Mosteiro das Sete Formas, 21 de Lamashan de 4592 AR (continuação)


– Meninos – A directora Drane chamou-lhes a atenção, num tom pouco simpático. Não obstante, alguns lançaram-lhe somente uma mirada rápida, para poderem voltar a observar o anjo. – A senhora Sëdara veio até aqui partilhar a sua generosidade, com um presente para cada um de vós.

Ayalal olhou o anjo com mais atenção e percebeu que ela trazia na mão um saco cheio com alguma coisa. Ela deu um passo à frente e inclinou-se um pouco, como se tentasse ficar à altura das crianças. Nas suas costas, as asas agitaram-se ligeiramente.

– Olá a todos – disse, com simpatia. – Fico muito feliz por vos conhecer. A senhora directora disse-me que são todos muito bons meninos, por isso trouxe-vos isto...

Abriu o saco e tirou um bolo do tamanho de um punho fechado. Estendeu-o à criança mais perto, Myria, que a olhava, fascinada. Os olhos da pequena escancararam-se e esticou os braços timidamente, pegando na oferenda com todo o cuidado que as pequenas mãos continham.

– Muito obrigada! – A voz, mais fina que o normal, denunciava o seu quase histerismo.

O anjo riu-se e deu-lhe uma festa na cabeça, que a deixou nas nuvens, antes de continuar a distribuição dos bolos por todas elas. Algumas sorriram-lhe em forma de agradecimento, duas tiveram a ousadia de a abraçar. Por reflexo, a directora abrira a boca para as repreender, porém pensou melhor e conteve as palavras.

Ay, o último a receber, pegou no bolo que lhe era estendido. Nunca tivera um pedaço de doce tão grande em sua posse. Iria guardar para partilhar com Lysa e pediria para irem visitar Yudarh, dessa forma poderia também dar-lhe um pouco.

– Obrigado – murmurou, levantando o olhar para o anjo. Ela observava-o com um sorriso que era mais do que simpático. Havia ali algum divertimento e a expressão retinha um interesse disfarçado. Por alguma razão que ele próprio não sabia explicar, encostou-se melhor à parede, numa tentativa de aumentar a distância entre eles. Voltou a olhar o bolo, incerto. Teria veneno?

– Sobraram alguns – notou o anjo, relanceando a directora. – Poderiam dividi-los por todos, mais tarde.

Drane concordou com um aceno sério, antes de relancear a satisfação das crianças que viviam no orfanato. A expressão descontraiu um pouco.

– A senhora Sëdara deseja também adoptar alguns de vós – anunciou. E, de súbito, os bolos foram esquecidos, os comentários sussurrados silenciaram-se. O bando de pequenos maltrapilhos focou-se completamente na jovem angelical.

– É verdade. Gostava de tornar-me na mãe de cinco de vós, para já. Se ninguém se importar.

E, depois do silêncio, houve uma súbita turbulência de mãos a levantarem-se e crianças a rodearem a jovem que ergueu as sobrancelhas, estupefacta com tanta comoção.

– Oh, tanto entusiasmo! Vamos acalmar-nos, vamos… – pediu num tom brando. – Vá, eu não me vou já embora…

Ay manteve-se onde estava, enquanto a pequenada tagarelava ao mesmo tempo, tentando fazer-se ouvir e reclamar um lugar como filho adoptivo.

– Meninos! – A voz da directora ouviu-se por cima da de todos, ríspida, cortante. Não foi um efeito instantâneo, mas os órfãos acalmaram-se. – Para os vossos lugares, imediatamente. Se voltarem a comportar-se dessa forma, ficarão de castigo até serem adultos.

O anjo inspirou fundo e ajeitou o vestido simples porém de boa qualidade, ao qual algumas das crianças se tinham agarrado.

– Eu – Sëdara enfatizou a primeira palavra – irei escolher-vos.

Com dificuldade, a pequenada conteve-se. O anjo deslocou-se até à ponta contrária àquela onde estava Ayalal para, num passo lento, caminhar diante deles, estudando-os e indicando com um dedo cada um dos seus escolhidos. A quinta pessoa, um rapaz de 10 anos, situado a três lugares de distância de Ay, sorriu de puro contentamento, quando um dedo recaiu sobre ele. Atrás deles, já Myria saltava de contentamento no seu lugar, rindo-se e chorando ao mesmo tempo.

A mulher parou, levando um dedo aos lábios, pensativa. Deu mais duas passadas e parou à frente de Ayalal. O rapaz retesou-se e engoliu em seco quando a viu dobrar-se, apoiando as mãos nos joelhos.

– Na verdade, seis é um número perfeito. Vem comigo, pequeno.

***

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