerca de dois ou três palmos do chão, para lá do piso plano, por cima da zona que descia a pique. Numa das mãos empunhava o bastão, apontando-o à criatura. A sua expressão, de olhar cortante e cantos dos lábios descaídos, prometia tudo menos compaixão.

*

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR (parte II)


Ofegante e trémulo, parou somente diante da porta fechada. Bateu com a pouca força que lhe restava, mal escutando o som a repercutir-se na madeira.

– Mestre… – sussurrou, dolorosamente consciente de que ninguém o ouviria. Encostou-se à porta e deixou que a exaustão suavizasse. Voltou a bater, ainda assim o punho fraquejava. – Mestre Yudarh!

A única resposta que obteve foi o eco da sua voz nas paredes escurecidas do túnel. Esperou e, sem ter a certeza do tempo que passara, chamou-o novamente e voltou a bater à porta. Mas foi um esforço vão. Se estava em casa, o tiefling não o receberia.

Olhou para as sombras que o haviam seguido até à soleira da porta de Yudarh. Nunca vira o mestre na cidade e, pelo que Lysa dizia, ele preferia a reclusão que lhe reservava a solidão. Não estando em casa, e sendo improvável que houvesse descido à cidade, só via duas hipóteses possíveis.

Caminhou até ao cruzamento, apoiando uma mão na parede. No peito o coração ainda batia descompassado. Lançou um olhar ao trilho que percorrera meses atrás, até ao exterior, onde, pela primeira vez, pudera cumprimentar o céu e o Sol. Depois, fitou o lado oposto. Conseguia perceber como o túnel se perdia na mais pura escuridão, alguns metros mais à frente. Já vira Yudarh desaparecer por aquele trilho e acreditava no que as histórias contavam sobre os monstros que viviam nas sombras das entranhas das montanhas.

Dessa vez, não precisou de coragem para avançar: foi o medo que o empurrou em frente. Entrou na escuridão, seguindo com menos cuidado do que sabia que deveria. Apesar de ser capaz de ver no escuro, a falta de qualquer tipo de luz intimidava e ameaçava-o. Se as histórias fossem verdadeiras, haveria criaturas à escuta, monstros que esperavam por qualquer ser vivo que pudessem devorar.

O caminho começou a descer e as paredes estreitaram-se. O ar que pairava em seu redor tornou-se ligeiramente mais húmido e pesado. Ao fim de alguns minutos, Ay chegou a uma bifurcação: um dos lados seguia no mesmo sentido descendente que levara até ao momento; o outro não passava de pouco mais que uma ampla falha na rocha, através da qual um homem adulto conseguiria passar com cuidado. Parou, ponderando nas poucas hipóteses que tinha. Yudarh poderia estar em qualquer lado, e ele não fazia ideia da extensão daqueles caminhos. A probabilidade de se perder era enorme. Mas se não encontrasse o meio-demónio a tempo…

Encheu os pulmões de ar e esperou um segundo, antes de os esvaziar num súbito grito.

– Yudaaaaarh!

O grito ecoou nas paredes vazias, sendo pouco depois engolido pelo silêncio. Era uma péssima ideia, Ayalal tinha plena noção disso. Se o mestre o ouvisse, estivesse onde estivesse, outro tipo de coisa certamente o faria. Voltou a chamá-lo uma vez e depois olhou para os dois caminhos que tinha à escolha. Nenhum lhe parecia melhor do que o outro, por isso acabou por escolher a fenda, pela qual se infiltrou. Perscrutou cada metro em diante, enquanto tentava ouvir mais do que os seus passos e a própria respiração.

Caminhou talvez durante meia hora – não tinha completa noção do tempo que passara. Para além do seu campo de visão, onde tudo anteriormente fora breu, surgiu uma leve luminosidade. Ayalal franziu as sobrancelhas e parou, com uma mão apoiada na parede. Aguardou que a claridade revelasse ser mais do que uma luz ao fundo do túnel, porém ela não se moveu. A criança avançou com mais cautela, os passos tornando-se tão silenciosos quanto conseguia. Quando estava mais perto, apercebeu-se que a falha de alguma forma se abria para o compartimento donde vinha a luz e que esta parecia produzida pela própria rocha, que em algumas zonas se tornava azulada. Espreitou para ver melhor. A falha abria-se para um compartimento amplo de tecto alto. Uma dúzia de estalactites estendiam-se dele, tentando alcançar as estalagmites que cresciam sob elas. Um ou outra poça de água compunha o local. Para além disso, estava, aparentemente, vazio.

Saiu do interior da falha, sem conseguir disfarçar uma certa curiosidade por aquele estranho brilho. Evitou pisar as poças, porém não foi difícil as meias ficarem molhadas da humidade fria da pedra. Parrou por um momento, debruçando-se sobre um dos brilhos e percebendo que não era realmente a pedra que brilhava, e sim algo que estava colada a ela. Já vira coisas daquelas nas paredes da cidade, só não eram brilhantes. Pensou por um segundo, antes de acenar para si mesmo, ao lembrar-se do nome. Era um líquen, e aquele deveria ser mágico. O melhor era não tocar-lhe, ponderou.

Endireitou-se e voltou a olhar em volta. Mais à frente, a galeria começava a afunilar-se, formando uma nova passagem onde a luz morria. Atrás de si… franziu as sobrancelhas e regressou até junto da fenda na parede. Tocou com a mão pequena numa zona da pedra à altura da sua cabeça. Havia sulcos na rocha, sobrepondo-se em vários ângulos. Eram demasiado definidos para se confundirem com marcas naturais da pedra. Engoliu em seco. Lembravam demasiado estrias deixadas por garras de algo suficientemente forte para rasgar aquela dureza. Não vira nada daquilo durante a caminhada pela falha, por isso pertenceriam provavelmente a algo que tentara sair, mas não conseguira. Um dos monstros que vivia ali.

Contemplou o que o poderia esperar do outro lado. Uma centena de dentes famintos e garras que lhe rasgariam o corpo. Cerrou os punhos. Não podia acobardar-se. Se alguma coisa o tentasse atacar, ele limitar-se-ia a correr tão depressa quanto conseguisse para lhe fugir.

Resoluto, avançou para o outro extremo da galeria, contornando algumas das estalagmites. Atrás de si, deixou o gotejar esporádico da água que se infiltrava na montanha e, após uma inspiração, reentrou na escuridão. O túnel alargava-se consideravelmente daquele lado. Colunas espessas e meio disformes formavam apoios casuais entre o tecto e o solo. Ay atentou as paredes e o próprio chão, no entanto não viu sinal de outras marcas que pudessem denunciar um habitante obscuro.

O trilho encurvou, e a criança parou de repente à beira de uma descida a pique. Não lhe via o fundo. Hesitou, apoiando uma mão na parede. E se não conseguisse voltar a subir?

Por entre a indecisão, foi incapaz de perceber que alguma coisa se aproximara de si pelas costas. Só sentiu de súbito um dos pés a fugir-lhe do chão. Mas, nesse mesmo instante, mal tomou noção da dor da queda que deu para a frente, ou sequer do tentáculo que lhe prendia o tornozelo e o arrastava para trás. Na verdade, já não se encontrava de todo numa gruta escura, mas sim de regresso ao orfanato. Diante de si, Lysa jazia exangue, morta pela doença que a minara, e ele chorava como nunca antes havia chorado, enquanto uma dor terrível lhe rasgava o peito.

***