Mostrar mensagens com a etiqueta Lysa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lysa. Mostrar todas as mensagens

Mosteiro das Sete Formas, 28 de Calistril de 4593 AR (parte I)


As lágrimas caíam em silêncio, enquanto Ayalal observava as chamas a consumirem o corpo sobre a pira fúnebre. De braço ao peito e ligadura em volta da cabeça, ele encontrava-se lado a lado com a directora, na fila da frente. A sua mão deslizou até ao bolso e retirou do interior o pedaço de pergaminho que deveria ter oferecido a Lysa no dia anterior, como agradecimento e esperança de que continuassem sempre juntos. Desdobrou-o e observou o desenho que ele próprio fizera. Com linhas toscas de tinta preta, Ayalal representara ambos, de mãos dadas, e escrevera o nome de cada um sobre a figura respectiva. Na altura pensara que Lysa ficaria orgulhosa por testemunhar os avanços das suas aulas com Yudarh.



Engoliu em seco. Devia atirá-lo para as chamas, deixar que ardesse com ela, como a sua última oferenda.

Fechou a mão sobre o desenho, esmagando-o enquanto os dentes se cerravam com força. Era inútil, tão inútil quanto ele fora ao ser a causa da sua morte. A culpa fora sua. Se ele não tivesse ido atrás do gato, se não se tivesse afastado, ela não teria de o procurar. Estaria viva e ainda poderia sorrir. Nunca mais a poderia abraçar ou dar a mão. Naquele momento, aquele desenho não passava de uma mentira.

– Desculpa – sussurrou, fitando o fogo com os olhos turvos pelas lágrimas. Deveria ter sido ele, não ela. Ele devia estar morto. Porque é que os deuses não o teriam permitido? Porque é que fora tudo tão errado?

Inspirou fundo e voltou a guardar o desenho no bolso, sem se atrever a largá-lo. Permaneceu assim até o fogo se extinguir.

No final da celebração fúnebre, foi-lhes dada a opção de guardarem as cinzas de Lysa. Ayalal deixou que a senhora Drane decidisse a esse respeito. Após alguma hesitação, trouxeram-nas e a directora guardou-as no seu gabinete, no interior de um pote de barro.

– Quando as quiseres, elas estarão aqui – murmurou para um Ayalal silencioso que seguira os seus passos até à porta, onde se deixara ficar à espera. Ele pareceu não reagir no primeiro instante, mas depois os seus olhos fitaram a prateleira onde estava o pote. A directora viu neles um desespero que lhe cortou o coração.

A mulher fechou a porta atrás de si, deixou a criança à guarda de uma das raparigas mais velhas, e voltou a sair do orfanato. Caminhou pelas ruas a passos largos, afastando-se da zona mais populosa. A sua expressão reflectia a preocupação profunda que a perseguia. 

Nessa manhã a guarda fora até ao orfanato escutar o relato de Ayalal a respeito do que se passara no dia anterior. No entanto, antes de ele lhes dizer tudo o que sabia, já a directora Drane lho fizera contar tudo, tão pormenorizadamente quanto conseguira, por entre estremecimentos e soluços. Por essa razão, os guardas não tinham obtido toda a verdade. Sob exigência da directora, e para sua protecção, Ay omitira que os três homens que descrevera o tinham tentado capturar e matar por ser descendente de um vampiro. Fora também essa a grande razão porque ela impedira o clérigo de curar os ferimentos de Ayalal. Se o homem tivesse continuada com a sua magia, a criança poderia estar agora morta devido a uma descarga de energia positiva.

Se não podia confiar à guarda informação tão vital, precisaria do auxílio urgente de outra fonte. Não poderia permitir que Ayalal voltasse a ser atacado, nem que mais alguém do seu orfanato sofresse um destino como o de Lysa.

Subiu as escadas íngremes cravadas na pedra da própria montanha e pisou o princípio do túnel iluminado pelas tochas eternas. Deteve-se por um momento. Sabia para onde ia e ao que ia, porém entrar sozinha num túnel vazio deixava-a reticente. Tentou ignorar a hesitação e avançou. Atravessou a encruzilhada, mantendo o olhar fixo no seu destino e fazendo por não dispensar qualquer atenção à escuridão na qual mergulhava um dos caminhos. Acreditava nos mitos a respeito das criaturas que habitavam a escuridão, era impossível não existir vida nas imensas galerias que minavam as montanhas. Porém, se não havia indícios de ataques a centros urbanos, era porque não deveria preocupar-se com esse assunto.

Parou diante da porta de Yudarh e bateu três vezes. Aguardou de costas direitas e rosto solene até a porta se abrir.

Mosteiro das Sete Formas, 27 de Calistril de 4593 AR (parte VI)


– Não… – A voz da directora tremeu quando o seu olhar caiu sobre o corpo no chão. – Não faça esse feitiço. Tratarei do rapaz sem qualquer magia. Agradeço, no entanto, reverendo.

O clérigo piscou os olhos, confuso com aquela decisão.

– Não irei cobrar nada, senhora – garantiu, pensando para si que o problema seria o custo do seu trabalho. Por norma eram feitas doações à Igreja de Aroden pelos serviços que prestavam, mas havia sempre exepções.

A senhora Drane abanou a cabeça numa negativa peremptória.

– Ele sarará por si mesmo. Esses não são, com certeza, os seus ferimentos mais profundos.

Apesar de obviamente em desacordo com aquela atitude, o clérigo aquiesceu face às últimas palavras. Endireitou-se com um suspiro que lamentava por todo aquele momento.

Por sua vez, a directora do orfanato ajoelhou-se ao lado de Ayalal, mantendo uma compostura firme mas não séria. A criança fitava-a em desespero, o seu olhar implorando-lhe por algo impossível, uma coisa que só os deuses ou os feitiços mais poderosos eram capazes.

– A Lysa partiu, Ay – murmurou-lhe, estendendo um braço e abarcando-lhe os ombros. Ainda assim o tom vacilou, como se ela mesma não estivesse certa daquilo com que se deparara.

A criança encolheu-se, em parte devido à dor que o toque lhe causara.

– Não. Ela está aqui, está mesmo aqui – indicou, os olhos arregalando-se, enquanto pegava na mão fria do corpo.

– Está, mas… está vazia. A sua alma já não pertence a este mundo – notou. Drane mordeu o lábio inferior que estremeceu por um momento diante da sua própria constatação. Tossicou para aclarar a voz. – Partiu para outro reino.

– Não. – Ayalal voltou a negar, apertando a mão. – Não, não…

– Tu és forte, Ayalal, e já és crescido – disse-lhe num falso tom calmo. Era uma mentira. Estava ao lado de um rapazito que nesse dia fazia sete anos. Era-lhe impossível encontrar palavras de consolo, e tinha a certeza que nenhuma das suas sortiria o efeito desejado. Tudo lhe parecia demasiado cruel. – A Lysa não gostaria de te ver triste.

O rosto do rapaz contorceu-se num esgar de dor e o choro tomou-o novamente, prendendo-o em si. Ayalal encostou a mão gelada ao rosto, chorando para ela.

Não tardou muito para que no beco se concentrasse uma pequena multidão de observadores que sussurravam entre si. Por fim, de espada embainhada à cintura e uniformes com o brasão da cidade, dois oficiais da guarda da cidade abriram caminho por entre as pessoas, parando junto ao corpo. Questionaram o homem que encontrara Lysa e Ayalal – um mendigo que vagueara até ali por acaso – e só depois tentaram interrogar a criança. Todavia a directora Drane interpôs-se, lançando um olhar duro a ambos.

– O rapaz precisa de repouso e de tratamentos. Não está em condições para nada, senhores oficiais – ditou, erguendo-se e endireitando as costas. – Poderão encontrá-lo no orfanato, quando for necessário.

Os guardas entreolharam-se e, tendo mais em conta as palavras e menos o tom ríspido, acabaram por aceder.

– Amanhã de manhã – disse um deles. – Um guarda passará no orfanato para interrogar o rapaz.

– Muito bem. Agradeço a compreensão. Quanto à jovem… quando pudermos prestar-lhe as últimas honras, gostaria de ser informada.

Ambos garantiram que muito provavelmente no próximo dia o corpo seria entregue à Igreja de Aroden onde poderiam proceder ao funeral.

Enquanto a conversa decorria, chegou um novo grupo de guardas, trazendo consigo uma maca improvisada. Quando um deles tocou no corpo de Lysa, Ay soltou um mescla de gemido e grito e voltou a debruçar-se sobre ela, de forma protectora.

– Deixem-na! – gritou-lhes, enterrando o rosto no peito dela, enquanto o braço não partido a semi-rodeava. – Não lhe toquem!

A directora inspirou fundo e forçou-se a dirigir-se à criança. Dobrou-se sobre ela.

– Ayalal, os senhores precisam de trabalhar. A Lysa não pode ficar aqui no chão para sempre, sabes disso – disse, pousando-lhe uma mão na cabeça. Por reacção, a criança encolheu-se e gemeu de dor, levando a que a senhora Drane erguesse a mão de imediato. Ficara húmida. Ao olhar para ela, deu conta do tom vermelho escuro e só então se apercebeu que Ay tinha o cabelo da nuca empapado em sangue. – Anda, larga-a. Tem de ser. Amanhã poderás voltar a estar com ela.

Tardou uma dúzia de segundos, até o rapaz se obrigar a largar o corpo morto. Porém o seu olhar ficou preso nele, tal como o coração.

Com um gemido de esforço, a senhora Drane pegou nele ao colo e afastou-o do beco. Ay caiu num choro silencioso durante todo o caminho até ao orfanato. Lá, as crianças esperavam por eles na cozinha e, com o olhar, seguiram os recém-chegados enquanto estes atravessavam o corredor e subiam para o quarto das crianças.

Mosteiro das Sete Formas, 27 de Calistril de 4593 AR (parte V)


Vozes. Sussurros perto de si, gritos altos. Ambos perfuravam-lhe a cabeça sem piedade. 

– Ele está a acordar! 

Ayalal não reconhecia o dono daquela voz. Quem seria… Lysa? 

Escancarou os olhos e tentou levantar-se num impulso. Uma gigantesca onda de dor percorreu-lhe o corpo, arrancando-lhe um grito engasgado. Alguém o amparou, ajudando-o a voltar à posição inicial num movimento lento. 

– Calma, pequeno, calma. É melhor que não te mexas, estás muito magoado. 

Os olhos focaram-se devagar, enquanto combatia a tontura que lhe enevoava a mente. Ayalal começou a discernir os contornos de uma pessoa ajoelhada ao seu lado. Não era Lysa, nem sequer era uma mulher. Havia consternação no rosto do desconhecido. 

– Eles são do orfanato, reconheço a rapariga – disse uma voz próxima que, ao mesmo tempo, parecia distante. 

Ay inspirou fundo e, ao fazê-lo, arrepiou-se. Sentia-o a pairar no ar, impregnando-lhe os pulmões. Cheirava a sangue. Aos poucos, a memória começou a erguer-se do foço onde havia mergulhado. Recordou-se do gato que perseguira, do beco sem saída onde desembocara, dos homens que o haviam emboscado, de Lysa. 

Devagar, para não voltar a sucumbir à dor, obrigou-se a levantar e olhou em volta. Uma dúzia de pessoas debruçavam-se sobre alguma coisa, cochichando entre elas. Aos seus pés havia um corpo imóvel. 

– Lysa – sussurrou. As pernas vacilaram ao primeiro passo, no entanto sustiveram-lhe o peso. – Lysa… 

– Não vás, pequeno, não há nada que possas fazer. Espera que o clérigo chegue e trate de ti, ele não deverá tardar. 

Ayalal ignorou o homem, avançando tão depressa quanto conseguia. A mão direita agarrava o braço esquerdo, contendo-lhe as oscilações assim como as dores que raiavam do osso partido. 

O rapaz deixou-se cair de joelhos ao lado de Lysa. Mordeu o lábio inferior com força enquanto os olhos se enchiam de lágrimas. Um soluço esmagou-lhe a garganta. A saia do vestido dela estava manchada de sangue e rasgada em várias zonas. Os pulsos descobertos e o pescoço esguio revelavam marcas de um tom arroxeado. De cabeça descaída para um dos lados, ela mantinha os olhos abertos. Estavam completamente vazios de vida, tal como o seu corpo. Não havia um único sopro, uma única inspiração que lhe erguesse o peito. 

A criança começou a tremer, as lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto. 

– Acorda… – murmurou, tocando-lhe no braço. – Por favor, volta, Lysa… volta… 

Cerrou os dentes, vergando-se sobre o corpo e encostando a fronte ao peito dela. Soluçou alto, enquanto uma dor terrível lhe esmagava o peito e uma mão repleta de garras lhe retorcia o coração. Ele sabia que não havia forma de ela acordar ou sequer voltar. 

Um silêncio pesado acompanhou o choro do rapaz. Algumas pessoas observavam a cena com olhares de lamento, outras desviavam o rosto, abanando a cabeça. Porém ninguém se atreveu a afastar a criança do corpo caído na pedra fria. 

Passaram alguns minutos. Um par de passos rápido ecoou pelo beco, aproximando-se. Estacou junto a Ayalal e, por alguns segundos, nada disse. Só depois uma mão lhe tocou o ombro ao de leve num gesto de conforto, quando o recém-chegado se acocorou ao lado dele. 

– Compreendemos a tua dor, pequeno. A sua alma repousará em paz, os deuses irão velar por ela, garanto-te. 

O rapaz não respondeu. Na verdade, as palavras tinham passado por ele como um sopro rápido do vento. Não lhe diziam nada, não lhe ofereciam nada. Eram somente um eco repetitivo que pairava sem destino certo. 

O clérigo deixou escapar um suspiro de lamento. Com a mão livre, tomou o pendente que lhe pendia do pescoço e que representava o Olho de Aroden. 

– Vou atenuar parte da dor que te consome, meu filho – disse, apertando-lhe o ombro ao de leve. 

Começou a recitar as palavras sagradas que imploravam ao seu deus que sarasse a pobre alma diante de si. Porém, quando estava quase no final do ritual, um vulto precipitou-se para ele num passo de corrida. 

– Pare! – A rispidez da voz ressaltou pelo beco, cortando a voz ao clérigo. O homem ergueu o olhar encarando a mulher de meia-idade diante de si. Alguns dos cabelos grisalhos haviam-lhe fugido do coque e a sua respiração parecia arranhar os pulmões. 

Ay reagiu à voz. Levantou o rosto devagar e, com os olhos tingidos de vermelho, fitou a Directora Drane.

Mosteiro das Sete Formas, 27 de Calistril de 4593 AR (parte IV)


– Ayalal!

Lysa vagueou por entre as pessoas, rodando a cabeça enquanto o tentava avistar. Apercebera-se que ele se levantara e fora atrás de alguma coisa, mas esperara que ele regressasse no instante seguinte. Porém haviam já passado alguns minutos e não havia sinal do rapaz. Voltou a chamá-lo pelo nome, sem obter qualquer resposta. Onde é que ele se teria metido? Teria regressado sozinho para o orfanato? Ayalal conhecia as ruas, não se perderia por ali, porém era estranho não a ter avisado.

Caminhou por mais alguns minutos, abordando uma ou outra pessoa, perguntando-lhes se haviam visto um rapazinho pálido a passar por ali. Ninguém o vira. Parou no meio da rua, oscilando entre a frustração e a preocupação. Se ele tivesse mesmo regressado para o orfanato sem a avisar, iria ouvir um valente raspanete.

– Ah, peço perdão…? – Uma voz suave chamou-lhe a atenção e Lysa olhou por cima do ombro.

Uma mulher, não muito mais velha do que ela e com a mesma estatura baixa, encontrava-se parada atrás de si com um dedo estendido, como se se preparasse para lhe tocar nas costas. Com o outro braço amparava contra o peito um gato de aspecto adoentado o qual lançou a Lysa um olhar lânguido e desinteressado.

– Sim?

– Ouvi dizer que andava à procura de um rapaz. – A jovem observou-a com uns expressivos olhos azuis, em busca de uma confirmação. Tinha o cabelo preso numa longa trança de um ruivo quente, e o rosto salpicado de sardas. Lysa tinha a certeza de que nunca vira a rapariga na cidade subterrânea.

– Ando. Ele afastou-se do grupo e não sabemos onde possa estar – confessou. – Ele é assim deste tamanho, com o cabelo preto e a pele muito clara.

Situou a mão ao nível do peito, como referência para a altura de Ayalal.

A rapariga pousou o queixo sobre a mão livre, a expressão enrugando-se um pouco enquanto pensava. Um instante depois os olhos arregalaram-se.

– Sim! Vi-o a correr naquela direcção.

Apontou para a entrada de uma rua estreita. Lysa não sabia exactamente onde poderia desembocar. Franziu as sobrancelhas mas agradeceu com um sorriso leve, antes de se afastar com passadas largas.

Atrás dela, a rapariga viu-a partir, enquanto afagava o gato entre as orelhas. Quando deu meia volta e se perdeu entre os transeuntes, levava consigo um sorriso largo que lhe espalhava no rosto um sincero regozijo.

*

Tinham-no amarrado, pouco importados com as lágrimas de dor ou com os gemidos que cada movimento do braço esquerdo causava. Tentou gritar uma vez, porém um murro do homem mais magro silenciou-o.

– Bem, é agora que nos livramos de ti, pequena aberração – disse o homem de espada embainhada. Acocorara-se ao seu lado, olhando-o com curiosidade. Levou-lhe uma mão ao rosto e, sem cuidado, afastou-lhe os lábios, observando-lhe os incisivos afiados. – E podemos levar estes como recordação. Poderão valer qualquer coisa.

Ay tentou afastar a cabeça da mão calejada que lhe tocava. Olhou na direcção da saída do beco. Eles não tinham como levá-lo sem darem nas vistas, não podiam simplesmente enfiá-lo dentro de um saco e levá-lo ao ombro ou arrastá-lo. Ao mesmo tempo que pensava isto, apercebeu-se de que uma sombra se aproximava. Por fim, alguém que o pudesse salvar! Gritou por ajuda, e uma voz feminina respondeu, chamando-o pelo nome. Um aperto gelado esmagou-lhe o peito ao reconhecê-la, e quando viu Lysa surgir diante de si, o coração parou.

– Ay! – Havia choque espelhado na cara de Lysa, enquanto assimilava toda a situação. O olhar saltou da criança para os três homens. – O que… deixem-no!

O homem acocorado soltou um estalido com a língua. Ay desviou a atenção para ele e o que viu fê-lo temer mais do que temera por si. O homem tratara-o como se fosse um divertimento ligeiramente interessante e rotineiro, sendo a sua possível morte algo tão banal como beber uma cerveja numa taberna. Porém a chegada de Lysa aguçara-lhe o sorriso para um esgar tortuoso. Os orbes brilhavam de antecipação por algo que Ay não compreendia – ou tinha medo de compreender.

– Ora, ora, ora… – Ergueu-se e rodou sobre os calcanhares para encarar Lysa. Cruzou os braços sobre o peito, inclinando um pouco a cabeça para um dos lados. – O que temos nós aqui? Uma donzela perdida?

Os outros dois homens entreolharam-se e trocaram um sorrisinho sarcástico. O mais magro avançou pela periferia de um dos lados do beco, aproximando-se.

Os punhos de Lysa fecharam-se com força e ela inspirou fundo.

– O que julgam que estão a fazer a essa criança? – O seu tom era simultaneamente vacilante e resoluto. – Libertem-na.

– Isso é uma ordem? Ouviram, rapazes? Esta frágil donzela está a dar-nos ordens. – Uma risada acompanhou-lhe o comentário e ele abanou a cabeça com descrença. – De facto, há mulheres com sentido de humor… agarrem-na.

Lysa recuou um passo e abriu a boca. Escutou-se o início de um grito.

– Façamos isto a bem! – A voz do homem interrompeu-a. – Se gritares ou fugires, matamos a cria de vampiro. Se colaborares, talvez o poupemos. Parece-me um bom negócio, não achas?

A jovem voltou baixar o olhar para Ay. O instante em que se encararam foi o suficiente para o rapaz perceber que a haviam deixado sem opções. O peito de Lysa ergueu-se numa inspiração funda de aceitação. Os punhos cerraram-se com força por um instante e depois relaxaram. Antes que ela pudesse responder à chantagem, o homem que se havia aproximado subtilmente avançou para ela num movimento rápido e agarrou-a pelas costas, prendendo-lhe as mãos com uma das suas, e pousando-lhe a outra sobre a boca.

– NÃO! Deixem-na! – O grito de Ayalal ecoou no beco. Tentou libertar-se, mas havia mais do que uma corda a impedi-lo. A dor do braço era excruciante, torturando-o a cada pequeno movimento. – Larguem-na!

O chefe do trio olhou-o por cima do ombro.

– Cala-te. – Voltou-se, dobrou as costas e agarrou-o pelo cabelo, levantando-lhe a cabeça do chão muito ligeiramente.

Ay cerrou os dentes e silvou por entre eles, de lágrimas a escorrerem-lhe rosto abaixo. Voltou a relancear Lysa, agora com mais dificuldade. O homem maior aproximara-se também e as suas mãos pareciam procurar algo no velho vestido. Medo, pânico, dor, coragem… havia tudo isso na expressão dela, assim como desafio a si mesma.

– Larg… – A palavra ficou a meio, quando, com toda a força, o chefe empurrou a cabeça do rapaz contra a pedra do solo. O berro de dor de Ayalal foi interrompido por uma tontura, seguida de uma escuridão súbita que lhe arrombou as portas da mente para o prender em si. A consciência esvaiu-se.


Mosteiro das Sete Formas, 27 de Calistril de 4593 AR (parte II)


Quando, após o almoço, a cozinha do orfanato estava arrumada, os pequenos correram a irem buscar o único casaco remendado que tinham. Ay hesitou à porta da cozinha, após todos saírem, olhando para Lysa, enquanto apalpava com cuidado o conteúdo de um dos bolsos. O toque áspero do pergaminho percorreu-lhe os dedos. Também lhe queria dar um presente, porém talvez fosse melhor esperar até depois do jantar, depois do ambiente sossegar.

Imitou as restantes crianças e, depois de enrolar o cachecol no pescoço, certificando-se que ficava tão agasalhado quanto possível, esperou junto dos outros, à porta do orfanato. A Directora Drane chegou um pouco depois, parecendo contá-los com o olhar, e Lysa e outra das responsáveis vieram logo a seguir, sorrindo face ao entusiasmo que viam na maioria dos rostos.

Não tardaram a seguir em grupo pelas ruas, levantando olhares curiosos, enquanto avançavam em direcção à praça principal da cidade subterrânea. Uma corrente de ar gélida soprava através dos túneis, trazendo consigo a lembrança da neve que de momento deveria cobrir mais do que os picos das montanhas.

Muito subtilmente, Ayalal esticou a mão até segurar a de Lysa, deixando-se guiar em silêncio. As outras crianças falavam entre si; as que raramente saíam do seu lar apontavam bancas, casas, e até algumas pessoas de aspecto mais peculiar, como um grupo de quatro halflings que passava por eles com mochilas às costas, bordões em punho, e pequenas espadas à cintura.

Nem um quarto de hora depois, chegavam à praça. Fora montada uma pequena tenda num dos lados do círculo de chão empedrado com um toldo e uma bancada sobre a qual se fechava uma cortina feita de losangos coloridos. Vários caixotes de madeira dispunham-se em seu redor, de forma que os espectadores se pudessem sentar para assistir ao espetáculo, deixando atrás destes uma zona em que poderiam haver espectadores de pé, e ainda uma terceira área, à frente dos caixotes, onde se poderiam sentar no chão. Foi para essa última zona que as crianças foram levadas. Ay ficou numa das pontas, olhando expectante para a cortina. Por trás dela escutavam-se vozes baixas, das quais era impossível perceber o que diziam.

Foram chegando mais espectadores que se acomodaram atrás deles. Alguns perguntavam pouco discretamente donde viera toda aquela criançada. Ay lançava-lhes um olhar por cima do ombro, quando o som rápido do dedilhar das cordas de um instrumento musical se fez ouvir, captando a atenção de todos. A cortina abriu-se devagar, revelando uma marioneta de nariz comprido que nas mãos simples segurava um pequeno alaúde. A voz do boneco era fina e nasalada, enquanto em rimas divertidas se apresentava ao público como sendo um célebre menestrel que corria o mundo em busca de histórias sobre valentes cavaleiros e cavaleiras, donzelos e donzelas, terríveis deuses do mal, dragões, gigantes de pedra e magias que iam além do que se poderia imaginar. Quando falou das últimas, pequenas faíscas coloridas saltaram em seu redor, roubando inspirações estupefactas e exclamações excitadas à plateia.

As crianças observaram, maravilhadas, enquanto outras personagens, articuladas por cordões, foram surgindo, e a história sobre o terrível e maléfico dragão branco que vivia no pico mais alto do reino – que por sinal não era longe dali – se desenrolava, a música do alaúde tornando-se mais intensa. A marioneta em forma de dragão cuspiu meia dúzia de luzes esbranquiçadas, que deixaram o grupo de guerreiros e o próprio menestrel com pingentes de gelo por todo o corpo, o que roubou uma animada gargalhada a todos, inclusive ao próprio lagarto gigante, num tom roufenho.

Por fim os valentes guerreiros conseguiram derrotar o vil dragão, usando um estratagema que o levou a congelar-se a si mesmo, para depois ser partido ao meio pelo guerreiro maior e mais forte. Todos aplaudiram e os três bonecreiros que tinham controlado os fantoches saíram de trás do palco e fizeram amplas vénias perante eles. Moedas foram depositadas dentro de um chapéu que passou por entre os espectadores e regressou a um dos artistas que agradeceu a generosidade.

Apesar disso, Ayalal já não lhes tomava atenção. Esta fora desviada para um miar baixo, não muito longe de si. Um gato de pelagem suja passava a não mais de um metro deles, coxeando da pata da frente, de cabeça e cauda baixas. Os ossos projectavam-se por entre a magreza doentia. O rapaz hesitou, enquanto o sentia encolher-se a cada passo que se forçava a dar.

Ergueu-se, sem tirar os olhos do animal e aproximou-se devagar, não se dando ao trabalho de tentar silenciar os passos, para o gato dar pela sua presença. O animal olhou-o com dois orbes de um azul intenso, desconfiado.

– Não te quero fazer mal – murmurou Ay, apesar de estar consciente de que o animal não o entenderia.

No momento em que estendeu as mãos para o tomar nos braços, o animal soltou um silvo, o dorso arqueando-se e assustando o rapaz que recolheu os braços contra o peito. O gato partiu numa súbita corrida frenética, por entre os pés das pessoas que andavam por ali. Ayalal ficou chocado por um segundo, antes de partir a correr atrás do animal.

– Espera! – pediu em voz alta, tentando não perdê-lo de vista.

O gato entrou por uma ruela, para a qual Ay virou também. A luz ali era fraca e não havia uma vivalma à vista. Conseguiu ver a cauda do animal, quando este virou para uma segunda rua. Ofegou, correndo até lá, e acabando por descobrir um beco sem saída. O animal havia saltado por cima de uma pilha de caixotes, até ao topo de uma das casas de pedra que ladeavam as ruas. O rapaz parou junto do primeiro caixote. Lá de cima, o gato lançou-lhe um olhar penetrante, antes de desaparecer.

Ay soltou um suspiro e deixou que os ombros descaíssem. Desistia da perseguição. Não podia obrigar-se a tentar ajudar o animal, mas tinha pena. Tendo em conta o seu aspecto, o gato acabaria certamente por morrer.

Deu meia volta, desalentado. Porém, estacou, e o sobrolho franziu-se. À entrada do beco estavam três homens parados a olhar para si. Um deles era alto, de ombros largos e peito amplo, e o cabelo rapado revelava a marca esbranquiçada de uma cicatriz. Outro era magro e mais baixo – pareceria inofensivo, não fossem as duas adagas que empunhava. O terceiro, de espada à cintura e mãos apoiadas na cintura, era um meio-termo entre os primeiros. E sorria-lhe.

– Encontrámos a cria de vampiro – anunciou.

*

Mosteiro das Sete Formas, 27 de Calistril de 4593 AR (parte I)


Nessa manhã todos acordaram cedo e ninguém molengou pela cozinha enquanto tomavam o pequeno-almoço. Durante a tarde haveria uma espetáculo de fantoches na praça principal da pequena cidade subterrânea e, após vários pedidos e choramingos, a Directora Drane permitira que pudessem ir se, e só se, as tarefas diárias estivessem concluídas.

Apesar de as crianças mais velhas poderem sair sozinhas para fazer pequenas tarefas, a maioria era obrigada a ficar dentro das paredes de pedra do orfanato, até uma das raparigas mais velhas se decidir a levá-los consigo até ao mercado ou a um dos pequenos templos. Por isso aquilo seria uma dupla oportunidade. Ayalal e duas outras meninas da mesma idade que ele eram a excepção: tinham autorização para sair do seu lar e ajudar em pequenos recados. No caso do rapaz, essa autorização incluía as aulas com Yudarh. Ay não estava certo de como Lysa conseguira convencer a directora a dispensá-lo durante tanto tempo, no entanto as crianças que não auferiam dessa benesse tinham acabado por juntar um novo factor à inimizade para com ele. No entanto, ali estava uma hipótese para todos poderem sair e divertirem-se.

O rapaz acabou de lavar as tigelas das papas de aveia do pequeno-almoço e saltou de cima do banco baixo que o ajudara a chegar melhor à tina de água fria apoiada na bancada. Abriu uma das portadas da janela e regressou para pegar na tina com ambas as mãos, indo despejá-la. A seguir voltou a enchê-la de água limpa para lavar alguma roupa encardida.

Enquanto estava distraído a esfregar uma camisola, Lysa espreitou-o da entrada da cozinha por um momento, antes de se encostar à parede a observá-lo com um sorriso leve. Por fim, acabou por se aproximar.

– Tão concentrado que estás na tua tarefa – notou.

A criança sobressaltou-se, tirando as mãos da água e erguendo o olhar cor de violeta. Sossegou ao ver quem era e sorriu-lhe.

– Estava a pensar nas aulas do mestre Yudarh – confessou, afastando dos olhos um bocado da franja que começava a ficar demasiado comprida. – A treinar mentalmente.

– Treinar as letras mentalmente parece complicado – comentou Lysa, arqueando as sobrancelhas. Parou ao lado de Ayalal, fitando por um momento as peças de roupa que ele havia já lavado e que estavam prontas para pendurar junto à lareira. – Eu ajudo-te com isto, para te despachares mais depressa.

O rapazito torceu o nariz face à oferta da amiga. Não que a ajuda não fosse bem-vinda, no entanto…

– Se os outros te virem vão dizer que estou a fazer batota – fez ver.

– Mas… hoje é o teu sétimo aniversário – lembrou, como quem não queria nada. – Como pequeno presente, mereces ter menos trabalho. Quer os outros gostem, quer não.

Deu-lhe um beijinho rápido no cabelo negro, antes de pegar na roupa e a levar para junto da lareira. Ainda hesitante, mas mais contente, Ay acabou aquela tarefa e levou a última peça de roupa até Lysa que, depois de a pendurar, apoiou as mãos de cada lado da cintura, com um sorriso amplo.

– Tarefa cumprida – notou, baixando o olhar para ele. – Agora podemos descansar um pouco, e depois ajudas-me com o almoço. O que achas?

A ideia de descansar agradou particularmente ao rapaz que tinha os braços doridos de esfregar tanto a loiça como a roupa. Lysa puxou dois bancos para junto da lareira, donde a tentação do calor os chamava, e sentaram-se, de pés esticados na direcção das chamas vivas. O frio do Inverno soprava através de qualquer fresta que conseguia encontrar.

– Como será o espetáculo? – perguntou Ay, curioso, enquanto imaginava a forma dos fantoches e os seus coloridos. – Será que têm uma história para contar?

– Ora, certamente que sim. Se não tivessem não seria interessante – respondeu a amiga, remexendo no bolso largo do avental que usava sobre a saia. – Mas acho que vai estar bastante frio lá fora quando formos, por isso…

Tirou do bolso uma longa tira de tecido cor de violeta, cujas extremidades acabavam em finas tranças, e estendeu-lha. Ayalal piscou os olhos e abriu a boca numa exclamação muda, antes de estender as mãos pequenas para o cachecol. Sentiu nos dedos o toque áspero mas simultaneamente fofo da lã e levou-o até ao rosto, fechando os olhos para apreciar melhor aquele presente.

– Obrigado, Lysa – murmurou, roçando a face no tecido. – Adoro-o.

– Então experimenta-o – sugeriu, observando-o com carinho. – Achei que iria condizer com os teus olhos.

Ayalal fez como ela dissera, e enrolou o cachecol em redor do pescoço, aconchegando-o bem e sorrindo de orelha a orelha, tão claramente feliz que uma pontada de comoção alagou o olhar de Lysa com lágrimas mornas. Se fosse possível, gostaria que ele tivesse sempre aquela expressão no rosto. Faria por isso, tanto quanto pudesse.

A jovem levou as mãos ao cachecol e ajeitou-o melhor, agarrando depois numa trancinha de lã, a qual aproximou de súbito do rosto do rapaz para lhe fazer cócegas. Ay encolheu o pescoço, a boca desaparecendo dentro do tecido, ao mesmo tempo que uma gargalhada lhe fugia. Lysa riu-se com ele e acabou por lhe oferecer um beijo terno sobre a fronte.

– Feliz aniversário, meu pequenino – murmurou contra a pele ebúrnea do rapaz.




*

Mosteiro das Sete Formas, 10 de Kuthona de 4592 (parte III)


O rosto do rapaz contorceu-se numa careta.

– Não foi simpático…

– Não é nada a que os meus anos de vida não me tenham habituado – notou, olhando Ay por um segundo. – Não me ofendeu e respondi-lhe com a verdade, que estava a cuidar dela, que não queria nada em troca, que estava num lugar seguro onde ninguém lhe poderia fazer mal, e que não a deixaria sair, para já, porque poderia correr perigo. Era óbvio que a Lysa não conseguia acreditar totalmente, mas também não sabia bem o que pensar a meu respeito, o que criava um impasse na sua mente. Apesar de ainda me temer, tentou aproximar-se, porém qualquer movimento brusco da minha parte fazia-a ressaltar-se e encolher-se. Por vezes deixava-a sozinha, para que tivesse o seu espaço, os seus momentos a sós. Das primeiras vezes fiquei simplesmente invisível, na mesma sala, com medo do que ela pudesse fazer ao perceber que não havia mais ninguém junto dela. No primeiro dia a Lysa limitou-se a ficar na cama, abraçada a si mesma, enquanto os soluços lhe apertavam a garganta; no segundo, houve uma primeira fase de choro, depois pareceu falar consigo mesma e recompôs-se o suficiente para explorar o que havia aqui; no terceiro, pegou num dos livros e ficou a ver as ilustrações, sentada na cama. Nunca pediu para sair de casa comigo ou perguntou o que havia lá fora, e só muito aos poucos começou a fazer perguntas sobre mim, até que acabou por se habituar à segurança que um desconhecido como eu lhe poderia oferecer. Demorou quase duas semanas, até conseguir que me dissesse o que lhe acontecera e quem lhe fizera mal. Das primeiras vezes a Lysa começava simplesmente a chorar ou escondia-se sob o cobertor e não dizia mais nada durante mais de uma hora. Por fim disse-me, meio aos soluços, de mãos enclavinhadas uma na outra e a tremer, da forma como aquele a quem chamava pai a usava, e não só ele; como a mãe virava o olhar e se afastava, sem sequer tentar impedir o que lhe faziam; como a magoavam… eu vira as nódoas negras quando a examinara, assim como as marcas de dedos e dentes nos braços magros e no pescoço.

Ay passou uma mão pelo rosto, já esquecido do chá. As lágrimas picavam-lhe os olhos.

– Como… como é que podem fazer… isso? Porquê, mestre?

Yudarh ficou em silêncio por um instante.

– São almas perversas, Ayalal. Fazer o mal dá prazer a demasiadas criaturas deste mundo – murmurou, a contragosto. – E eu tinha em mãos uma criança que passara por tudo isso. A Lysa contou-me que fugiu do acampamento em que vivia, no sopé da montanha, na mesma noite em que sofreu a queimadura do rosto. Tentara escapar-se a um dos abusos do pai e, na fuga, acabou por tropeçar e cair meio dentro de umas das fogueiras. Apesar disso, o pai espancou-a e deixou-a inconsciente do lado de fora das tendas. Quando voltou a si, a noite ia alta, e o homem encarregue da vigia adormecera. Não obstante o medo do que lhe poderia acontecer se a encontrassem, fugiu montanha acima.

– E o mestre encontrou-a e salvou-a. Se não…

Yudarh fez um leve aceno de concordância.

– Depois disso fiz por encontrar o acampamento e puni quem tinha de punir. Antes de sair disse-lhe o que ia fazer, quando regressei disse-lhe o que fiz. Não era um remédio para a sua alma, mas, a longo prazo, esperava que lhe apaziguasse os medos. A Lysa viveu comigo durante mais quatro meses, até a levar para o orfanato e entregar ao cuidado da Directora Drane. Ela sentiu-se um pouco traída por eu o ter feito e ficou chateada… mas isto não é lugar para uma criança crescer e já passara demasiado tempo comigo. Precisava de ter contacto com outras pessoas e enfrentar o medo, e eu tinha a certeza que ela o conseguiria.

O tiefling acabou de falar com um sorriso leve nos lábios, de algum modo reflectindo um misto de prazer paternal e tristeza pelo conjunto de acontecimentos que haviam traçado o caminho de Lysa até ele.

*

Não muito depois, Ay voltou ao orfanato com toda a história a ebulir-lhe na mente de criança. Não conseguia perceber por que razão havia pessoas tão más no mundo, o que ganhavam em causar sofrimento aos outros, e porque é que nenhum deus os impedia. O que é que os Todos Poderosos tinham de tão importante para fazer? Rezingou para si e, distraído com os pensamentos, tropeçou no segundo degrau.

Mal entrou, procurou pela amiga na cozinha e, não a encontrando, subiu ao andar de cima. Ao vê-la ao fundo do corredor, correu para ela e abraçou-a pela cintura.

Lysa piscou os olhos, sem perceber ao que se devia aquela súbita demonstração de afecto.

– Estás bem, Ay? – perguntou, pousando-lhe uma mão no topo da cabeça.

O rapaz ergueu o rosto e sorriu, o olhar brilhando de carinho.

– Estou. Gosto muito de ti, Lysa. Mesmo muito.

Sensibilizada pela confissão inesperada, a jovem retribuiu o sorriso e ajoelhou-se no chão para melhor o abraçar contra o peito, deixando-se ficar assim por longos e sentidos segundos. Ayalal afagou-lhe o cabelo castanho com cuidado. Duvidava que a amiga tivesse alguém que a acarinhasse de alguma forma, até conhecer Yudarh. E, depois disso, fora viver com um grupo de estranhos. Ele não conseguia sequer imaginar quão assustada Lysa não estaria, quão sozinha e desprotegida. Apertou-a melhor.

Mosteiro das Sete Formas, 10 de Kuthona de 4592 AR (parte II)


O mestre acabara por se levantar, trazendo duas chávenas para a mesa e a chaleira que pusera ao lume e que agora emanava um agradável perfume a cidreira. Serviu-os e, pouco depois, Ay pôs de lado o pergaminho e agarrou na sua chávena com ambas as mãos. Apesar da lareira acesa, o calor não era suficiente para lhe aquecer os dedos.

– Obrigado – murmurou, chegando-a até ao rosto para inspirar o vapor. Deu um golo pequeno, deixando que o líquido criasse um trilho quente até ao seu estômago, donde o calor se difundiu para as restantes partes do corpo.

Yudarh voltou a recostar-se na cadeira, com um sorriso leve nos lábios.

– Não me agradeças. Se morreres de frio no meu tugúrio, a Lysa mata-me – brincou um pouco, voltando a pegar do livro de poesia.

O pequeno riu-se e abanou a cabeça.

– Ela não seria capaz – notou, observando a superfície trémula da infusão, enquanto a imagem de uma Lysa determinada e furiosa lhe passava pela mente. Parecia tão diferente daquele estranho episódio, dias atrás, deitada na sua enxerga, febril. – Mestre… quando a Lysa esteve doente, sabe do que é que ela queria fugir?

O meio-demónio acabara de estender a mão livre para a chávena, porém deteve-a a meio caminho. A fronte enrugou-se ao franzir as sobrancelhas. Os orbes de íris vermelha avaliaram-no.

– O que queres dizer com isso, Ayalal?

O rapaz inspirou fundo, continuando a observar a chávena como se tivesse um sincero interesse na cerâmica simples com que fora feita.

– Durante as alucinações a Lysa chorou e gritou, aterrorizada. Implorou. Estavam a fazer-lhe mal… muito mal – acrescentou, o sorriso completamente desaparecido da sua expressão. – Falou no pai e na mãe, tentou fugir… literalmente.

– Perguntaste-lhe alguma coisa a esse respeito, depois de ela melhorar? 

Ay abanou a cabeça numa negativa, e pressionou os lábios por um momento, antes de responder.

– Não fui capaz – confessou. – E achei que lhe pudesse fazer mal pensar nisso. Acho que não se lembra de que teve alucinações.

Yudarh acenou, puxando a chávena para perto de si com uma garra. Àquela proximidade, deixou que um dedo circundasse o rebordo.

– Foi uma decisão sábia, rapaz – murmurou. – Esse é o tipo de fantasma que deve permanecer enterrado, para o bem dela. Se não consegue ultrapassá-lo, a Lysa precisa de o esquecer tanto quanto possível.

Ay franziu as sobrancelhas, preocupado.

– E ele não virá até aqui? O pai dela?

– Em corpo não vem. Se vier em espírito, farei questão de voltar a matá-lo. – Uma fria resolução tomou-lhe conta do olhar. Não havia ali qualquer piedade, nenhuma dúvida no passo a seguir. O rapaz teve então percepção do quão implacável Yudarh poderia ser.

– Então o mestre salvou-a? – murmurou.

– Não… Em parte. Não matei o pai dela para a salvar, matei-o porque não merecia viver. A Lysa era um pouco mais velha do que tu, tinha uns 8 anos, quando a encontrei a vaguear na montanha. Era um farrapo quase varrido pelo vento, parte do rosto em carne viva, as roupas manchadas de sangue e pó, queimadas num dos braços… tentou fugir de mim quando me viu, completamente aterrorizada.

Ay ergueu o olhar para os chifres do meio-demónio e pensou nos restantes pormenores mais demoníacos, percebendo muito bem como a amiga se poderia ter assustado ao encontrá-lo.

– Como é que a convenceu de que não queria fazer-lhe mal?

– Não convenci – O sorriso dele foi simultaneamente triste e irónico. – Lancei-lhe um feitiço para que adormecesse, antes que caísse da vertente abaixo, e trouxe-a para minha casa. Tentei mantê-la adormecida tanto quanto possível, enquanto lhe tratava dos ferimentos e da exaustão. A cicatriz do rosto não teve remédio. Sarou, mas acho já tinha demasiados dias para que não deixasse marcas.

O tiefling deu um golo no chá, mais pensativo do que propriamente perturbado com o assunto, enquanto relembrava os pormenores.

– Obviamente, e como descobri pouco depois, os danos físicos eram o menor dos seus males. Não a poderia manter eternamente a dormir, por isso, ao fim de dois dias, deixei que os efeitos do soporífero passassem por si mesmos. Quando tomou suficiente consciência de si, o terror regressou. Olhou em volta, como se algo pudesse saltar sobre ela a qualquer momento – fez um gesto para o compartimento em seu redor –, até que se apercebeu da minha funesta presença. Nesse momento, os olhos dela arredondaram-se muito e recuou contra a parede, parecendo querer fundir-se com a pedra. Encolheu-se, dando-lhe um aspecto ainda mais pequeno. Nessa altura, não tentou fugir, mas a forma como o olhar saltava entre mim e a saída nas minhas costas era óbvia. Deixei-a habituar-se à minha presença, antes de tentar falar com ela. Quando falei, não me respondeu. Podia não perceber a minha língua, mas isso não conseguia adivinhar. Em todo o caso, não me aproximei, dei-lhe o seu espaço, e ela ficou à espera. Quando lhe virei as costas para ir à estante, ouvi-a levantar-se, tentar ser discreta e encaminhar-se para a saída. Deixei-a ir. Ela experimentou todas as portas, cada uma delas trancada. Ainda assim, com o desespero, tentou forçá-las.

– Mas não conseguiu – Ay murmurou o óbvio, enquanto observava o mestre com atenção.

– Não. Ao fim de um bocado ouvi-a parar com as tentativas, e no entanto não regressou para junto de mim. Pedi-lhe para voltar, mas ela manteve-se à porta. Não insisti nem fui ter com ela, mas disse-lhe “as portas estão fechadas com magia, só eu as consigo abrir”. Não tenho a certeza se acreditou, mas houve mais tentativas de arrombar a porta principal. Deixei-a. Algum tempo depois aproximei-me só o suficiente para lhe deixar uma tigela de caldo no chão e um cobertor, e a Lysa só não trepou pelas paredes porque não conseguia. Durante três dias foi este o nosso relacionamento, e só me consegui aproximar dela usando invisibilidade, para ter certeza de que não se tinha magoado com as tentativas de fuga. A Lysa acabou por interiorizar que não conseguiria sair sozinha e que, se eu lhe quisesse fazer mal, já o teria feito. Com muita cautela, acabou por se aproximar. – Sorriu um pouco e abanou a cabeça. – A primeira coisa que disse foi: o que queres de mim, monstro?

*

Mosteiro das Sete Formas, 1 de Kuthona de 4592 AR (parte I)


Ay pegou numa pequena cesta que estava guardada na despensa, indo ter com Lysa à porta principal, meio a correr. Quando a alcançou, deu-lhe a mão e saíram para a cidade.

Nos dias que se seguiram à vinda de Yudarh, Ayalal não voltara a sentir a estranha presença fantasmagórica. Tal como antes, ajudara nas tarefas do orfanato, porém com mais ânimo, devido às melhoras que os feitiços haviam operado na sua amiga. O estranho de nome Dariun, após a sua terceira visita ao orfanato, despedira-se, sem aceitar qualquer pagamento por parte da Directora, e nunca mais fora visto nas redondezas. 

No primeiro dia em que Lysa se pudera levantar e andar pela casa, tinham ido ambos rezar a Andoletta. Durante esse momento a sós, Ay contara-lhe a respeito de quem os havia ajudado. Omitira a parte da criatura que quase o devorara – ela não precisava de mais essa preocupação, nem de saber que as lendas sobre garras sem dono que puxavam quem passava para a escuridão eram mais do que imaginação. E agora que Lysa estava quase recomposta, poderiam ir visitar Yudarh.

Pelo caminho, pararam junto a uma banca e compraram meia-dúzia de peças de fruta com algum dinheiro que Lysa juntara nos últimos tempos. A grande maioria dos alimentos vendidos na cidade era dispendiosa, devido ao processo de importação que sofria. Não crescia muito mais do que fungos e líquenes sob os cumes das Montanhas da Beira do Mundo, e sobre eles o ambiente era demasiado inóspito para a maioria das plantas e animais perdurarem, exceptuando num lugar. Na superfície existia um antigo mosteiro de monges, o qual dera o nome à cidade. Ayalal ouvira dizer que, no seu interior, havia um maravilhoso jardim habitado por árvores milenares capazes de tocar a Esfera Exterior, onde os deuses habitavam. Os seus frutos eram por isso abençoados, e só os monges se alimentavam deles.

Suspirou, enquanto via Lysa pagar pela fruta meio enfezada. Seguiram então caminho até casa do mestre Yudarh. Quando atravessaram a encruzilhada, Ay fitou o túnel onde a escuridão densa se perdia de vista. Dentro de si revolvia-se um sem número de questões a respeito de todo o tipo de coisas que poderiam viver nas profundezas e de que forma Yudarh as mantinha afastadas da população dispersa da cidade, se teria ajuda de outros guerreiros ou magos… e se o seu pai poderia viver ali. Não tinha a certeza se queria saber a resposta a essa última questão.

Lysa bateu à porta e esperaram. Passaram-se talvez dez minutos, até Yudarh aparecer. Ay perguntou-se se ele faria de propósito para demorar tanto tempo, de forma a desencorajar as visitas; se estaria a fazer algum tipo de experiência e precisaria de tempo para arrumar os utensílios mágicos; ou se simplesmente estaria a dormir.

O meio-demónio olhou de um para o outro, com a sua expressão quase sempre séria e desagradada. Lysa respondeu-lhe com um sorriso amplo. Ele acabou por revirar os olhos e soltar um suspiro, dando-lhes passagem, sem qualquer palavra, antes de fechar a porta atrás de si.

– Trouxemos alguma fruta. Precisa de se alimentar bem, mestre – notou Lysa, quando entrou na sala. Ay pousou a cesta sobre a mesa, enquanto lançava uma mirada curiosa em redor. Encontrou o bastão, que agora sabia ser realmente mágico, encostado no canto do costume.

Yudarh parou junto da mesa, espreitando o interior da cesta antes de fitar os recém-chegados com uma certa descrença.

– Não sou eu que preciso de me alimentar bem, Lysa – fez notar. – És tu e esse pequeno pirralho.

– Nós alimentamo-nos – garantiu Lysa. – Mas queremos agradecer-lhe pelo que fez. Isto não é nada comparado com as vidas que salvou. É só… um pequeno gesto. Por favor, mestre.

Yudarh coçou uma bochecha com as garras de uma das mãos e acabou por fazer um gesto resignado para que deixassem ficar a fruta por ali.

– Já que vieram, sentem-se. Vou fazer-vos um chá – disse, voltando-lhes as costas e dirigindo-se a um armário.

Lysa e Ayalal entreolharam-se, estupefactos. Aquela atitude era, decerto, estranha. Ele nunca lhes oferecera um chá.

Yudarh pôs ao lume uma chaleira com água, antes de voltar para junto deles. Fitou Lysa com mais atenção.

– Como te sentes?

– Muito melhor. Tenho os músculos ainda doridos – confessou a jovem, apoiando os braços na mesa. – E não consigo fazer esforços durante muito tempo. Mas, tirando isso, estou bem. Devo-lhe isso.

– Não fiz mais do que aquilo que estava ao meu alcance. Não foi nada particularmente difícil – notou, desviando a atenção para a criança entre eles. As suas íris de um vermelho intenso perscrutavam-no de forma tão intensa que a criança baixou o olhar. – O Ayalal fez muito mais do que eu, e é graças a ele que estás viva.

– Não – murmurou Ay, abanando a cabeça, enquanto fitava as mãos. – Foi eu que causei a doença, não fui? Não foi o rato, pois não?

Uma das sobrancelhas do tiefling ergueu-se, enquanto Lysa piscou as pálpebras, incrédula.

– Podes repetir, Ayalal? – As garras de Yudarh tamborilaram sobre a mesa, produzindo um ruído que, no silêncio, parecia quase uma ameaça.

O rapaz encolheu o pescoço e as mãos crisparam-se nos joelhos.

– Foi culpa minha, por eu ter sangue de vampiro. Devo ter passado alguma doença…

– Oh, pelos deuses, rapaz! Que raio de ideia é essa? – perguntou Yudarh, erguendo-se num movimento rápido.

Ay encolheu-se mais, temendo que ele lhe fosse bater, porém o tiefling afastou-se com passos largos até à estante que continha a sua colecção de livros. Correu os olhos pelas lombadas e acabou por tirar um tomo pesado. Abriu-o nas primeiras páginas, folheando-o depressa. Depois voltou à mesa e pousou-o diante da criança.

– Vês aqui alguma coisa que diga que os vampiros, por defeito, sejam portadores de doenças contagiosas? – perguntou-lhe, sem paciência.

A criança espreitou o livro, olhando primeiro para uma bonita mas já antiga ilustração de um homem de porte elegante, muito pálido e de incisivos salientes. Depois olhou para a restante página cheia de palavras escritas numa letra fluída.

– Ah, mestre Yudarh… – Lysa ergueu um dedo, fazendo-o desviar a atenção para si. – As Letras não são ensinadas às crianças do orfanato. O Ay não sabe ler.

Yudarh respirou fundo e fechou os olhos por um segundo, pousando dois dedos na fronte.

A voz de Ayalal soou a medo, baixinho.

– Pode ensinar-me, mestre?

O crepitar do fogo acompanhou o silêncio que seguiu a questão. Lysa olhou para o interpelado, expectante.

Yudarh desviou o olhar para a chaleira cuja água começara a ferver. Passou uma mão pelo cabelo branco e rangeu os dentes. Nesse instante, a sua expressão pareceu perder parte da severidade, como se ele próprio estivesse cansado dela.

– Posso tentar, Ayalal.

*

Mosteiro das Sete Formas, 22 de Neth de 4592 AR (parte I)


Ay acordou com um estremecimento. Abriu os olhos e ergueu um pouco a cabeça para olhar em volta. Continuava deitado no chão, ao lado de Lysa. Alguém se dera ao trabalho de o tapar com uma coberta pesada, a qual o aquecera durante as horas que haviam passado. Ainda se sentia cansado e de membros doridos, mas a mente pesava-lhe muito menos. Olhou para a amiga, deitada ao seu lado e estendeu a mão para lhe tocar a fronte. Pelo menos a febre parecia ter desaparecido por completo. O rosto descontraído levava-o a crer que o sono era pacífico, livre da maior parte das dores e pesadelos.

Baixou a mão e olhou para além de Lysa. Com passos silenciosos, Hendran movimentava-se entre os órfãos, mudando panos molhados, verificando o seu estado de saúde e se precisavam de outro tipo de atenção. Não havia sinal nem de Yudarh nem da Directora Drane. O rapaz observou as velas, tentando perceber pelo seu tamanho quanto tempo poderia ter passado – não passavam de pequenos cotos cujo pavio ameaçava apagar-se daí a não muito tempo.

Ergueu-se com cuidado e fez um leve aceno com a mão quando Hendran se apercebeu que ele acordara. Foi até à gaveta onde guardavam as velas e tirou duas, indo, com cuidado, substituir as que já tinham quase acabado. Pelo caminho, o seu estômago soltou um audível gorgolejo de fome. Há quantas horas não mordiscava um pedaço duro de pão?

– Há caldo na cozinha, ainda deve estar morno – murmurou Hendran, lançando-lhe um sorriso leve.

O pequeno não pensou duas vezes. Depois de tratar das velas, apressou-se até ao piso inferior. A cozinha estava silenciosamente vazia. A noite deveria ir já avançada para não haver por ali nenhuma criança. Foi até à panela ampla, ainda sob as achas mornas, serviu-se do caldo e devorou-o sem sair do lado da lareira. Serviu-se uma segunda vez, pescando um ou outro pedaço extra de carne cozida, e dessa vez foi sentar-se no banco corrido. Comeu mais devagar, saboreando o caldo enxabido e pensando em tudo o que acontecera nas últimas horas em que estivera acordado. Sorriu para si. Pelo menos conseguira ajudá-los de alguma forma.

Ao acabar o jantar tardio, lavou a sua tigela e voltou para o quarto, indo ajudar a jovem que vigiava os doentes.

*

Yudarh regressou ao amanhecer, quando Ayalal e a senhora Drane (que substituíra Hendran, para que a rapariga pudesse dormir), eram os únicos despertos. Como no dia anterior, o meio-demónio, sob o seu disfarce, voltou a observar os doentes e, desta vez, não só lançou dois feitiços a seis diferentes enfermos, como, no fim, voltou a observar os que já tratara antes. De dentro da capa que trazia sobre os ombros, retirou um graveto fino, não muito direito, e fez uma pergunta à directora. Esta indicou-lhe as enxergas daqueles que sofriam ou davam indícios de ter alguma hemorragia intestinal, e foi a esses que o tiefling se dirigiu.

À distância, Ayalal observava-o, atento. Tinha a certeza que aquilo só poderia ser uma varinha mágica – nunca vira de perto uma que fosse real. Yudarh baixou-se e tocou com o graveto no doente mais próximo. Os lábios moveram-se, formando uma rápida palavra de comando, e a ponta da varinha soltou um brilho branco. 

Junto do pequeno, Lysa remexeu-se sob a coberta e soltou um leve mas dorido gemido. A atenção dele focou-se de imediato na amiga. Ela piscou as pálpebras, e levou uma mão ao rosto, esfregando os olhos.

– Lysa…?

A jovem baixou a mão ao escutá-lo e rodou a cabeça para ele, fitando-o com uma expressão algo confusa. Os segundos em que ficou em silêncio pareceram demasiado longos para Ayalal. O rapaz conteve a respiração, temendo que outra crise de alucinações a tomasse.

– Ay... o que aconteceu?

Aliviado, Ayalal libertou o ar que havia retido nos pulmões. Levou uma mão pequena ao peito e sorriu-lhe com carinho.

– Estiveste muito doente. Mas agora já estás melhor, e vais ficar boa – disse. E, ao escutar-se, sentiu-se como um pequeno adulto.

Lysa suspirou, lançando uma mirada vaga ao tecto, e depois às restantes pessoas presentes no quarto. Focou o olhar em Yudarh, as sobrancelhas franzindo-se um pouco.

– Quem é? – murmurou, num tom algo vago. A sua mente estava ainda demasiado difusa para que a presença de um desconhecido a incomodasse realmente. Era quase como uma curiosidade.

Ayalal hesitou. Por um lado não se sentia no direito de denunciar o disfarce de Yudarh, por outro não achava justo que a amiga ficasse na ignorância.

Começara a debruçar-se, de forma a poder segredar-lhe ao ouvido, quando um estranho arrepio lhe percorreu o corpo. Endireitou-se de imediato e rodou a cabeça de um lado para o outro, procurando uma explicação para aquela sensação. Parecia tudo dentro do normal – os doentes descansavam nas suas enxergas, Yudarh estava junto de outra criança, enquanto a directora observava. No entanto, sentia os pelos dos braços eriçados sob as mangas da camisola. Passou uma mão pela nuca, erguendo os olhos para o tecto. Era uma sensação similar à que sentia quando as outras crianças o observavam discretamente, mas desta vez não havia ninguém a observá-lo. Engoliu em seco, quando uma ideia assustadora o assaltou. Seria a alma invisível de algum dos mortos que ficara presa ao quarto?

– Ay? O que se passa?

O rapaz baixou o olhar para Lysa, tentando disfarçar a sua repentina apreensão.

– Eu… depois explico – murmurou. Não conseguiu impedir-se de voltar a olhar em volta, agora mais discretamente.

*

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR (parte VI)


Ayalal ergueu o punho para bater à porta, porém, antes de chegar a tocar na madeira, Yudarh agarrou-lhe o braço e baixou-o com cuidado. Em vez da criança, foi o tiefling que bateu, com bastante mais força do que o pequeno seria capaz. Aguardaram por um bocado até a porta se abrir num movimento abrupto.

Desconcertado, o olhar da senhora Drane focou-se, por um momento, na figura desconhecida, antes de se aperceber da presença do órfão descalço. Os lábios formaram uma linha apertada, antes de falar.

– Agradeç…

– Encontrei esta criança a correr a cidade, meio desesperada, à procura de um curandeiro. Vim ajudar no que puder. – Yudarh interrompeu-a, num tom firme e grave.

A directora piscou os olhos, meio atordoada com a forma directa como o homem falara.

– O que… quem é o senhor? – quis saber, franzindo o sobrolho.

– Sou um viajante, com alguns poderes curativos. Mas se os meus serviços não forem realmente necessários… – Recuou um passo e chegou mesmo a dar meia volta.

Ay arregalou os olhos, o coração falhando um batimento.

– Não! – A directora esticou a mão, mas conseguiu impedir-se de o agarrar pela capa. Yudarh olhou por cima do ombro, erguendo uma sobrancelha. – Peço perdão. Agradecemos qualquer auxílio que nos possa prestar, senhor – hesitou, sendo óbvia a sua dúvida. – Mas o clérigo mais apto da cidade foi incapaz de nos ajudar. E não sei se temos como pagar-lhe…

O tiefling abanou a cabeça, afastando a menção de pagamento.

– Permita-me examinar os casos mais graves e farei o que puder.

Apesar da incerteza, a senhora Drane acabou por dar passagem a ambos, fechando a porta atrás de si. Vários pares de olhos espreitaram da cozinha, silenciosos. Yudarh lançou-lhes uma mirada vaga, enquanto seguia a directora.

– Porque nome o poderei tratar, senhor?

– Daryun – apresentou-se. – E este rapaz precisa de descansar. Está mais do que esgotado, senhora.

Drane suspirou, lançando um olhar a Ayalal.

– Esse rapaz já se esforçou demasiado nestes últimos dias – notou. – E parte da culpa disso é minha. Mas acredito que ele só conseguirá sossegar ao lado de uma das nossas jovens, quando ela estiver melhor.

O rapaz fez um aceno de confirmação. Já deixara a amiga sozinha demasiado tempo. E se tivesse piorado ainda mais? A súbita ansiedade fê-lo passar à frente de ambos e correr escadas acima.

– Ayalal!

A voz da directora perdeu-se atrás dele. A criança tropeçou no penúltimo degrau, levando as mãos ao chão para se apoiar e impedir-se de se estatelar, e continuou até à porta do quarto, onde estacou, o olhar precipitando-se para a enxerga de Lysa. A amiga estava deitada de lado, encolhida sobre si. Ofegava baixinho por entre os lábios semi-abertos. Ayalal ajoelhou-se ao lado dela, levando-lhe uma mão à fronte febril. O pano húmido que estaria a tentar aplacar-lhe a subida da temperatura havia deslizado para o chão.

Atrás dele, a senhora Drane e Yudarh entraram no quarto. A directora indicou ao homem as três enxergas onde jaziam os doentes mais graves, entre as quais estava a de Lysa, que era também a mais próxima. Ele abeirou-se, levou um joelho ao chão, ao lado de Ayalal, e pousou o bastão entre ambos.

– Eu trato dela – disse, num tom baixo, dirigindo-se mais à criança do que à directora. – Daqui a uns minutos já estará melhor. Mas precisará de descansar. Tal como tu. Se ela ficar preocupada com o teu bem-estar, piorará, por isso trata de dormir, Ayalal.

O rapaz não disse nada, mas o aceno lento confirmou que o ouvira. Retirou a mão da fronte de Lysa e afastou-se um pouco, dando-lhes espaço.

Yudarh procedeu a um pequeno exame, obrigando-a a deitar-se de ventre para cima. Ao sentir o movimento, as pálpebras de Lysa arrastaram-se morosamente e os olhos abriram-se. Fitou cada um deles, no entanto não houve qualquer reconhecimento no seu rosto, só aquele estranho medo, como se lhe pudessem fazer mal.

Após o exame, o tiefling sussurrou algumas palavras e as mãos recriaram um conjunto de movimentos fluídos que demoraram poucos segundos. A seguir pousou a mão esquerda sobre a fronte de Lysa e disse uma última palavra. Um brilho fraco emergiu de sob a palma, para desaparecer pouco depois. A jovem não tentou fugir. Na verdade, quando a luz se esvaiu, as suas pálpebras descaíram num movimento lento, e fecharam-se por completo.

Ayalal sobressaltou-se, os olhos arredondando-se de terror, enquanto os dedos se crispavam no tecido das calças.

– O que se… – começou a directora, também assustada.

– Está tudo bem. A doença foi removida e ela adormeceu devido à exaustão – informou Yudarh, após retirar a mão. – Mas a jovem continua fraca. Vou tentar restaurar um pouco da sua força, porém precisará de repouso absoluto. Todos eles. Se insistirem em levantarem-se, não o permita, directora, a não ser para fazerem somente as necessidades básicas. Por hoje conseguirei tratar de seis dos casos, no máximo.

A senhora Drane respondeu um “sim, senhor” murmurado, enquanto o via iniciar um novo feitiço, este um pouco mais demorado que o primeiro.

Quando deu por terminado o caso de Lysa, dirigiu-se à próxima enxerga, repetindo o procedimento. Ayalal pouca atenção lhe prestou, voltando a aproximar-se da amiga para a observar de perto. O rosto descontraíra-se para uma expressão esgotada mas pacífica e o corpo deixara de tremer daquela forma descontrola. Um vacilante sorriso de alívio despontou nos lábios da criança, e duas lágrimas escaparam-se-lhe pelos cantos dos olhos. Apressou-se a limpá-las à manga da camisola, não fosse Lysa acordar de repente e as visse.

Minutos depois, Yudarh ergueu-se de junto do último caso ao qual podia prestar ajuda naquele dia, para observar as restantes crianças, ao mesmo tempo que dava algumas recomendações à directora. Por fim, fitou o local onde estava Ayalal. O pequeno jazia deitado e meio encolhido, ao lado de Lysa, e ambos dormiam. O meio-demónio sorriu para si.

*

Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR (parte I)


Hendran insistira que Ay se deitasse e tentasse descansar. Ele limitara-se a lançar-lhe um olhar mortiço e abanar a cabeça numa negação. Sob as pálpebras, dois poços escuros falavam melhor do que qualquer palavra a respeito do cansaço da criança. Na verdade, o contraste com a pele pálida fazia-lo parecer mais doente do que alguns dos que padeciam da maleita.

Lysa passara a noite num sono inconstante repleto de murmúrios e esgares de angústia. Com o mimetizar exterior do nascer do dia, a luminosidade do quarto começara a crescer, assim como a sua inquietação. Ay cabeceava para a frente, lutando consigo próprio para não adormecer, quando a voz da amiga o despertou qual estalo no rosto.

– Larguem-me! – Lysa gritara e abrira os olhos, cuja atenção caiu sobre o rapaz ao seu lado. O medo inundou-lhe o rosto num reconhecimento que não era o suposto: via alguém que não era Ayalal. – Deixa-me, por favor! Isso magoa… por favor, por favor!

Soltou um soluço e tentou rastejar para longe dele. Por um segundo, Ay paralisou, chocado com tal reacção, e os músculos fraquejaram quando os tentou mover, doridos por tudo o que haviam passado nos últimos dias. No entanto, logo a seguir agarrou-a para a manter na enxerga.

Em resposta à prisão, as pálpebras de Lysa escancararam-se em puro terror. Ergueu uma mão trémula e pressionou-lha contra o rosto, tentando afastá-lo de si. Faltava-lhe porém a força.

– Lysa, sou eu – murmurou Ay, fechando um olho sobre o qual caíra um dedo magro. – Ninguém te vai fazer mal…

– Não, por favor! – implorava, as lágrimas começando a escorrer-lhe pelo rosto que se contorcia num choro sufocado. – Eu não fiz nada... larga-me, pai, larga-me! Não, não… Mãe, ajuda-me!

O rapaz fez o que pôde para a manter deitada, refreando-lhe as tentativas de o afastar, mas era difícil. O pânico dera-lhe uma falsa força e, apesar de Lysa não ser alta, ainda assim era maior do que ele, o que tornava mais difícil tentar contê-la. Acabou por, de alguma forma a largar e obrigá-la a sentar, só para a poder abraçar, fazendo por prender-lhe os braços contra o peito. Ela gritou de desespero, tentando escapar-se.

– Não vou deixar que te magoem – disse-lhe baixo, junto do ouvido, esperando que houvesse discernimento suficiente para o compreender. Pensou cada uma das palavras. – Estás segura aqui, nós protegemos-te. Somos teus amigos, a tua família. Ele não te fará mal, nunca mais.

Demorou até a jovem sossegar contra ele, levada por um choro que, devagar, se amenizou. Baixinho, Ay cantou-lhe uma música de embalar, a mesma que Lysa lhe cantava algumas vezes para o ajudar a dormir, esperando que isso fosse uma ajuda a sossegá-la. Quando achou que podia aliviar o aperto, o pequeno libertou um braço e afagou-lhe o cabelo num toque carinhoso mas algo trémulo, receando despoletar um novo ataque de alucinações. Por fim, também o choro terminou, deixando-a num sono exausto, aconchegada nos seus braços mais pequenos. Com ajuda de Hendran, voltaram a deitá-la na enxerga.

De mente esgotada por tudo o que se passara, Ayalal saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Lá fora, caminhou lentamente pelo corredor sombrio, os punhos cerrados com tanta força que as extremidades das unhas o magoavam. De súbito, parou e esmurrou a parede ao seu lado. A dor do impacto entranhou-se-lhe pelos ossos, porém foi um alívio breve ao que sentia. Inspirou fundo e engoliu em seco. Não percebia como é que não havia ninguém que os pudesse ajudar. O clérigo falhara de todas as vezes; no dia anterior ouvira Drane a contar a Hendran que os curandeiros, sabendo disso, se haviam recusado a ver as crianças, e que tinham sugerido que fossem levadas para fora da cidade, para não contaminarem os restantes cidadãos. Estavam a condená-los, não se atreviam sequer a tentar! Rosnou por entre os dentes, sentindo raiva dessas diabólicas pessoas, raiva do pobre rato que deveria ter causado aquela epidemia, raiva dos deuses a quem teciam preces, mas que na verdade eram incapazes de ajudar um bando de crianças…

Voltou a esmurrar a parede e a dor fez com que os pensamentos parassem por instantes, para a seguir ficarem a pairar na consciência. Havia neles algo de importante, sentiu, alguma coisa que lhe estava a escapar. Concentrou-se, resistindo à raiva que queria tomar posse dele. Quando se apercebeu do que era, os olhos arredondaram-se. Sentiu-se estúpido por não se ter lembrado antes.

Um instante depois, galgou pelos degraus abaixo e precipitou-se para a porta, saindo a correr para o frio da cidade, sem sequer se calçar. Atrás de si, a porta ficou aberta.

***

Mosteiro das Sete Formas, 20 de Neth de 4592 AR (parte III)


A noite acabara de cair na cidade subterrânea, quando Hendran se apercebera que a expressão de Pather se descontraíra… e que o rapaz deixara de respirar. Tentaram reanimá-lo, porém fora um esforço infrutífero. Apesar de não ter qualquer vontade de se aproximar do corpo, Ayalal viu-se obrigado a ajudar a deslocá-lo até ao andar térreo, pousando-o junto ao altar da Avó Corvo e cobrindo-o com um lençol. O olhar divino velar-lhe-ia a alma pela noite adentro. Ay ficou quieto e em silêncio, enquanto a directora e Hendran rezavam uma prece murmurada a Andoletta. Não era capaz de olhar para o incaracterístico volume deitado no chão frio sem que uma onda de terror o submergisse. Era como se nada conseguisse deter a doença, como se cada um dos enfermos tivesse a sentença ditada.

Horas depois, quase como confirmação desse pensamento, um segundo corpo juntou-se a Pather. Após uma convulsão que lhe arqueara as costas de forma quase sobrenatural, a vida abandonara o corpo da rapariga que tivera o ataque de espasmos durante a manhã. Ver uma mulher quase adulta a perecer arruinava qualquer esperança que pudessem ter. Tentaram retirar o corpo sem acordar os que já dormiam ou estavam tão doentes que a consciência pairava entre uma realidade nublada e o delírio da febre.

Ainda não tinham atingido a madrugada do dia seguinte e já o quadro geral os devastava: os doentes que estavam mal haviam piorado para o estado que antecipara a tragédia. A febre subira e não parecia haver forma de querer baixar, as dores faziam-nos gemer numa sinfonia de horror, e os murmúrios desconexos abalavam quem os escutava.

Foi impossível para Ayalal conseguir dormir. Um nó de aflição esmagava-lhe o peito, tornando quase difícil respirar. Por isso, sob a luz trémula de uma vela, manteve-se sentado junto da amiga, refrescando-lhe o rosto com um trapo molhado, enquanto as horas rastejavam pela noite.

***

Mosteiro das Sete Formas, 20 de Neth de 4592 AR (parte I)


O clérigo Itori regressou e voltou a partir, com um sincero e trémulo pedido de perdão. O seu feitiço divino, que deveria curar Pather, falhara. Depois disso, ainda desencantara um pergaminho do interior da mala a tiracolo que trouxera, e lera o feitiço nele embutido. As palavras emitiram um brilho amarelado, e consumiram-se pela magia, desaparecendo. No entanto, o resultado não fora diferente da primeira tentativa.

Após a saída do servo da deusa Sarenrae, a Directora ficara parada à porta do quarto, observando os acamados, a testa formando uma série de rugas firmes. Poucas eram as crianças cujo estado estava razoável: conseguiam alimentar-se, apesar de enfraquecidas, e erguiam-se sozinhas, se se esforçassem. Porém as restantes decaíam depressa. Cerrou um punho com força.

– Ayalal – chamou.

De onde estava, junto de Pather, o rapaz fingiu que não estivera a olhá-la discretamente. Hendran retirara-se há não muito tempo para recuperar das horas que passara em claro a cuidar do órfão.

– Sim, senhora Drane? – perguntou, deixando a tina de água em paz por um momento. Os dedos estavam dormentes da frieza em que mergulhavam. Apertou-os sobre as coxas, aguardando.

A directora levou uma mão ao queixo, hesitante e pensativa, depois abanou a cabeça numa negativa. Os ombros descaídos e as costas levemente vergadas denunciavam como a epidemia roubava forças à mulher de meia-idade, sem necessitar de a contaminar.

Afastou-se do quarto, sem nada mais dizer. Pouco depois, lá em baixo, Ay escutou uma das portas principais bater.

O tempo passou devagar. Ele foi cuidando de todos como podia, no entanto, ao dar mais atenção a Pather, acabava por inevitavelmente descurar outros. Só teve completa noção disso quando, a algumas enxergas de distância, ouviu um ofegar forte, seguido de movimentos rápidos. Assustado, ergueu-se de um salto, enquanto o olhar pulava de pessoa em pessoa, até se aperceber quem era. Correu para lá e, sem ter a certeza do que fazer, tentou agarrar o corpo da jovem que estremecia violentamente com convulsões. Falhou à primeira tentativa, mas à segunda prendeu-lhe os braços, mantendo-a de costas junto ao chão. Não conseguia fazer nada quanto às pernas que chutavam o ar e se contorciam, nem ao pescoço que por alguns momentos quase parecia deslocado.

– Hendran! – gritou Ay, aflito. – Hendran!

Não obteve resposta. Apesar da porta aberta, a outra rapariga estava a alguma distância, a recuperar da exaustão. Era pouco provável que o escutasse.

Por entre os espasmos, o corpo foi incapaz de controlar o interior, e foi possível primeiro ouvir e depois sentir o odor forte e repulsivo de dejectos e sangue. Ayalal conteve a respiração por uns segundos, obrigando-se a ficar ali, mentalizando-se de qual era a sua tarefa. Ao fim de não muito tempo, os espasmos começaram a diminuir. O rapaz não a largou. Deixou passar largos minutos, olhando o rosto avermelhado e suado da jovem, até os músculos pararem por completo. A medo, soltou-a, e, ao mesmo tempo, observou-a com muita atenção. Lembrava-se bem do que acontecera à bebé após a convulsão – acabara morta. Apesar do movimento ser fraco, o peito dela ainda se movia com a respiração.

Passando ambas as mãos pelo rosto lívido, Ay pensou no que fazer. A directora não estava, Hendran precisava de descansar, e pedir ajuda às outras crianças estava fora de questão. Não só correriam um risco maior de ficarem contaminadas, como duvidava que colaborassem sequer consigo. Mordeu o lábio inferior, controlando uma súbita vontade de chorar, e impedindo um soluço de se soltar.

O toque leve de uma mão nas suas costas fê-lo estremecer. Baixou as mãos e olhou para o lado, arregalando os olhos, meio assustado. Lysa fizera o esforço de se levantar e ir ter com ele, apesar de não conseguir sequer disfarçar os tremores do corpo.

– Eu ajudo-te – murmurou, muito baixo. As pálpebras fecharam-se por um instante. – Ainda consigo.

– Vai deitar-te! – Ficou quase em pânico por vê-la ali. – Não podes fazer esforços, ficas pior. Eu trato de tudo. Eu consigo.

Mais importante que ele próprio interiorizar isso, era fazer Lysa acreditar. A mão nas costas de Ayalal fez mais força, já não estando propriamente a dar-lhe apoio, mas mais a apoiar-se para não tombar.

– Ay, não quero que faças tudo sozi… – começou a dizer, no entanto interrompeu-se para engolir em seco, levando uma mão à zona do estômago. Inspirou devagar, provavelmente tentando controlar as náuseas.

– Cuidas sempre de mim. Desta vez sou eu – disse Ay, dando um tom decidido às palavras.

Ela ia argumentar, mas levou a mão livre à boca. Apesar de contrariada, o rapaz conseguiu levá-la para a cama, devagar. A seguir foi buscar água e toalhas limpas e, embora o embaraço por tal tarefa não fosse pequeno, tratou da outra rapariga o melhor possível, despindo-a e limpando-a. O pior, ainda assim, era o fedor a sangue que o desafiava. No entanto, resistiu.

Lysa observara-o da sua enxerga. Quando Ayalal terminou, lançou-lhe um sorriso breve de encorajamento, ao qual ele tentou retribuir, mas não conseguiu. A criança preparava-se para se sentar a um canto e descansar por meia dúzia de minutos, quando ouviu um guincho, abafado pela distância, vindo do andar inferior.

***

Mosteiro das Sete Formas, 19 de Neth de 4592 AR (parte III)


O clérigo prometera voltar logo pela manhã do dia seguinte, para tentar um novo feitiço. Ay e Hendran, a única jovem que, por milagre, ainda não havia adoecido, continuaram a cuidar dos doentes, enquanto a directora tirara algumas horas para tratar da vida que se perdera. O sossego que tiveram foi pouco.

Após ter entrado no quarto, o rapaz forçou-se a permanecer e suportar o odor a sangue que lhe remexia com os sentidos. O choque inicial passara, no entanto a perturbadora sensação de que tinha diante de si um banquete onde não poderia tocar horrorizava-o. Repetiu mentalmente que nada era mais importante que ajudar no que pudesse, por quem estava doente… pela pessoa que mais o amara durante aqueles anos.

Depois de ter tentado alimentar toda a gente, e de se obrigar a comer também um pouco do jantar, Ayalal deitou-se no chão, ao lado da enxerga de Lysa. A amiga estava acordada, observando-o com uma aparente dificuldade em manter os olhos abertos. Forçou um sorriso na direcção de Ay e deixou uma mão escorregar pelo chão na direcção dele, vacilante. Ele pegou-lhe com ambas as suas, mais pequenas, amparando-lhe a tremura. Uma humidade fria e doentia apoderara-se dela. Encostou-a ao seu rosto e aos lábios, tentando passar-lhe um pouco do seu calor.

– Desculpa, pequenino – murmurou, tão baixo que seria difícil alguém ouvir, para além dele. – Estou a dar-te tanto trabalho…

– Não penses nisso. – Manteve a mão dela encostada a uma bochecha. – Queria fazer mais, mas não consigo, Lysa.

– Tonto… já fazes demasiado. És só uma cri… – O sorriso esmoreceu por um momento, sendo substituído por um esgar de dor e a mão retraiu-se entre as dele. Ela reteve a respiração e fechou os olhos com força.

Ayalal semi ergueu-se do soalho, preocupado, apoiando-se num cotovelo.

– Lysa, posso…

– Não – arquejou – Já passou… já passou… não é nada de mais…

Mas era, e ele não sabia como ajudar. Podia rezar a todos os deuses, mas se algum quisesse realmente socorrê-los, já o teria feito. Estavam por sua conta. Quando a expressão da amiga descontraiu um pouco, Ayalal voltou a pousar o corpo no chão. Porém, no peito o coração ainda batia descompassado, temendo por ela.

As duas velas que iluminavam parcamente o quarto apagaram-se. Ay continuou a observar Lysa, apesar de agora ela ser incapaz de o ver.

– Não queria que tivesses de passar por isto – murmurou a jovem, por entre os gemidos baixos que, por si só, se tinham transformado numa espécie de atmosfera. – És só uma criança, e tão pequena.

Com cuidado, Ay largou a mão que segurava e empurrou-a de volta para a enxerga, tapando-a também com o cobertor. A seguir acariciou-lhe o rosto, tocando a cicatriz que a marcava. Lysa fechara os olhos e a respiração tornara-se mais suave.

– Eu também não queria que passasses por isto – respondeu. Não obteve resposta. Lysa cedera ao cansaço e acabara por adormecer, ainda que desassossegada.



De madrugada, Ay deu um salto do canto onde dormia, ao escutar um guincho de pânico. Olhou em volta, tal como alguns dos que haviam também acordado sarapantados, sem perceber o que se passava. Acabou então por detectar um trémulo braço erguido – Pather apontava para o tecto, horrorizado, ao mesmo tempo que se tentava sentar. As dores, no entanto, não lho permitiam, obrigando-o somente a contorcer-se e a arrastar-se, tentando fugir.

Ayalal ergueu o olhar para o tecto, descobrindo que estava vazio, como sempre estivera. E mesmo que não estivesse, por entre a escuridão, outra pessoa seria incapaz de ver fosse o que fosse.

– Ajudem-me! – O grito de Pather encheu o quarto. – Ela vai devorar-me, sal…salvem-me!

Passos rápidos percorreram o soalho e a porta abriu-se, deixando entrar uma nesga de luz fraca. Um vulto saiu, regressando pouco depois com uma vela acesa. Os que estavam mais perto puderam então testemunhar o puro terror com que o rapaz fixava o tecto, os olhos tão abertos que ameaçavam saltar das órbitas.

Ay levantou-se e saltou por cima de Lysa para chegar ao órfão. Tocou-lhe na fronte, somente para confirmar a forma como a febre lhe havia tomado a mente e distorcido a realidade.

– Hendran, água fria! – pediu Ay, agarrando-o para impedir que fugisse da enxerga. Pather esbracejou, atingindo-o ainda com uma cotovelada no queixo, porém a sua força estava tão deteriorada que pouco lhe doeu. – Nós estamos aqui para e ajudar, não vamos deixar que a coisa te faça mal.

A outra jovem havia já ido buscar a tina com água e pousava-a do outro lado do rapaz. Ensopou o trapo e passou-lho no rosto, enquanto Ayalal o prendia e forçava a deitar-se. Não era fácil, a inquietação dos delírios tornavam-no como cego e surdo a tudo o que não fosse a criatura imaginária que o atacava. Os minutos passaram-se, longos. Alguns dos doentes continuaram a observá-los, enquanto outros voltavam-lhes as costas e encolhiam-se sobre a roupa da cama. Pather acabou por se acalmar, em parte por exaustão, em parte pelo pano frio que se esforçava por arrefecê-lo.

Por fim, Ay largou-o, sentando-se no chão e enchendo os pulmões de ar. Suava por todo o lado, de nervosismo e cansaço. Levou ambas as mãos as rosto, deixando-as esconderem-lhe os olhos e o esgar de frustração.

– Vai dormir, pequeno.

Ayalal entreabriu os dedos, e espreitou Hendran. Tinha, talvez, mais um ano do que Lysa, mas o cabelo em desalinho e as olheiras profundas envelheciam-na muito além disso. Uma parte de si queria insistir e mantê-lo acordado, a outra só ameaçava cair para o lado para dormir e não mais acordar. Após uma hesitação, acabou por assentir e arrastou-se até ao seu cobertor. Não deu conta de ter adormecido.

***