Mosteiro das Sete Formas, 21 de Lamashan de 4592 AR (continuação III)


Após a saída de Sëdara, um pesado silêncio caiu entre todos. Era muito raro alguém adoptar uma criança. Cinco, de uma só vez, deveria ser inédito até para a Directora Drane. A responsável inspirou fundo e observou os órfãos cabisbaixos.

– Meninos, vão comer o vosso bolo para a cozinha. – Apesar do tom brando, era uma ordem à qual nenhum desobedeceria.

As crianças formaram uma fila torta que seguiu, algo arrastada, pelo corredor. Lysa puxou Ayalal pela mão, para que fechassem o grupo, contudo a mulher mais velha pousou neles o olhar.

– Quero falar com ambos. Entrem e fechem a porta – disse, desaparecendo dentro do próprio gabinete.

A jovem respirou fundo, passando a mão livre pelo rosto. As bochechas estavam quentes da tensão a que se impusera quando enfrentara o ser celestial. Observou Ayalal. Continuava assustado, como se tivesse acabado de ver uma alma penada.

– Ay – murmurou, levando ambos os joelhos ao chão e ficando um pouco mais baixa que ele. – Não sei o que viste, mas não fales disso à senhora Drane. Conversamos mais tarde e contas-me tudo, pode ser?

O pequeno escutou-a, absorvendo as palavras. A voz de Lysa serenava o receio que lhe apertava o peito, como a canção de embalar de uma mãe.

– Eles são maus. Eu sei que são maus – murmurou, ao fim de alguns segundos. – Não podemos deixar que os levem. Vão fazer-lhes mal.

Não tinha a certeza de onde Ayalal tirara tal ideia, porém a expressão mais que preocupada da criança transmitia uma crença verdadeira.

– Ay, não lhes vai acontecer nada de mal. Aquelas pessoas não eram más, só um pouco diferentes daquilo a que estamos habituados por aqui. Foi isso que te criou essa impressão.

Ele queria acreditar. No final de contas, aquilo era um anjo, e os anjos eram sempre bons, todos diziam o mesmo. Ainda assim…

– Desculpa – murmurou. Não tinha uma razão lógica, porém era simplesmente incapaz de acreditar nas boas intenções de quem visitara o orfanato.

Lysa sorriu-lhe da forma terna e compreensiva que reservava sempre para ele. Agarrou-lhe o rosto com ambas as mãos e depositou-lhe um beijo na fronte.

– Vamos falar com a senhora Drane?

Ay acenou e a jovem endireitou-se. Deu a volta a Ay e empurrou-o com cuidado à sua frente.

O escritório era um compartimento pequeno. De um dos lados, uma janela quadrada permitia que a luz artificial da cidade entrasse de forma tímida; do lado oposto, erguia-se uma estante algo torta e com mais pó do que livros. Sentada atrás da sua secretária, a directora não parecia impaciente. Na verdade, a expressão era pensativa, enquanto os dedos tamborilavam na madeira.

– Sentem-se – disse, indicando duas cadeiras diante de si. Observou a tensão de um e outro enquanto seguiam a indicação. A madeira velha gemeu até sob o peso da criança. – O que fizeram há pouco foi imprudente e desrespeitoso. Mas… – fez uma pausa e sorriu. – Admito que fiquei espantada e satisfeita.

Ayalal e Lysa entreolharam-se. Nenhum dos dois esperava o que aparentava ser uma aprovação, mesmo que reticente.

– Senhora… – começou Lysa, porém a directora ergueu uma mão que a silenciou.

– Quem te deixou aqui – encarou Ayalal – pediu para que cuidássemos de ti. Se quisesses ir com a senhora Sëdara, ninguém te impediria. No entanto, se sentes que és mais feliz no orfanato, junto da tua família – o olhar desviou-se para Lysa –, então o teu lugar é este, até decidires partir. E que nada te obrigue a fazê-lo. Estamos entendidos?

A cabeça de Ay moveu-se quase autonomamente num assentimento. Imaginara que a directora fosse a primeira a querer mandá-lo embora, seria sempre menos uma boca para alimentar. Agora percebia que estivera enganado. Poderia ficar ali com Lysa, até ser crescido e começar a trabalhar, pelo menos.

– Vão lá então ter com os outros – dispensou-os, recostando-se na cadeira.

Lysa ergueu-se, com um alívio óbvio, porém Ayalal não o fez. A mão que não segurava o bolo agarrou o seu lado respectivo do assento, forçando-se a ficar ali. Mordeu o lábio inferior ao de leve, até ter coragem de formular a questão.

– Quem é que me deixou aqui?

A directora arqueou um pouco as sobrancelhas, antes de soltar um suspiro.

– Não sei, Ayalal. Foi a Lysa que te encontrou aqui à porta. Contigo vinha um bilhete e algum dinheiro.

Os ombros do rapaz descaíram e a cabeça inclinou-se um pouco para a frente, desanimada. Não era um assunto sobre o qual pensasse muito, em comparação com outras crianças. No entanto, ao escutar a senhora Drane falar de tal presença anónima, o interesse que vivia nas suas profundezas viera à tona.

– Ainda tenho aqui o bilhete – disse a directora, abrindo a gaveta e tirando um caderno gasto do interior. Folheou-o por instantes, até retirar de entre duas páginas de anotações um pequeno pedaço de pergaminho, estendendo-o a Ayalal.

Ele olhou-o com receio, como se o pudesse morder. Hesitante, largou a cadeira e estendeu a mão para o agarrar. Só após deixar o escritório é que teve coragem de ver o que estava escrito. A caligrafia era trémula, algumas letras estavam esborratadas e outras ténues, como se a mão de quem as escrevera não tivesse encontrado a firmeza necessária.

Inspirou fundo e acabou por guardar o bilhete no bolso. Um dia seria capaz de o ler.

***

Sem comentários:

Enviar um comentário